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domingo, 14 de abril de 2013

A Noite Sangrenta 2
 Fui à procura da carta-prefácio de Raul Brandão, em suporte digital, e encontrei textos, além do próprio Raul Brandão, de António Sérgio, Jaime Cortesão, Raul Proença e Raul Rego. Mais haverá, mas chega e sobra para fazer uma ideia bastante precisa. Com a devida vénia aos autores e proprietários de blogues e sítios.

http://arepublicano.blogspot.pt/2009/10/noite-sangrenta-19-de-novembro-de-1921.HTML

http://republica-sba.webnode.com.pt/products/depois-veio-a-noite-infame/

http://www.centenariodarepublica.org/centenario/2008/12/02/a-noite-sangrenta-i/

http://www.centenariodarepublica.org/centenario/2008/12/02/a-noite-sangrenta-ii/

http://www.wook.pt/ficha/a-noite-sangrenta/a/id/100998

Nota: Como o primeiro endereço, acima, não abre a partir deste blogue, resolvi aqui pôr o documento, expurgado dos comentários.


SEGUNDA-FEIRA, 19 DE OUTUBRO DE 2009


A NOITE SANGRENTA – 19 DE OUTUBRO DE 1921



"Depois veio a noite infame [19 de Outubro de 1921], onde, além dos actores visíveis, dos marinheiros e dos soldados, dos bonifrates que actuaram entre gritos de loucura, entrou outro actor tremendo, do qual não pudemos mais desviar os olhos – e que não devia fazer parte da peça. De tarde, aquele desgraçado [António Granjo] via os homens porem-lhe cerco como a um bicho e o seu suor era já de agonia. Via-os aproximarem-se – ouvia-os falar na escada do prédio onde se refugiara 

[António Granjo residia na Rua João Crisóstomo e a sua casa confinava, pelas traseiras, com a morada de Cunha Leal, na Av. Miguel Bombarda, para ondeGranjo procurou abrigo, avisado do perigo que corria por um vizinho e seu Irmão da maçonaria, Bernardino Simões, comerciante – consultar, Rocha Martins, “Vermelhos, Brancos e Azuis”, vol.2].

Veio depois a noite e eu tenho a impressão nítida de que a mesma figura de ódio – o mesmo fantasma para o qual todos concorremos – passou nas ruas e apagou todos os candeeiros. Os seres medíocres desapareceram na treva - os bonifrates desapareceram: só ficaram bonecos monstruosos, com aspectos imprevistos de loucura e de sonho, que na camioneta fantasma[nome como foi conhecida a camioneta, que transportava os assassinos (10?) que levaram a cabo os crimes perpetuados nesse dia. Entre eles estavam,Benjamim Pereira, Manuel José Carlos e Abel Olímpio (o Dente de Ouro). Pelo que é referido por Berta Maia, viúva de Carlos da Maia (um dos assassinados) a camioneta foi fornecida pelo tenente Mergulhão] procuravam as suas vítimas. Noite de chumbo. No quarto andar da Rua da Madalena, a sombra esmagava-me o coração, reduzindo-o a cisco. Na taberna em frente a mesma música reles de todas as noites não cessava de tocar num realejo a que um galego dava corda ... E a noite prolonga-se, sórdida e satânica.

A essa hora o desgraçado consumia a sua agonia no Arsenal, entre rugidos das bestas desencadeadas. – Sangrem-no como a um porco!

Outro [Carlos da Maia] é arrancado dos braços da mulher, que grita inutilmente, cheia de dor, pedindo piedade para o marido e o filho que tem nos braços. E a camioneta, onde os bonecos se agitam, percorre as ruas negras, alucinante e trágica. – Almirante [Machado dos Santos], é a sua hora: vai ser fuzilado! – E a voz daquele ingénuo, que quis ser político, jornalista e revolucionário e vai ser, de encontro a uma parede, um farrapo humano a escorrer sangue por todas as feridas, responde: Veja – diz ele para o bandido que lhe fala – que as minhas pulsações não aumentaram. (...)

Se todos nos quiséssemos ouvir, encontraríamos, talvez, dentro da nossa alma, a explicação da noite infame e compreenderíamos por que ela foi possível. Ódio, terror e o desconhecido. Andaram também metidos nisso políticos e, ao que se diz, até um padre 

[referência, presume-se, ao Padre Lima (natural de Estivares), e que juntamente com Fernando de Sousa, ambos do jornal A Voz, mais o tenenteMergulhão, Gastão de Matos, Luiz Moutinho de Carvalho, Carlos Pereirae o Conde de Tarouca, foram considerados, na época, como os principais mandantes dos assassinatos em cadeia – vidé, Berta Maia, As Minhas Entrevistas com Abel Olímpio ‘O Dente de Ouro’, Lisboa, 1929]

– nas ruas são as personagens insignificantes que entram em todas as tragédias. Quem os mandou matar? – porque estas coisas nunca são espontâneas. (...) 

Raul Proença, in Memórias, vol. III

J.M.M.
     A Noite Sangrenta, de novo
    
     Dizia, ontem, que o episódio da morte de António Granjo, se não o disse pensei-o, devia ser do conhecimento dos portugueses, através de um opúsculo, que nos servisse de memória. Convém conhecer o bem e o mal. As histórias, também fazem parte da história. Lembro de ter lido narrativas circunstanciadas sobre o episódio da fragata Charles et George, de lutas de D. João V para fazer prevalecer contra uma potência estrangeira um cerimonial de precedências, afirmando a nossa dignidade de portugueses, e outras, por exemplo,  sobre situações ocorridas durante as invasões francesas. Li, não há muito, o relatório de Cenáculo sobre os acontecimentos de Évora, ai, ai... Ai dos vencidos ou que temporariamente estão nessa situação. Mas a vida continua.

     Ao ver, hoje, de fugida, um catálogo que a In-Libris fez chegar ao correio electrónico, deparo com um livro dedicado ao assunto em título. Se a rubrica «livros» do meu orçamento tivesse ainda cabimento para livros, este não podia falhar. É assim. Aqui vai uma cópia.

A Noite Sangrenta


CONSIGLIERI SÁ PEREIRA
carta-pref. Raul Brandão
capa de Alberto Souza

Lisboa – Paris – Porto – Rio de Janeiro, 1924
Livrarias Aillaud e Bertrand / Livraria Chardron / Livraria Francisco Alves
1.ª edição
18,9 cm x 12,1 cm
188 págs.
exemplar muito estimado; miolo limpo
ostenta no frontispício carimbo de entrada em biblioteca particular
peça de colecção
45,00 eur

Da portada do livro:
«Neste livro se faz descrição completa da maneira como foi assassinado Antonio Joaquim Granjo, ao pôr do Sol do dia Dezenove de Outubro do ano de Mil Novecentos e Vinte e Um, no Arsenal de Marinha da cidade de Lisboa, bem como da sua vida e dos acontecimentos que precederam tão trágico sucesso. Não quere o autor proceder à descrição por igual detalhada das mortes de Antonio Machado Santos, Carlos da Maia, Botelho de Vasconcellos e Freitas da Silva, porque delas não teve conhecimento tão amplo como da primeira. [...]»
António Granjo desempenhava, na altura, funções de primeiro-ministro.

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