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terça-feira, 16 de abril de 2013

    
Jornais dos anos 20, em Torres

Jornal  A RECONSTITUIÇÃO
(Semanário, do n.º 1 ao 24 — 1922-23)

— Que raio de nome! — digo eu, antes de abrir esta colecção encadernada de jornais. Entre três jornais, à escolha, abrigados nas suas encadernações, escolho este, pela bizarria do nome, amplamente justificada, pelo cabeçalho, que agora admiro.

ASSINATURAS (Pagamento adian-
  tado): Ano, 5$00 – Semestre,
  7$50 – Numero avulso, $10
  Centavos (100 réis).
ANUNCIOS e Comunicados na 1.ª
E 2.ª paginas, preços conven-
Cionais; na 3.ª e 4-ª, cada
Linha ou espaço de corpo 8, $20
Os autógrafos, publicados ou não,
     Não se restituem.
A  RECONSTITUIÇÃO

ANO I — N.º I                                                 Torres Vedras, 16 de Julho de 1922
ORGÃO LOCAL DO PARTIDO REPUBLICANO RECONSTITUINTE, DIRIGIDO PELA COMISSÃO  MUNICIPAL
                         Composto e impresso na Tip. e Pap. da S. Progresso Industrial – Torres Vedras  Editor: José Vieira Propriedade da Empresa “A RECONSTITUIÇÃO”

Logo na primeira página, o meu amigo Moura-Guedes. E digo isto, pelo convívio que tive com ele, na leitura de A NOSSA TERRA, que tenciono retomar. Bem à vista, na habitual SECÇÃO LITERÁRIA (poesia, uma sede que nunca acaba), o soneto «SOMBRAS». A assinatura é bem visível nas letras maiúsculas: MOURA GUEDES. Sombras ao meio dia, mão invisível, a pobreza e a velhice desamparada.

SOMBRAS

                                            Sôbre a poeira ardente dos caminhos,
                                                                   Ao cálido fulgor dum sol a prumo,
                                                      Passam errantes – como naus sem rumo
                                                      No grande mar da vida – os pobrezinhos.


                                             Sobem dos lares espirais de fumo…
                                                       E eles passam, lembrando velhos ninhos
                                                       Onde houve pão, talvez, em alvos linhos
                                                                     E houve dos cachos o divino sumo.


                                            Ardem ao sol as pálpebras vencidas,
                                                      Onde secaram lágrimas perdidas
                                                      Que ninguém viu, nem enxugou ninguém.


              E as alvas barbas brancas dos velhinhos vão
                                                      Como farrapos que invisível mão
                                                                    Parece ir atirando para àlém.»
                                                                                              MOURA GUEDES.

Este reencontro com Moura-Guedes é em cheio: logo na página dois, uma carta aberta ao Sr. Alberto Vieira da Mota (duas colunas inteiras, toda a página três e toda a quatro). Assina: Justino Freire de Moura Guedes. A assinatura por extenso é intencional e percebe-se, pela leitura do texto.

*
Títulos da primeira página:

RECONSTITUIÇÃO (editorial, duas colunas); Telegrama; A PROPÓSITO (artigo de opinião); SECÇÃO LITERÁRIA; “SECÇÃO LITERÁRIA”; Uma festa d’Arte; A RECONSTITUIÇÃO vende-se na Papelaria da Sociedade Progresso Industrial …      … .
     
RECONSTITUIÇÃO — O antecessor de A RECONSTITUIÇÃO é o Ecos de Torres, de que não se repudia, na generalidade, a obra, mas com maior serenidade e ponderação. «Queremos a luta sã de ideias, e pugnaremos sempre, sem desfalecimentos, por tudo o que representar aspirações generosas de verdadeiros republicanos.» «Queremos reconstruir e, humildes obreiros de uma obra imensa, esperamos de todos os homens bons do nosso Concelho, de todos os que aspiram à felicidade do nosso Povo, que os auxiliem com o seu leal esforço e nos encaminhem com os seus conselhos de protecção.»

Telegrama — ao dr. Álvaro de Castro, líder do PRR, pelo restabelecimento dos exames do 2.º grau de instrução.

A PROPÓSITO… — F. d’Alma defende os rapazes novos contra o que disse uma sumidade jornalística: «somos os novos que se não deixam corromper, os novos que reagem sempre com energia contra os assaltos traiçoeiros dum falso republicanismo interesseiro que pretende subjugar-nos para assim conseguir os seus fins perversos e jesuíticos.»

SECÇÃO LITERÁRIA — o soneto SOMBRAS

“SECÇÃO LITERÁRIA” — Anunciado novo colaborador, que tratará com delicadeza o espírito e o coração femininos: Dom Sol, de quem se defende o anonimato. Colaborou logo no número seguinte do jornal.

Uma festa d’Arte — no Hotel Natividade, a já tradicional audição das alunas da distinta professora de música ex.ma sr.ª D. Maria de Jesus Ferreira dos Santos Gonçalves. Pena que estas sessões sejam tão espaçadas. Seguiu-se um animado baile.
     
Em CARTA ABERTA AO SR. ALBERTO VIEIRA DA MOTA, Justino Freire de Moura Guedes, defende-se galhardamente do sr. Alberto Vieira da Mota, «contador da comarca de Alemquer e político profissional em Torres Vedras». O motivo, o desfalque da tesouraria das Finanças, aproveitado por AVM, como arma política. A peça, pela sua argumentação e desenvolvimento, é importante. Falta conhecer os panfletos anteriores de Moura Guedes, então com 24 anos, e o que escreveu o seu adversário.
*
Observações marginais
Na colecção ECOS DE TORRRES — Ano III, n.º 102 – 1921, registo manuscrito, à margem da mancha impressa (uma das vezes sobre etiqueta colada): Sr. Victor; Ex.mo Sr. Victor Fonseca. Na primeira folha de guarda, lê-se:
Oferece à Biblioteca Municipal de Torres Vedras
Em 20/XI/935
Victor Cesário da Fonseca
Selecciono o anúncio seguinte, que aparece nas várias edições deste semanário, pela sua relação também com o avô do anunciante. A partir de certa altura, o anúncio muda um pouco os seus dizeres:
                                                                      Moura Guedes
             Advogado
             Junto à casa do
             sr. dr. Freire

              Moura Guedes
             Advogado
              Em casa do
              sr. dr. Freire

sábado, 13 de abril de 2013

     Os anos 20 em jornais de Torres Vedras
     O TORREENSE, 1921

     Já há algum tempo -- em 2009 -- li duma ponta à outra um jornal dirigido pelo Dr. Justino Freire Moura Guedes, de que tenciono dar alguma notícia neste blogue. Aí descobri o escritor Manuel Ribeiro -- citado pelo director num dos seus editoriais --, de quem tenho vindo a adquirir a obra quase toda, 
e dois ou três colaboradores de boa qualidade de escrita. Ainda não sei se estes dois jornais, ambos semanários, polemicavam entre si. Guardo notícia de rivalidade de A Nossa Terra com outro jornal torriense, mas não recordo qual. Neste primeiro exemplar (1) de O Torreense, nada se vislumbra e até o aspecto do jornal, a distribuição das peças, o aproveitamento das colunas, pelo menos, um colaborador comum -- Silvestre Botelho de Sequeira -- e a transcrição de artigos de jornais de Lisboa indicam grande similaridade. E mais: o mesmo sentimento de procurar sair de uma situação de entorpecimento cívico e pobreza. A Nossa Terra dá, também, uma extensa descrição, transcrita de jornal da capital, dos acontecimentos ligados à morte de António Granjo, caso exemplar que convém conhecer como em primeira mão, hoje, para memória do que somos, no bem e no mal.

     Hoje, sábado, comecei a ler (1) O TORREENSE, ano de 1921.
     
     O TORREENSE, 2 de Janeiro de 1921
Órgão do Partido Republicano Liberal
publica-se aos domingos em Torres Vedras
     1.ª página:
     1921 - editorial
     AMNISTIA - por Egas Moniz, transcrito de A Lucta
     SECÇÃO LITERÁRIA - Soneto «UMA VEZ», por Virgínia Vitorino´
      Do primeiro verso: «Ama-se uma vez só. [...]»
     O problema financeiro em Portugal - de discurso de Barros Queiroz
*
O TORREENSE, 2 de Janeiro de 1921, N.º 63
        O artigo de fundo, assinado por Talbero (deve ser Alberto, o director, Alberto Vieira da Mota), é de um pessimismo incrível. Muitos sabemos (todos) que é assim, num plano das coisas; noutro, não é, não pode ser. É a vida, mas mesmo a vida não é assim, morte e renovação da vida confundem-se, morte e renascimento. A vida inclui a morte dentro dela. Outra coisa são as configurações que a vida vai tomando. Há é que vivê-la, na configuração em que estamos moldados, sabendo que o percurso (mas ignorando-o ou fazendo por isso) vai acabar um dia. Sabemos ou não sabemos, mas queremos ignorá-lo e ignoramos.
     
     Talbero sabe tudo isto. Ele desabafa, quanto à «apagada e vil tristeza». Na última secção do seu texto, a concluir, transfigura-se de esperança, negando-se:

     «Avé, 1921!  Que não transformes as nossas esperanças em desilusões dolorosas!
     Traz-nos Paz e Felicidade, desanuvia-nos o espírito; afasta para longe as nuvens negras que pressagiam tempestade. Protege-nos, que nós confiadamente exclamamos!
     Salvé 1921!»
*
AMNISTIA, por Egas Moniz
     Defende a amnistia, para os presos monárquicos, os vencidos de 1919. Egas Moniz também pugnou pela libertação dos que estiveram presos no período do dezembrismo, argumenta contra os que se contramanifestaram -- quando da romagem das senhoras portuguesas, junto do Presidente do Ministério, para que os presos pudessem passar o Natal  com as suas famílias -- que também instou pela libertação desses presos políticos com o mesmo calor e entusiasmo com que hoje o faz.
     Defende um plebiscito sobre a amnistia.
     No artigo, são referidos António Granjo e Jacinto Nunes, figuras gradas do Partido Republicano Liberal, que no último congresso exprimiram esta maneira de pensar.

*
     Infelizmente, estavam para acontecer os tristes episódios da noite de 19 para 20 de Outubro deste mesmo ano, em que António Granjo foi assassinado. 
     N'O TORREENSE, n.º 105, de 30 de Outubro de 1921, toda a primeira página é dedicada à morte de António Granjo, e boa parte da segunda. Até ao n.º 113, de 25 de Dezembro, sempre este caso está presente nas colunas do jornal. Número após número, é dado à estampa, em continuação, um trabalho do Diário de Lisboa, «As horas negras da República: "Matem, que matam um bom republicano": As últimas horas da vida de António Granjo».
*
     (1) Vejo, ao chegar a casa, vindo da Biblioteca Municipal, que já havia consultado, também exaustivamente, como no caso de A Nossa Terra, O Torreense, de que conservo muitas notas. Como as coisas se apagam... Os jornais lidos foram os de n.º 63 a 79 (2 de Janeiro a 17 de Abril).