Campo Grande
À direita, a Livraria Lácio. As fotos foram tiradas em 18-06-2008
Há coisa de uma semana, entrei numa livraria sazonal,
livraria de feira, na Avenida 5 de Outubro, o prédio que faz gaveto com a Rua
Princesa Maria Francisca Benedita. Conversei com o livreiro, que esteve mais de
vinte anos na Bertrand, incluindo a loja da Rua Prof. João Soares. Veio à
conversa o Sr. André, da Lácio, e fico a saber que o Sr. André (António Marques
André) faleceu e a livraria fechou as portas.
Deixa saudades. Gostava de falar com ele.
Já há bastante tempo, ouvi-o falar de Manuel Brito, dos começos da sua
actividade na livraria Escolar Editora, ali ao Príncipe Real, da criação da Galeria
111. Manuel Brito era o proprietário do espaço da Lácio (antes, 111, do n.º da
porta de entrada). O Sr. André pagava renda. Falou também da sua experiência
brasileira, na mesma actividade. Vejo que publicou nessa altura um pequeno
livro de poesia, Entrevero.
Das palavras que lhe ouvi e de livros, quero só lembrar algo
da guerra civil de Espanha. Falou-se do jornalista Mário Neves, cuja
primeira grande reportagem deu a conhecer os massacres de Badajoz, pelas forças
nacionalistas, e do livro O Zero e o
Infinito, de Arthur Koestler. Tenho uma edição dos Livros de Bolso
Europa-América, incluída no meu «Plano de Leitura» há quarenta anos. O Sr.
André conhecia bem o livro, a figura de Mário Neves e os acontecimentos da
época. Eu aprendia.
Satisfazendo um gosto antigo, vou ler O Zero e o Infinito, tendo no pensamento uma pessoa que me era
simpática, e lembrando, homenageando quem tão bem exerceu a sua profissão,
ultimamente avara e amarga.
[O Sr. André só veio a falecer no dia 18 de Janeiro de 2015. A cremação foi no cemitério do Alto de São João, cerca das 09:30 de 20-01-2015. Fui avisado pelo sobrinho Ricardo André, no dia 19 de Janeiro de 2015, que soube de mim, a partir da leitura que fez desta mensagem.] [Nota acrescentada em 15-04-2015.]
Neste blogue, em Maio de 2013:
Livrarias condenadas? Nós, condenados
Ontem, passei com um amigo um pouco meteoricamente, por uma livraria de grandes tradições, no Campo Grande. Para mim, belíssima e grande. Encontrei desolação no senhor livreiro, um perfeito senhor no seu ofício, ainda a lutar, na sua já avançada idade. Em reunião de uma associação de livreiros, um senhor duma dessas grandes cadeias-aglomerados de editoras diz claramente: as «pequenas» livrarias são para acabar. E o senhor da livraria de que começámos por falar queixou-se da renda que tem de pagar pelo espaço.
Já me tinha chegado notícia de livrarias a fechar ali para o Largo da Misericórdia. Hoje, vejo neste artigo da revista Ípsilon que o mal já começou a alastrar, apesar de uma ou outra andorinha que não faz a Primavera, como a nova livraria na igreja de Óbidos.
Isto está mal; esta liberdade de matar as livrarias deve ser regulada. Como pode o preço do arrendamento aumentar, por exemplo, seis vezes, a pretexto de remodelação profunda de um espaço que dela não precisa? É caso para dizer que o Estado não está a regular bem ou dito de maneira mais fácil de entender: o Estado não regula bem.
Que cidades são estas?
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http://aterraeagente.blogspot.com/2013/05/livrarias-condenadas-nos-condenados.html (Notar a referência a livro de André Schiffrin, no artigo da Ípsilon, secção «O negócio»)
http://www.thenation.com/article/171508/how-mergermania-destroying-book-publishing (Artigo de André Schiffrin)