A minha selecção vai para José Diogo Quintela, que já tenho lido. Desta vez achei muito bom. Ia a dizer «perfeito».
Análise
da 17.ª Jornada do Campeonato da Empatia
Há
15 dias, fiquei angustiado com o acidente aéreo da Germanwings. Vi os
noticiários de todos os canais; andei pela Internet a pesquisar os parâmetros
de segurança da cabine do Airbus A320; concordei com o meu vizinho de cima
quando, no elevador, me disse que era um horror; cliquei em coraçõezinhos de várias
fotografias do Instagram. Ao nível técnico-empático, estive estupendo. Mas
estraguei tudo na semana seguinte, ao não dedicar a mesma atenção ao massacre
na Universidade de Garissa. Vi só o telejornal da noite e nem sequer me dei ao
trabalho de ir ao Google Maps ver onde fica Garissa. Beneficiei os Alpes em
detrimento do Quénia.
Sou
relapso nesta inconsistência. Já me tinha acontecido o mesmo depois do massacre
no Charlie Hebdo. A aflição pelo que aconteceu em Paris não foi a mesma
em relação às chibatadas aplicadas a Raif Badawi, o bloguista saudita.
Felizmente, posso sempre contar com a multidão
de apontadores de hipocrisia que, de imediato, assinalam incoerências na
intensidade dos compadecimentos.
São
os super-heróis da comiseração. Depois das equipas de salvamento à procura de
caixas-negras, vêm os guardiões da empatia há procura de ovelhas negras que não
dediquem exactamente o mesmo grau de tristeza a todas as tragédias. Pesam o
pesar, em pequenas balanças pleonásticas. À velocidade com que denunciam a
dualidade de compaixão, é provável que também meçam a olho.
Pugnam pela equidade na lamentação, opõem-se a
hierarquias de transtorno. E exigem que todas as calamidades tenham o mesmo
espaço nos jornais, seja uma inundação em Alcântara ou em Manila. Esta semana,
voltei a falhar. Enquanto a morte de Manoel de Oliveira me fazia pena,
lembrei-me que não lamentei o falecimento de Wu Tianming, o realizador chinês
que se finou no ano passado. Eram ambos cineastas venerandos, assisti ao mesmo
número de filmes de Wu Tianming e de Oliveira (cerca de zero), estão igualmente
cadáveres. O que me faz borrifar na equidistância?
Ainda
por cima, sou faccioso não só na resposta a grandes catástrofes e desgraças
menores, mas também face a bagatelas sem carga dramática. Por exemplo, há
tempos li uma notícia sobre os possíveis nomes para a filha do Príncipe William
e, após breve reflexão, concluí que não sei o nome de nenhum dos 25 filhos do
Rei Mswati III, da Suazilândia. Aliás, na altura nem sabia que o Rei Mswati III
tem 25 filhos. Ou, sequer, que é o Rei da Suazilândia. Aliás, ignorava que a
Suazilândia é uma monarquia. Vou ser franco: nem sabia que é um país, julgava
que era um parque temático. Tive de me wikinformar para escrever este texto.
Tenho inveja dos paladinos da equidade, que conseguem
racionar a mesma quantidade de lágrimas para uma morte na família, a morte de
um vizinho ou a morte de um estranho. Apresentam uma notável regularidade
exibicional na comiseração. Devem ter descoberto o segredo para se comoverem o mesmo
por todos. Desconfio que seja não se comover por nenhum.
[Na Revista
do Público, 12-4]
