Antes
dos meus afazeres para este dia, leio o que diz Miguel Urbano, em artigo que o
Z. P. me fez chegar. Aprecio a sinceridade do Urbano. Aprecio a minha. A
verdade existe ou depende de pré-disposição nossa, de gosto, duma mundividência
inscrita em nós e que passamos a vida a esclarecer? Com a nossa verdade, em
termos ideais, chegaremos no fim a um edifício em progresso de coerência e
beleza. Coerência múltipla, lógica e nem tanto, não de todo explicável, mas
apreendida pelo próprio. A comunicação universal e explicada é impossível. A sugestão
é que não é.
A
nossa verdade coexiste com outras, que se foram construindo em progresso de
coerência e beleza, coerência na harmonia interna que cada um vai conseguindo
ou se vai conseguindo nele. Fernando Pessoa é um génio. Há quem não goste? Há
quem o aborde, a partir da sua doença. Não sei qual é e não me interessa este
enfoque. Poesia doente?
Seja
como for, genial. A doença não comparece, quando o leio. Nos textos em prosa,
no Livro do Desassossego, que tenho,
ainda, de ler por completo, parece que Fernando Pessoa está a dizer o que nós
próprios pensamos ou podíamos pensar e querer dizer. Disse aquilo por mim.
Milagre da leitura. Estamos a viver, a ser. Sozinhos ou com o autor e o autor
connosco.
Não
sei o que vou encontrar no artigo, lado a lado com estas palavras que estou a
escrever, no monitor largo ligado ao computador. Uma metade para cada um, para
mim e para o Miguel Urbano. A minha vivência filosófica-religiosa-política pode
impedir o acesso ao génio de Pessoa, Ezra Pound, Hegel, Marx, Nietzsche, Freud,
Sartre, Heidegger, Couto Viana, José Gomes Ferreira, Régio? Herberto Helder…, Saramago.
Não.
Não deve. Poderia quase dizer o mesmo que diz Miguel Urbano do Livro do Desassossego, a propósito de
José Saramago, de cujo Memorial do
Convento, quando saiu, abandonei a leitura, findo o primeiro terço. Li,
entretanto, meia dúzia de obras do autor de Ensaio
sobre a cegueira, a quem reconheço o valor, e o Memorial aguarda a minha visita, com outra compreensão.
Detenho-me
nesta apreciação de M. U., em que o segundo adjectivo não conta, relativamente
ao primeiro, apesar do inextricável do labirinto pessoano:
Leio e releio páginas do Livro do Desassossego,
fascinado mas fatigado… … … …
*
Frases
«Pessoa
fascina-me e cansa-me. Leio por dever.» Prevalece a fascinação.
«[…] colossal
desarrumação e desassossego do escritor».
«O génio de
Pessoa desemboca numa escrita caótica e difícil de acompanhar por leitores como
eu.»
Essa insistência e a importância em Pessoa do seu
mundo onírico e do estado de transição entre o sonho e o despertar lançaram-me
numa incómoda viagem por dentro.
O
mundo onírico e o estado de transição entre o sonho e o despertar: aqui parece
estar Pessoa para Miguel Urbano. O sonho e o estar acordado. Há aqui uma certa
desvalorização, acantonamento e menos preço pelo íntimo. Tudo o que se pensa,
diz, escreve e fala vem do íntimo. Pessoa também é vigília e mesmo acordado
sonha.
Sonhando,
ou no torpor que anuncia o despertar, acabo sempre em meditação caótica sobre o
que fiz e não fiz na travessia desassossegada de nove décadas… … … … …
«Vieira,
nos antípodas como escritor». «Antípodas» traz consigo a ideia de oposição e
Fernando Pessoa admirava o Padre António Vieira, por si justamente louvado,
como o Imperador da Língua Portuguesa, num texto que comove quem o ler.
Temia a morte. Ora nega, ora sugere o contrário. Mas
prestes a findar a sua breve passagem pela vida (47 anos), se alguém ousasse
dizer-lhe que, transcorridos poucos anos, ganharia a imortalidade como escritor
e seria colocado pela crítica mundial ao lado de Camões ou acima dele, chamaria
louco e irresponsável ao autor da previsão.
A
insegurança seria coisa dele; seguro de si, do seu valor estava. Fala de um
super-Camões e é de si que fala. É assim que o entendo.
REVIVENDO O NÃO
VIVIDO
— Miguel Urbano entra, agora, no
memorialismo, até «cretinismo parlamentar». Muito interessante. Tem toda a
razão em pôr aqui estas memórias, que não o desmerecem nem ofendem ninguém, sem
embargo de se poder entender o conselho dos amigos, no que respeita à referência
final à companheira, mas disso é ele o melhor julgador.
*
Morte,
Deus, amor, sexo, alma, destino; «intransponível o muro que me separa da ideia
e vivência do amor em Pessoa». Não somos Pessoa. De qualquer modo, em mim, não há
este muro intransponível. Li as cartas de Ofélia, com muito gosto. Défice de
sexo? Há mais mundo para além deste défice.
«Dos
sonhadores do milénio -socialistas, anarquistas, humanitários de toda a
espécie-tenho a náusea física, de estomago. Querem a superfície da vida por uma
fatalidade de lixo, que boia à tona de água e se julga belo, porque as conchas
dispersas boiam à tona de água também».
Pessoa,
cujo pensamento estava aberto a todos os azimutes, nunca se interessou pelas
ideologias. O parágrafo que transcrevo expressa bem a ambiguidade do seu
posicionamento perante grandes questões do seu tempo.
Paradoxalmente, a filosofia, nomeadamente a
metafisica, mereceu-lhe um interesse absorvente, identificável na sua obra.
Não quero crer na verdade da
classificação de «ambiguidade» atribuída a Pessoa, «perante grandes questões do
seu tempo», nem na justeza do emprego de «Paradoxalmente», na relação com o que
vai dito antes.
*
Cepticismo ou realismo, mas…
O homem novo
Afinal, há raríssimas excepções. É a nossa
luta e a nossa esperança. Para isso contribuirá a educação, a começar na família;
continuada e mantida pelo sistema de ensino, com os seus vários intervenientes,
e nas instituições religiosas e políticas. Nestas, por um jogo mais elevado,
que sirva de exemplo e habitue ao respeito pelas várias opções.
*
Volto ao que estava a fazer, ao meu a
fazer, ou como soe dizer-se: aos meus afazeres.
.jpg)