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quinta-feira, 26 de outubro de 2023

A LDG vem..., a LDG vai...

A L. D. G. VEM…

MARÉ CHEIA

A L. D. G. vem de bocarra aberta. Aproxima-se. Está mesmo em cima do cais.

— V. Exª., meu Major, temos fome — Eram onze e vinte. Alguns mancebos manifestam-se.

— Vêm muito bem dispostos, de muito bom humor — diz alguém.

— Vem muito colorido.

Magotes de gente pela rua. Cabo-verdianas que nunca tinha visto antes, vêm à rua; uma com toucado e rolos na cabeça.

Passámos a manhã à espera da L. D. G., olhando para a parte do canal donde ela havia de surgir. E finalmente chamaram-nos. A L. D. G. já se via.

Choviscava. Uns com capa, outros sem capa…

O pessoal recua para as manobras de abicagem. E a grande pá da L. D. G. abate-se lentamente sobre a ponta do T, abocanhando um pouco de cimento.

— O indivíduo do Bar de Oficiais… Aquele que tem um blusão.

— Olha o gajo do «PELICANO»!...

Duas filas compactas contra os dois corrimões da L. D. G. como numa varanda. Vêm V I V A Ç O S!…, de amarelo, vermelho e verde. A massa é mais espessa e mais compacta à saída da embarcação.

Era aí que vinha o homem com fome, o que levantava os braços e exclamava, o do PELICANO e BAR DE OFICIAIS.  Era aí que vinha a nata do humor e boa disposição.

Vão em duas filas para o edifício do D. F. E. Aí fazem-se os primeiros TRABALHOS DE INCORPORAÇÃO, divisão por etnias…

Parece que Bolama confluiu toda para a Avenida da República, desde a Escola de Professores de Posto até ao cais. Aí é uma mole desusada que se junta para ver o recruta passar…

Na residência do Administrador aparece junto à porta, gente nova e bonita…

Crianças, saias curtas, vestidos francos, Bolama que vem para a rua em trajos de casa com rolos na cabeça e juventude no corpo e nos olhos…

MARÉ VAZIA

Depois do barulho das viaturas da Engenharia (para as instalações dos Batalhões em I. A. O. a dar proximamente na ilha), do Rádio-Rastreio…, viaturas a arrotar pelo cano de escape e a dar movimento à cidade, Bolama reflui, a maré de gente vaza e tudo fica mais calmo…

A L. D. G. VAI…

A L. D. G., depois de despejar pessoas e material, pôs-se a navegar para o seu destino e em breve dobrava a ponta por onde toda a manhã a esperámos. Rápida como apareceu, assim se foi. Desapareceu para as bandas brumosas donde veio, num dia de chuva.

                                                            Bolama, 2 de Agosto de 1970





domingo, 29 de março de 2015

O Cherno Rachide

FEV 70 — Nascimento de Maomé, o profeta. Festejos natalícios da parte dos muçulmanos da Província. Às nove horas, na pista de aterragem, o cherno, chefe religioso dos muçulmanos, reza, acompanhado de grande multidão. Às dez horas, um cortejo de homens grandes tocando tambores, mocas e cantando, faz uma visita de cortesia junto ao bar de oficiais.
Chega entretanto o comandante do Batalhão, que recebe os cumprimentos. Um dos homens do cortejo dirige-se em fula ao Exmo. Tenente-Coronel Rocha Peixoto. Cantam, tocam tambores e retiram-se, deixando-nos na retina por largo tempo as compridas vestes brancas.
21FEV70 — Sou surpreendido dentro da minha tabanca pelos cantos monótonos da procissão do cherno.
À tarde estivemos no alpendre onde ele estava, de frente para a assembleia de homens grandes, sentados e descalços. Dois homens que vão sendo revezados sacodem o ar com dois panos na direcção do seu papa. Muitos fiéis o vêm cumprimentar. Descalçam-se, pegam-lhe a mão e esboçam uma vénia.
Há dez anos que não vinha a Mampatá. Veio por Áfia, Malibula, Caussara e esteve a rezar pela paz nas cinzas da extinta tabanca de Bácar Dado*. Antigamente, quando os caminhos eram francos, ia à República da Guiné. «Há lá mesquitas feitas pelo cherno» — diz-nos Baró. Ia também ao Senegal.
Quantos filhos tem? «sapoidjegó», 16, um deles, recentemente em Meca, cumprindo o preceito corânico.
Presentes os oficiais de 2.ª linha, alferes Aliú, de Mampatá, e tenente Baró, de Aldeia Formosa, este, um grande conversador.
O cherno, mais tarde, celebrou na mesquita e pernoitou aqui. No dia seguinte, pelas 15 horas, pôs-se a caminho para Quebo, com uma comitiva de cerca de cem pessoas.
*Grande distância, para os seus 64 anos.
(Ronco, Jornal do CIM, n.º 15, 15 de Março de 1970, p. 11)
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NOTÍCIAS DE BOLAMA
[…]
22JUL70
Recebemos a visita dos senhores deputados em visita pela Província. Na comitiva, o senhor capitão Andrade do P. F. A., o senhor deputado Pinto Leite, o senhor deputado Leonardo Coimbra, filho do filósofo português do mesmo nome, e o senhor deputado Pinto Bull, da Província da Guiné.
A comitiva tinha estado de manhã no sul e em Aldeia Formosa e vinha visivelmente bem disposta. Salientou-se imediatamente o bom espírito do senhor deputado Pinto Leite, que falava de Aldeia Formosa e do Cherno Rachide.
A notícia chegou dois dias depois da sua visita a Bolama. Um helicóptero perto de Teixeira pinto perdeu-se da formação.
A morte que não conhece horas nem pessoas estendeu-lhes o abraço violento dum tornado.
Foi assim que o destino imobilizou num desastre a alegria e vitalidade dos que havia pouco tinham estado connosco.
Foi uma desagradável surpresa.
Lembramo-nos ainda perfeitamente de todos os malogrados. Aqui fica o nosso pesar e o nosso recolhimento.

(Ronco, Jornal do CIM, n.º 23, 01AGO70, p. 3 e 20)


Está em Aldeia Formosa o homem de maior autoridade e prestígio entre os fulas da Guiné. A sua direcção espiritual é acatada bem além da fronteira portuguesa. É homem de aspecto simples, forte. Já o vi sentado no chão, com os homens-grandes à volta. Alguns falam, falam, falam; ele ouve e intervém na conversação, de vez em quando.
Vêm homens-grandes, mulheres, soldados, descalçam-se e cumprimentam-no. Pegam-lhe a mão e esboçam uma vénia. Ele é o maior, o sábio, o doutor, o santo. Ele é o CHERNO…
(A assembleia ocorreu em Mampatá, a 21FEV70)
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 A  CANÇÃO  DO  CHERNO  RACHIDE
Filhos amados, vosso pai Rachide
Uma regra de vida nos vai dar,
Segui-a com rigor e não tereis
Nada que lastimar.
Raparigas sabei que um homem espera
Encontrar na mulher três qualidades:
Respeito aos seus segredos, ao seu leito
E a todas as vontades.
A vós rapazes dou-vos um conselho
Que todo o sábio para si tomou
De outro, inda mais sábio, Logomane
Que outrora assim falou:
— «Deves ter fé em Deus que tudo vê
«E tudo pode acerca dos mortais
«Trabalha com ardor e serás útil
«A ti e aos demais.
— «Estuda e elevarás a tua alma
«que os livros bons te podem ensinar
«Muitas coisas formosas deste mundo
«e a Deus agradar.
— «A palavra, o alimento e o sono
«Como remédio deverás tomar:
«O bastante p’ra que o corpo não sofra
«Mas sem nunca abusar.
— «A boca é uma e as orelhas duas
«Isso te indica como proceder
«Usa o ouvido mais do que o falar
«E saberás viver.
— Em três partes o estômago divide
«P’ra comida só uma reservar
«As outras hão-de ser bem necessárias
«P’ra água e para o ar.

— «A noite é grande e não deve ser gasta,
«Do sol posto à manhã, toda a dormir,
«Destina parte dela à oração
«Terás feliz porvir.

— «Deves casar p’ra nunca cobiçares
«Mulher doutro. Não nego, o casamento
«Traz desgosto profundo.
«Mas se a fêmea procuras fora dele,
«Em vez desse desgosto terás dois
«Neste e no outro mundo.

Meus filhos, quem seguir estes conselhos
No decurso da vida há-de contar
Satisfações a esmo.
E maiores triunfos que o atleta
Que vença toda a gente nos torneios,
Pois vence-se a si mesmo.

«Esta canção entoada diariamente pelos seus alunos define Cherno Rachide»
(In Grandeza Africana, de Manuel Belchior)
[Em Ronco, Jornal do CIM, n.º 32, 1 de Janeiro de 1971, p. 25 e 26]

*** 
Grandeza Africana recolhe na língua portuguesa as quinze lendas que Manuel Belchior ouviu em Nova Lamego (Gabu Sara), onde chegou em Dezembro de 1961, da boca do régulo fula Alarba Embaló, que se mostrou um óptimo auxiliar.  
As primeiras lendas que vão seguir-se têm o seu cenário longe das fronteiras da nossa Guiné, no velho Mandem (foco original dos mandingas) ou no reino fula de Maciná, e os personagens nelas referidos viveram, segundo a cronologia estabelecida por escritores e viajantes árabes, nos séculos XIII, XIV e XV. Quanto às últimas, já se passam no nosso território ou nas regiões vizinhas e narram factos ocorridos no século passado.
As lendas do Mandem e do Maciná são património histórico e intelectual tanto dos mandingas e fulas da Guiné Portuguesa, como dos indivíduos das mesmas etnias que se espalham por vários estados africanos onde, se tomarmos os dois povos em conjunto, chegam nalguns casos a constituir a maioria das respectivas populações (Mali e República da Guiné) ou importantes minorias (Senegal, Nigéria, Camarões).
(Do PRÓLOGO do autor)

«A CANÇÃO DE CHERNO RACHIDE» é a última do livro e, tal como todas as que a antecedem, serve de título em capa à narrativa que segue, neste caso, antecedida por um POSFÁCIO, ou melhor, constitui a parte final do posfácio. Aqui, estamos na contemporaneidade. E imersos na tradição. Basta ver que a «canção do Cherno Rachide é na maior parte preenchida com os conselhos «Que todo o sábio para si tomou / De outro, inda mais sábio, Logomane / Que outrora assim falou:»








***
«Tive o privilégio de, com o meu Capítão (Eurico de Deus Corvacho), ser recebido, em Aldeia Formosa, pelo senhor Cherno Rachide, o chefe espiritual daquela zona que se estendia para além da fronteira (1).
Fiquei impressionadíssimo com o porte e as palavras sábias que nos dispensou. Na despedida apenas nos disse (em francês!!!): "Procurem não maltratar o meu povo".» (Palavras tiradas, daqui.)
Mais, sobre o Cherno Rachideo desastre do helicóptero; Não há solução militar disse Pinto Leite.
Obs.: Para aprofundar sobre a influência e o contexto do Cherno, pesquisar directamente em http://blogueforanada.blogspot.pt.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Aldeia Formosa

Aldeia Formosa tem vida. Lado a lado, o Batalhão de Caçadores e a Tabanca. A tabanca é enorme, englobando o Quebo propriamente dito e do outro lado da bolanha, Mursante.
Aldeia Formosa tem casas comerciais e um movimento de gilas que vêm e vão à República da Guiné… Do lado de lá da fronteira, estão KANSAMBEL e as bases IN. Do lado de cá, Pate Embaló, a Chamarra, Mampatá…, juntos os militares e a população. Há, regularmente, as colunas para BUBA, com os bombardeiros e a segurança montada.
A mata é fechada em muitos sítios, a apertar-se contra a estrada. Chegados a Buba, o acolhimento franco dos nossos camaradas e a água e a cerveja fresquíssimas das suas geladeiras… Depois, a coluna volta a Aldeia, passando por NHALA, onde as viaturas páram e se conversa um pouco. Outra cerveja fresca, arranjada sabe-se lá como…
Em Mampatá vêm às portas-de-armas ver a coluna passar. Garotio, mulheres e tropa… As viaturas da Companhia saem da coluna e dirigem-se à grande mampatás do largo, onde páram. As outras seguem para Aldeia, onde os homens chegam maçados pelo calor, pelos solavancos e pelo pó… A seguir, será o banho restaurador.
(Em Ronco, Jornal do CIM , nº 27. 1 de Outubro de 1970)

sábado, 14 de março de 2015

O TROVISCO
Alferes no pelotão de morteiros, do BART 1914, sediado em Tite, de 1967 a 1969. Transferido para o C. I. M., de Bolama, aqui completou a comissão, em Março ou Abril de 1970

Encontrei em Bolama um conjunto de alferes que na hora da refeição falavam e discutiam com uma vivacidade, que cheguei a pensar…, mas não! Um deles me disse darem-se todos muito bem, aquilo era só aparência e energia. Claro que estes afluxos não eram contínuos. Todos tinham vindo do mato e chegavam a Bolama, para completar a comissão, dando recruta às companhias de instrução formadas por naturais da Guiné, das várias etnias. Nem sempre os grupos de trabalho são iguais. Este era muito bom. Gostei francamente de os conhecer, nos primeiros dois meses em que estive em Bolama, antes de ser mandado para Mampatá, no Sul, a oito quilómetros de Aldeia Formosa (para os fulas, Quebo).
Depois do jantar, íamos para a parte do edifício defronte da grande praça central de Bolama. Da messe, descia-se três ou quatro degraus e logo ali à esquerda nos sentávamos a conversar. Nessas conversas, destacava-se pelo volume da voz, a alegria que tinha, o Trovisco. Era um rapaz, um homem muito forte e às vezes saía um vozeirão e gargalhadas, à medida da sua robustez, que parecia fazerem tremer as paredes. Contagiantes. Os passeios ao cais, à ponte-cais eram obrigatórios, a chamada volta dos tristes. Havia um café na marginal, junto à entrada da ponte-cais, do Cabo Augusto, senhor já idoso, que tinha sido da marinha. Nunca faltavam ostras e cerveja. Ia-se, também, conviver uma vez ou outra com camaradas do Destacamento de Fuzileiros, ali mesmo à beira do canal que nos separa de S. João, do outro lado, no continente. Ia-se a S. João de sintex (banheira, também lhe chamávamos).
Iniciada uma recruta (não a completei), estávamos no campo de futebol a dar instrução e aparece o Trovisco (devia vir de Bissau e ainda não nos conhecíamos). Estávamos fardados, mas no peito só a camisola branca a que hoje se chama «T shirt». E o Trovisco pergunta a um dos alferes antigos, camaradíssimos dele, como é que eu era (se era assim como os outros). A pergunta era de circunstância, para dizer se temos homem.
No Natal, o Luís Almeida e eu, com outros militares, e mais o Trovisco, fomos fazer a segurança de Bissau. Ficámos alojados no Cumeré. Andava-se um pouco na estrada para Nhacra até uma ponte-cais de madeira e do lado de lá do canal do Impernal, diz-me a memória que se via bem Bissau, a uns vinte quilómetros de distância. Lembro uma patrulha nocturna a Nhacra, à tabanca, pedindo a identificação a algumas pessoas. Também fomos, de dia, ao quartel. Dormíamos em colchões de água, com aqueles gomos longitudinais e as costas e o flanco, o corpo todo, ao princípio dançavam um bocadinho. Repelente para os mosquitos. Lembro o cabo enfermeiro, uma simpatia de rapaz, o cozinheiro – de manhã, era importante o pão e o café… No fim, deu um elogio (contacto informal) ao Luís Almeida, pelas suas qualidades no trabalho e humanas. O cozinheiro era da guarnição de Bissau. E o Trovisco? Ficou sempre em Bissau. Nunca cheguei a saber bem o que lá andava a fazer. Sei que o Luís dizia que andava f. e ref. com ele. Ele usava só o ref., que não tem nada a ver com «referência».
Fomos uma vez a Bissau, o capitão Rosa, o Trovisco, eu e não sei quem mais,  escoltar os «Barões de Bolama», soldados prisioneiros, que estiveram dois meses em Bolama (por ali à solta), enquanto a prisão de Bissau era arranjada para os poder lá ter, pois não tinha as condições, precisou de obras. E regressaram a Bissau, de onde tinham vindo, com alívio para nós, pois, mesmo não se tendo registado problemas, não era fácil o convívio com eles.
No ensino aos instruendos, lá à maneira dele, funcionava na perfeição.
Quando voltei de Mampatá – ao fim de apenas quatro meses, fui um felizardo –, o Trovisco já não estava em Bolama. Tinha terminado a comissão.
Numa passagem por Lisboa, de férias, encontrei o Trovisco, no Rossio, à porta do café Nicola. Estava acompanhado por dois ou três amigos, bem disposto e falámos um pouco. Falou no meu regresso a África e empregou a palavra «matagal». Mais ou menos, assim: –  Então, vais para o matagal? – Ninguém dizia «matagal», mas «mato». Isto diz um bocadinho sobre o Trovisco, que era ou devia ser um rapaz muito urbano, muito de aproveitar o convívio que uma cidade permite. Gostava de conviver.
Um grande abraço ao Trovisco, lá onde estiver.
*
A seguir, três textos no Ronco, Jornal do C. I. M., com  referência ao Trovisco. O segundo é de minha autoria, o conteúdo do terceiro foi contado à minha pessoa pelo Benedito Lopes.
***
O CIM em notícias
Mais dois alferes do Centro de Instrução Militar a terminar a sua comissão.
Os últimos meses vividos pelos alferes Machado e Trovisco em terras da Guiné foram passados no C. I. M. E foi grande a acção que desenvolveram na nossa Unidade. Oficiais competentes, inteiramente devotados pelo serviço deixam atrás de si uma página inesquecível.
Ronco regista a partida e formula votos de felicidade.
 [Publicado no RONCO / Jornal do C. I. M., n.º 17, 15 de Abril de 1970, pág. 10]


CARTAS DA ALDEIA
[…]
Mampatá, 9 de Maio de 1970
Sido, o intelectual. De óculos e pera afilada. Um fula inteligente, mas preso aos hábitos da sua raça, hábitos dum distrito dentro do planeta. Sem o sarro da incompreensão a empedernir-lhe a cabeça. Sem a actividade, o fogo de vista dos que chegam // a BOLAMA todos chibantes nos seus fatos civis. Aqueles que o Alferes Trovisco visava na chegada de um novo contingente saído da L. D. G. «Vêm de camisa Lacoste e óculo fumé…» e a gargalhada do Trovisco, aquele gargalhadão enorme abalava toda a fachada do C. I. M. …
— Então, aquele gajo é o intelectual cá do sítio? — pergunta um amigo de ALDEIA FORMOSA que veio cá passar a tarde, o capelão. O Sido atravessava o largo junto à mesquita com uma revista debaixo do braço. «É, é, é o intelectual cá do sítio.» … ao fim da tarde, é infalível: lá está ele na mesquita com o rosário nas mãos.
Este é um dos homens do Pelotão. Evoluído, lê as Selecções, o jornal. Tem o livro A GUERRA DO BIAFRA, cheio de fotografias. Corpos escorridos pela fome, quadros duma guerra duríssima…
… Mas é uma pena que esteja na sua terra, na terra que o absorve. É o sangue que o chama, mas sangue que afoga… É pena que permaneça no seu distrito, distrito de arame farpado…
(Ronco, n.º 19, 30 de Maio de 1970, págs. 3 e 11)

OS BALANTAS DA C. CAÇ 17 CONTAM…
[…]
Benedito Lopes
— Cantámos ne recruta:
Tiro já mofum tansã
Alferes Trovisco nétuadem biabdô
Dete Kindulo com deta bidali
Lité nim cruta netesum sunga

Tradução
Ao princípio julgámos que duraria pouco.
Ao fim de algum tempo decorrido estivemos cansados.
O alferes Trovisco que não julgávamos capaz disso.
Corre pouco, não corre com força que nós já estamos quase a desmaiar.
____________________

— Outra, também cantada quando íamos de licença, na Páscoa:
Barcaça ióli, barcaça ióli
Messe Bolama fida nanlussa
Baga santa barco ute binsan
Barcaça ute.

Tradução
Barcaça demorou, barcaça demorou
Estamos fartos de Bolama
E dizem que o barco está
Para chegar e esse barco
Nunca mais chega.
[…]
(Ronco, n.º 25, 1 de Setembro de 1970)

 Praça Sousa Guerra
Foto tirada do alto da antena de transmissões, no interior do C. I. M. Ao meio, a figura tutelar de Ulisses Grant, que decidiu arbitralmente a questão da posse de Bolama (entre Portugal e a Inglaterra), a favor de Portugal. (Sentença proferida em  21 de Abril de 1870.)
O edifício da esquerda era a Escola de Habilitação de Professores de Posto
No da direita, fica actualmente a sede da AMI.

 Administração do Concelho

Dia de festa, com o edifício da Administração do Concelho por cenário
3 de Abril de 1971: desfile dos recrutas, depois do Juramento de Bandeira e imposição de crachás aos participantes no I Congresso das Etnias da Guiné, que ocorreu em Bissau a 2 de Agosto de 1970. Presente o Governador e Comandante-Chefe, Gen. António de Spínola, e outras altas entidades militares.

Igreja matriz de Bolama, de dimensão insuficiente para as necessidades da paróquia
Fica no mesmo lado do quartel, mas muito perto da Administração do Concelho

*
(Óptimo trabalho. História interessante e bem contada. Tem muitas fotografias. O fluxo do tempo mostra a escala das coisas. Nuns breves (?) seis anos, quantas pequenas diferenças. (Ou grandes?) Na vista aérea de Bolama, o local do memorial a Ulisses Grant, assinalado no «quadrado» frente à Administração do Concelho, fica no «quadrado» da direita, havendo outro de permeio. Trata-se de um grande espaço entre a antiga Administração do Concelho e o edifício, no extremo oposto, onde está instalada a sede da AMI.)
Infelizmente, entre outras fotografias de interesse, há algumas que nos deixam constrangidos, pelo estado a que se deixou chegar edifícios-património de todos os guinéus. Ao edifício da Administração do Concelho de então, com a sua colunata à grega, se chama uma vez Palácio do Governador. Ver, se se quiser, à direita, as páginas e ligações.
http://www.ami.org.pt/default.asp?id=p1p211p212p623&l=1 (A AMI em Bolama)
http://www.ami.org.pt/default.asp?id=p1p7p28p108p244&l=1 (Histórico da AMI na Guiné-Bissau)

segunda-feira, 9 de março de 2015

Colaboração no RONCO, Jornal do C. I. M.

O ANOITECER DA TABANCA
Esta é uma tabanca como muitas outras, algures na Guiné, no meio da mata… Sentado à mesa, leio um grande texto alusivo à Guiné, «a partilha dos escravos», da Crónica dos Feitos de Guiné. Uma bela e patética cena…, um quadro inédito em Lagos… Coisas que se passam na história dos homens… Saio para a tabanca…
E vou vendo no chão ou em panos ou em cabaças, os alimentos deste povo, ao cair da tarde… Geralmente, junto estão mulheres… É milho moído, é o fundo, de grãos finíssimos. É o lalô (la… lô…, me disse pacientemente o homem), o lalô espalhado pelo chão, folhas parecidas com as folhas da figueira, cozidas e comidas em caldo…
Continuo na volta pela tabanca…: — Boa tarde! — Boa tarde. — Boa noite! — Boi nôte… — São sempre as mulheres que dizem «boi nôte», só agora o reparo…
O Alberto está ensinando um milícia a ler… Que idade tinha o milícia? Não sabia. Tornou-se a perguntar e não percebeu a pergunta. — Quantas chuvas tens?... Quantos anos tens? — Não percebe? … Mais ou menos vinte?
— Tem vinte anos e quer ir para a tropa, mas isso não depende dele…, gostava de ir para a tropa…
— Aprende a ler, aprende a ler!... Ensina-o, Alberto… — E o Alberto, que frequenta a quarta classe, fica a ensinar o amigo, os dois sentados em cima do abrigo…
— Boa tarde, mulher grande!... — A mulher grande, velha, sorri com os dentes da cola…, é a mulher grande dos dentes apodrecidos e vermelhos da cola…, dentes que me chocaram quando os vi a primeira vez… A partir daí, tenho-os evitado…, hoje encontrei-os, de novo…
Passando por outro sector da tabanca, pois fiz questão de a percorrer toda, hoje…, encontro o Braima…, vou brincar um pouco com ele. Fala crioulo com uma criatura qualquer.
— Então, quando aprendes a falar português?
— …    …    …    … — disse qualquer coisa e fez o sinal de mais ou menos, assim-assim, com as mãos…, lá vai indo…, sorri, casou há pouco, recebeu um dinheiro atrasado.
A volta pela tabanca está a terminar. Comecei-a pelo canto, desde sempre mais apetecido…, o mangueiro do Amuta. Estive lá com a mulher dele, a Maria, com a filha, Odete, com o António e a Madame, sobrinha do Nhassé…, com as duas mulheres do Bita, a Manhã e a Quinta, uma delas ou as duas, minhas lavadeiras…. Vou-me embora, até logo!... Aprende a ler, aprende a ler, ensina-o, Alberto!...
Terminado o passeio, encontro o ferreiro, ainda tive uns negócios com ele, abriu-me trinta bidons para forrar um tecto…, deu-me a terra (!!!) para fazer a casa…, é um homem sério…
— Boa tarde, Queba.
— Boa tarde. — E faz referência ao meu posto, eu sou militar… — Boa tarde, -------. Levanta a cabeça e sorri, desvendando os dentes mais ou menos sãos e brancos…, como é seu costume no cumprimento… Encontro-o sempre baixado a fazer qualquer coisa, levanta a cabeça e sorri: — Bom dia, -------; boa tarde, -------. Bom dia, Queba, boa tarde, Queba, adeus, Queba…
São seis horas, seis e picos…, ouvem-se os primeiros tiros nos postos…
(Ronco, Jornal do C.I.M., n.º 21, 1 de Julho de 1970)
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Obs.: A tabanca referida no título é a de Mampatá, a oito km de Aldeia Formosa. Eu estava no Pelotão de Caçadores Nativos, n.º 68. Os furriéis eram o Escudeiro e o Zé Alberto. Estávamos adidos à Companhia de Artilharia n.º 2519, os Morcegos de Mampatá. Só ali permaneci quatro meses, após o que retornei a Bolama.

sábado, 7 de março de 2015

Viagem no RITA MARIA

VIAGEM NO RITA MARIA
MISTER CHARLES, CANDIM, HOLLYWOOD E OUTRAS COISAS MAIS…
      A viagem no RITA MARIA, de Lisboa até Cabo-Verde, correu sem incidentes e com bastante monotonia. Essa monotonia foi quebrada de quando em quando. Aparecem certos pontos altos na jornada, pelo menos agora, à distância…
       Aparece como ponto muito intenso: Mister Charles. Mister Charles que esteve quarenta e nove anos na América, que deixou o Fogo natal aos dezassete ou dezoito anos…; como é escuro o passado desta ilha, ilha de deportados.
     Mister Charles, com a língua que aprendeu em Cabo-Verde quase completamente esquecida… Muitas coisas nos ofereceu este homem que veio morrer à terra. Que veio à terra casar com uma rapariga nova, futura viúva alegre, à custa do dinheiro (DÓLARES) que ele andou a mourejar… Sim, porque este emigrante era do tipo de mourejar e esgaravatar dólares (talvez esteja já morto algures na ilha do Fogo…).
      Quantos contos teria ele na pasta? Chegaram-lhe a oferecer 50 contos pela pasta. Mister Charles, 90 contos pela pasta?
      Aparece outro ponto muito intenso: Candim. Com dois filhos aos dezoito anos, uma retirada de nove meses em Dacar. Este Cândido sentava-se à mesa e falava-nos. Era um homem do mar que nos falava, um homem livre e desorientado. Tinha umas conversas um tanto próprias e desprendidas. Normalmente diz-se dum homem como Candim: «Tem a sua filosofia da vida.» Diz-nos: «O trabalho em Dacar não é brincadeira nenhuma.» E das cabo-verdianas: «A mulher cabo-verdiana ilude-se. Eu dizia que as amava, mas eu não amava ninguém.» E disse também uma frase que ficou a repercutir em mim e no Monteiro, uma frase com todo o tipo de sentença: «A mulher da Europa não acredita no amor.» Era uma frase fácil de entrar no coração dos europeus. Era a frase de que precisávamos para justificar os nossos fracassos amorosos… A mulher da Europa não acredita no amor… A mulher cabo-verdiana ilude-se; um homem diz que as ama e elas acreditam… Pois, sim, Candim… E a mulher africana? — Mas o Candim só conhece as mulheres de S. Vicente, vulcânicas como as suas ilhas.
      O Candim é como muitos outros, com a vocação e a necessidade do mar, em petroleiros, barcos ingleses, viagens de 45 dias… Mar Negro, Gibraltar, Cabo da Boa Esperança. O Candim foge das suas ilhas, foge da sua prisão oceânica… Foge, mas regressa como os outros, de vez em quando. O encanto do mundo passa-lhe pelos olhos, depois das grandes viagens… O Candim não tem dinheiro, gasta tudo em três dias nos portos… O Candim, no fim de contas, é uma criança eterna aos trinta anos, um estéril vagabundo, homem que nunca consegue ter dinheiro nas mãos. É sempre um rapaz ao pé dos emigrantes da Holanda ou outros lugares que enviam dinheiro para a família ou mandam fazer casa em S. Vicente. Nós também gostávamos de ter as viagens de Candim: Califórnia, Los Angeles, «fui a Los Angeles», Hollywood. E vem a confissão do encanto que também a nós embriaga: «Hollywood é uma maravilha.»
      Outro ponto intenso: a paragem na ilha da Madeira. Todos a sair do barco à pressa, uns nos táxis, outros a pé a percorrer os bares. Mais uma vez aqui nos aparece o Charles a gastar 800$00 num bar. Primeiro, tomava-se o cocktail: 20$00. Quem tivesse sede de outras bebidas, ia para o reservado, uma sala ao lado, em que em vez dom cocktail se bebia champanhe. Ou «tchampenhe», na boca do Charles. O Charles cantava: «Beber cocktail, beber cocktail.» As meninas fizeram-no gastar um dinheirão!... O champanhe que as sequiosas companheiras pediam provocava-lhe, agora, uma certa reserva: «Não querer ouvir falar nesse nome de tchampenhe.» Brincava com a empregada do barco, a menina… «Queria casar com a menina…»
      Outro ponto intenso: ainda aqui aparece o Charles como elemento número um de toda a gente embarcada… São as canções na noite da véspera da chegada a S. Vicente. Havia um cantor, uma guitarra e no meio da roda formada para assistir, o Charles. Toda a gente aceitava a autenticidade do seu suor, da sua pasta, pois não largou a pasta para dançar, a legitimidade dos seus passos caprichosos no chão, a legalidade do seu sapateado. Ao fim de quarenta e nove anos, caramba! S. Vicente tão perto, ao fim de quarenta e nove anos…
      Como ele afastava as crianças que lhe fechavam o círculo, com um gesto da mão… Foi um monumento o Charles com a barriga obesa, uma camisa encarnada e amarela, à hippy. O cantor cantava, o da guitarra acompanhava e o Charles dançava.
      Outro ponto: S. Vicente e a Praia e a frase do escritor a vir-nos à memória: «Cabo Verde não é Europa nem África, é Cabo Verde.» Esta frase foi imposta pelo espectáculo do Porto de S. Vicente…, com os estivadores a estender a mão para a chapa que lhes permitirá trabalhar na descarga do barco. Pelo espectáculo do desembarque na Praia, ao largo, porque não há cais acostável… Tantos barcos à vela a correr, a voar em direcção ao navio… Um escritor das ilhas — e isto contou-me um cabo que vinha também para a Praia — descreveu o esvoaçar dos barquinhos à volta do navio, como os pássaros a ir buscar o comer ao bico da mãe. O escritor ou poeta acertou em cheio com a sua imagem.
      A monotonia da viagem foi cortada de vez em quando, como dissemos no princípio desta narrativa. Podíamos ainda falar em grupos, na mulatinha bonita e aristocrata, menina de salão e de grupinho, ou no seu chevalier servant. Em S. Vicente, no HOTEL PORTO GRANDE e pelas ruas, num automóvel muito caro como alguns que existem em Cabo Verde (parecem aviões sem asas), lá andam eles…
      Mas a monotonia, ressalvados os momentos que assinalámos, foi grande. Durante a viagem, enquanto durava a monotonia, lembrei-me da vida dos homens que fazem do mar a sua profissão. Mesmo a vida dos oficiais não me pareceu muito brilhante. Sempre o mar…, o mar…, o mar. Mar azul, primeiro, mar verde, depois, água barrenta à entrada do Geba. Sempre o mar, o céu azul e os jogos de cartas na sala. Para nós, passageiros, a viagem era uma coisa transitória…
      Mas, para os profissionais do mar, que lhes deixam as inúmeras horas sobre a imensidão aquática? Que fica ao chefe das máquinas, depois de tantos anos a bordo? Ele diz, nada. Ou diz, muito pouco… Fica muito pouco... Fala como se fosse tudo muito vago…, como o sulco que o barco abre na água para fechar logo a seguir…
      Fala na Reeperbahn, em Hamburgo. Conhecia muito bem a Reeperbahn e a avenida S. Pauli. Andou durante doze anos a fazer o caminho de Hamburgo, namorou uma senhora alemã durante doze anos — os mesmos que durou a carreira para as terras germânicas — e diz que as alemãs são muito egoístas no amor… confirma, assim, no tocante à Alemanha e só até certo ponto, as convicções do Candim. Disse muito sobre S. Pauli, aqueles grandes bailes… A preferência de uma alemão por ele, quando soube que era chefe (de máquinas…), era chefe, tinha dinheiro… Mas tudo isso passou, não ficou nada, é como a rota, imperturbável depois da passagem dos navios…
      Enquanto durou a conversa até vir um vento fresco e a hora do jantar. O mar azul ondeava nos olhos do chefe, o seu barco navegava-lhe as pupilas. Os grandes lazeres, o tempo disponível e um quarto lembraram-me muitas vezes ANTÓNIO SÉRGIO. O mar será bom para quem quer ler muito, instruir-se, mas por uma temporada. ANTÓNIO SÉRGIO deixou o mar..., que é um poema, mas um poema grande demais…
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      Deixo, aqui, esta memória de viagem para a Guiné, onde estive a cumprir uma comissão de serviço militar. Foi publicada no Ronco, Jornal do C. I. M. (Centro de Instrução Militar, em Bolama). Os meus companheiros de viagem mais próximos eram dois alferes, um deles, médico, o outro, depois de desembarcarmos, seguiu para Bambadinca, comandar um pelotão. Rapazes. Olho para estas palavras e… que hei-de dizer? Parecem-me um tanto objectivas…, de mais? Era assim…Deixarei, aqui, mais algumas, uma selecção. Se eram muito adequadas para um jornal militar, não sei muito bem. Algumas coisas, não seriam. Mas, quem agrada sempre? Ao ler, agora, o Ronco, encontro coisas interessantes de outros colaboradores. Talvez, na altura, não atentasse tanto nelas. Uma ou duas, porei aqui, também.
      Obs.: A viagem durou onze dias. Pus o pé em Bissau, em 4 de Novembro de 1969. Já depois do regresso definitivo, uns tantos anos depois, li, no Diário de Notícias, talvez, a notícia do abate do RITA MARIA, da Companhia Geral, que pertencia à CUF. Era um navio misto, de carga e com a lotação de 95 passageiros. Da viagem, lembro mais alguma coisa, mas há sempre algo que lançamos pela borda fora da história, embora não da lembrança.