Diz a porta, para quem não morre
de amores por espelhos em portas e janelas:
— Olha para mim!
O espelho é coisa de interior, de
imaginar e sonhar. Assim, à luz do sol, pode ser indiscreto, mostra a casa do
vizinho, incomoda com os reflexos, queima e fere.
— Olha para mim! — Mas, eu fico
perplexo.
— Tu não és porta para entrar,
apesar de teres fechadura. És bela, mas não tens ninguém que te diga «espelho
meu, espelho meu...»
Sigo em direcção ao Largo de Santo
António, um bocadinho incomodado com a minha má educação, mais, falta de
humanidade. Ao passar pela Cooperativa de Comunicação e Cultura, começa-se a
desvanecer o pecadilho, que logo desaparece na paz de uma rua bonita, na sua
vida de agora e na que conserva dos que passaram, para quem a quiser
pressentir.
No Largo de Santo António, no seu
sossego, um convite ao dinamismo.
Porta na Rua dos Celeiros de Santa Maria. Em frente, a Rua da Cruz
Começamos
por mostrar imagens da procissão do Senhor dos Passos, no dia 16 de Março do
corrente ano. Depois, passamos para estes últimos dias, que andaram à roda das
«intervenções artísticas em espaços devolutos», nos espaços Pérola e Ruína (25 Out. a 01 Nov '14), sendo que uma das imagens é de 14 de Abril. A
Rua dos Celeiros de Santa Maria nem sempre teve este nome, naturalmente, porque
era aqui a judiaria. Dessa história nos fala o texto transcrito, com a devida
vénia, no final desta mensagem. Daí, quem quiser, pode partir para ampliar os
seus conhecimentos, bebendo em fontes que apazigúem a sua sede de saber.
A
rua tem bares e outros estabelecimentos abertos ao público (pelo menos a OFICINA DUkABELO), bem como a sede dos
Escoteiros, Grupo 129. De tudo se pode fazer uma ideia, imaginar. Este pequeno
texto é apenas um testemunho de apreço por esta pequena artéria, pequena mas
cheia de significado para quem o consiga sentir ou pressentir.
Vê-se, ao fundo, o edifício d'A Pérola de Torres e a entrada da Rua dos Celeiros de Santa Maria
Foto de 14-04-2014
Rua da Cruz. À direita, a Rua dos Celeiros de Santa Maria
Trecho da Rua da Cruz, visto da Rua dos Celeiros de Santa Maria
Rua dos Celeiros de Santa Maria. Ao fundo, a Rua do Terreirinho
O espaço Ruína
O espaço Pérola, na parte que dá para a Rua dos Celeiros de Santa Maria
*
Na
verdade, a primeira referência ao bairro judaico torriense data do reinado de
D. Dinis, mais precisamente de 1322, quando, num documento, é mencionado o
filho de um tal João Pais da Judiaria. Contudo, num processo ocorrido, em 1407,
entre a comuna dos judeus torrienses, por um lado, e as igrejas da vila mais o
cabido da sé de Lisboa, por outro, o procurador da primeira alegou que “El Rey
dom Afonso que deus de perdom asynara a dita judaria aos Judeus da dita villa
que pelos tempos fossem pera morarem em ella e que era Isenta” (subentende-se
que das dízimas pessoais a que os eclesiásticos queriam submetê-la). Teria
sido, pois, D. Afonso IV a obrigar os judeus da vila a ir morar na judiaria,
embora só pouco a pouco os cristãos que ali residiam tivessem sido afastados
dela. //
Tratava-se
de uma só rua, como acontecia em muitas outras urbes do reino, aquela a que
hoje se chama dos Celeiros de Santa Maria, e ficava, então como agora, localizada
perto da igreja de S. Pedro, bem no coração comercial da vila. Nela existe um
altar dos Passos que marca o lugar onde a tradição diz que havia uma Sinagoga.
Na documentação do período medieval que compulsámos, contudo, não encontrámos
qualquer referência a tal templo, nem a outros edifícios que sabemos terem
existido comummente nos bairros judaicos da época, tais como a escola, a
cadeia, o hospital, os banhos públicos, a estalagem, a carniçaria para venda de
carne cosher… Como espaços próprios
aos seguidores do culto mosaico, para além da judiaria, apenas nos deparámos
com o local onde se efectuavam os despejos, o chamado monturo dos judeus,
situado por trás do castelo, fora das muralhas.
(Ana Maria Rodrigues, do Centro de História/Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, «Os judeus e a judiaria de Torres Vedras até à expulsão de 1496», in Judiarias, Judeus e Judaísmo, coord. de Carlos Guardado da Silva, Edições Colibri, 2013, p. 151-152. Foram eliminadas as notas.)