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sábado, 13 de maio de 2017

Georges Moustaki

Moustaki na Grand Gala du Disque Populaire, 1974
(wikipedia)

Há alguns dias na fita de marcadores quase esquecidos ao alto do monitor clico em A NOSSA RÁDIO..., onde jaz sempre «Aquilino Ribeiro: no centenário da sua morte», mensagem publicada no dia aniversário de 27 de Maio de 2013. Eis senão quando na barra lateral, no mesmo mês, depois desta, a 31, encontro Em memória de Georges Moustaki (1934-2013), falecido a 23 de Maio. Aqui, achei «pano para mangas».
Recordo...
Ouvi Georges Moustaki no Teatro Gil Vicente, em Coimbra, quando veio a Portugal, em '74. Encantou. Guardo na memória a canção «avril au Portugal», com este ou outro nome, incluindo, em português as palavras
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Li o que escreveu João Gobern e o que se segue, da pena de Álvaro José Ferreira. E ouvi Le Méthèque, O Estrangeiro, na versão portuguesa da letra. Preferiria O Meteco, mas compreendo a opção pelo grande público, desconhecedor da história grega e da conotação pejorativa de métèque no francês contemporâneo. Senti que é sempre o mesmo prazer ouvir Georges Moustaki, o que quer que ele cante; delicadeza, intimismo. O homem, a guitarra, a voz, a elegância, a mensagem, em que, sem se perceber no geral a letra, se fixa duas ou três palavras do refrão que calam fundo. Cantava em francês, e a certa altura:
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.
No refrão, contraponto ao fluir suave e confidente, um erguer, arrebatar de ânimo na voz, postura e olhos do cantor (adivinha-se), com Moustaki e toda a gente na sala como um corpo só: em relação às outras estrofes, a diferença é mínima mas sentida.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
 Ainda vai tornar-se um imenso Portugal*.
Este, o resultado final. E o público percebeu, foi percebendo a generosidade, a comunhão, irmandade entre os homens, os povos, ser livre…
* Na versão de A NOSSA RÁDIO... não figuram estes versos, a que poderíamos acrescentar os postos na boca de Maurício de Nassau:
Porque esta terra ainda vai cumprir seu ideal,

Ainda vai tornar-se um imenso canavial.
[O nome da canção]
Todavia, a canção tem subsolo…, é melhor conhecê-lo…, saber de como se chegou em ’74 à elaboração de «Portugal (fado tropical»), versão de Fado Tropical, de 1973, no Brasil da ditadura militar, adaptada ao 25 de Abril português. O ideal de liberdade, fraternidade, igualdade é o mesmo. Chico Buarque adere com entusiasmo às duas versões. Revê-se de alma e coração na révolution des œillets, na letra francesa de Moustaki (revolução dos cravos), como se revê na crítica irónica, forte na Ode aos Ratos, também integrante da peça Calabar, o elogio da traição. Mas, nós, portugueses, no geral, ignorávamos piamente que no Brasil os versos
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.
têm um significado diferente.
Chico parece gritar um ataque também a Portugal nesse ano de 1973, governava Marcelo Caetano. Parece haver um fado comum. O final de Fado Tropical (a situação portuguesa nos trópicos) é
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um Império Colonial.
Como Portugal…
*
 Versão do tema "Fado Tropical", no filme "Fados", de Carlos Saura
canta: Chico Buarque
declama: Carlos do Carmo (
Ver, aqui)


(...)
(00:42)
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.
( p. 11-12, de Calabar...)

(...)
(02:07)
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um Império Colonial.
(p.  12, de Calabar...)

(...)
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E, numa pororoca,
Deságua no Tejo. 

(03:30) (Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.)
 Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
  Ainda vai tornar-se um Império Colonial.
(p. 13 de Calabar...)

[Estes seis versos canta-os Chico Buarque no  filme Fados, de Carlos Saura. A parte a verde não se encontra em Calabar, a seguir à quadra anterior. No disco CHICOCANTA repete-se uma vez «Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal, / Ainda vai tornar-se um Império Colonial» e ouve-se em diminuendo «Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal / Ainda vai tornar-se um imenso Portugal».]
A forma como Chico Buarque viveu a situação portuguesa em '74 e a evolução da mesma pode ver-se nas duas versões de Tanto Mar, em que se dirige ao amigo e confidente José Nuno Martins. Ver nas hiperligações, abaixo; e ainda, aqui, lado a lado, as letras de Fado Tropical e da versão de Georges Moustaki, bem como das duas versões de Tanto Mar.

*

No Teatro Gil Vicente em Coimbra, pertença da Universidade, fazendo corpo com as instalações da Associação Académica e da cantina, perto das escadas monumentais, da praça dos cafés, em frente ao Pigalle, no outro lado da Avenida Sá da Bandeira; este edifício feito de raiz, respira, destila novidade, frescura e leveza. Acede-se por uma plataforma sobre passeio que corre ao lado, debaixo de pala nascida da parede em pequeno ângulo, ascendente.
Caixa como adossada na frente, café do teatro (e cinema), todo de vidro, oferecido à rua e a recebê-la. A pala já acolhe e protege. Sobe-se por seis degraus ao patamar de entrada, larga «parede» de vidro transparente. Por aqui se entra. Aqui estão as pessoas, o apelo, e entra-se. Estávamos fora e era já como se estivéssemos lá dentro, pelo olhar.
[O Teixeira]
Convívio com Georges Moustaki, despesas, na rubrica «Diversos», 1 673$60 (mil, seiscentos e setenta e três escudos e sessenta centavos). Que será a «Casa do Teixeira»? Teria a renda anual paga pelos estudantes? Ficaria contente se assim pudesse ter sido, como um ícone da universidade, que ele era, afinal. O Teixeira era da família, vendia jornais, andava na Praça da República, cafés, pedia um cigarrito, penso que não usava senhoria. «Dás-me um cigarro?», os olhos congestionados, andava um pouco dobrado sobre si, voz doentiamente rouca, coleccionava postais ilustrados das terras portuguesas, pedia se tinha algum... Teria 50 anos cansados!?

Não fica mal, associado a Moustaki numa folha de papel. De quantas pessoas que me foram próximas lembro o nome passados tantos anos? Fica bem, associado a Moustaki na vida real que nos é dado viver, pela humanidade que tinha na singeleza, escassez e autenticidade dos seus dias. O Teixeira era autêntico, assegura-mo o tempo que passou.
*
Calabar... é cru. É duro. Tem valor literário. Apenas alguns exemplos, na intercalação de falas que soa como eco-escárnio de Anna de Amsterdam ao que vai dizendo Mathias (p. 23-24), no sim, «diz que sim», «diz que sim», «Vence na vida quem diz sim» (Anna e o coro, p. 40-41), mesmo onde o ar que se respira é violento, como na Ode aos Ratos.
Quem foi Calabar? O assunto não parece estar acabado e talvez nunca venha a estar. Talvez haja mais do que um Calabar, conforme os olhos de quem o estude. Entretanto, esse trabalho, se vier a ser superado o melhor que foi feito até aqui, deve ser sereno e racional, mesmo onde entram as razões do coração. Dentro desta linha, apreciei o que li de Frans Leonard Schalkwijk, aqui.

*
Algumas transcrições de Calabar...
[PRIMEIRO ACTO]
A bandeira rubro-verde servindo-lhe de babador  (p. 3)   Rubro-verde em 1635?, no ano da Graça de…

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal, (p. 11)  [O Brasil]

Ainda vai tornar-se um Império Colonial. (p. 13) [a terra onde está, que pisa, o Brasil]

DIAS: Viva Portugal!
FREI: Que Deus o tenha. (p. 21)

SOUTO: Governador, talvez não seja o momento, mas fui eu que…
MATHIAS: Já sei, você é o traidor. Parabéns, está nomeado alferes.
FREI: Não, quem trai a Holanda não trai o papa. Traidor é quem trai Castela.
MATHIAS: Traidor é quem trai Portugal.
FREI: Sutilezas histórias, Excelência.
CAMARÃO: Traidor é quem trai Jesus Cristo.
DIAS: Traidor é quem trai a pátria.
SOUTO: Traidor é Calabar. (p.22)

Canção de Anna (p. 24)

Calabar - na presença de Frei e do escrivão – perguntado pelo ouvidor «se sabia que alguns portugueses haviam sido traidores, e tratavam com o inimigo secretamente, levando-lhe ou mandando-lhe avisos do que entre nós se fazia. Ao que ele respondeu que muito sabia e tinha visto nesta matéria.» (p. 25) Calabar não dá os nomes.

FREI: Excelência, cuidado. Segundo o que me disse Calabar, os grandes culpados não estão na arraia-miúda. O que ele me pediu licença que lhe contasse são coisas pesadas, que eu gostaria de tratar consigo em particular.

BÁRBARA: […] Certo, certo, certo, A culpa de tudo é de Calabar. A culpa de todos é de Calabar. (p. 26).

MATHIAS: […] (Ajoelha-se) Eu, Mathias, de sangue e de nome português, mas brasileiro por nascimento e afeição, às vezes tenho pensado neste meu país…

[SEGUNDO ACTO
[…]
NASSAU: […] Mas orgulhoso, indiferente e cético, mesmo assim eu sei do meu fracasso. E o mais engraçado, o que me faz rir a bandeiras despregadas, é que não me importo…  (mas serio do que nunca, põe-se a cantar.)
Porque esta terra ainda vai cumprir seu ideal,

Ainda vai tornar-se um imenso canavial...

BÁRBARA: Um dia este país há de ser independente. […]


*

O Fado Tropical

11

[...]
(Luz isola Mathias, que começa a cantar “ Fado Tropical ” .) 

Ó musa do meu fado,
Ó minha mãe gentil.
Te deixo, consternado,
No primeiro abril.
Mas não sê tão ingrata,
Não esquece quem te amou.
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou.

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,


12 


Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.

(Falando com emoção, permanecendo o fundo musical de
melosas guitarras) 
Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos
no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo. Além da
sífilis, é claro. Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas
em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e,
sinceramente, chora.

(Cantando)
Com avencas na caatinga,
Alecrins no canavial,
Licores na moringa,
Um vinho tropical.
E a linda mulata,
Com rendas do Alentejo,
De quem, numa bravata,
Arrebata um beijo.

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.

(Declamando, sempre acompanhado de guitarras)
Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto.
De tal maneira que, depois de feito,
Desencontrado eu mesmo me contesto.

Se trago as mãos distantes do meu peito,
É que há distância entre intenção e gesto.
E se meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão do incesto.

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa,
Mas meu peito se desabotoa.

E se a sentença se anuncia bruta,
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa.

(No decorrer do soneto, Mathias foi desabotoando as calças e
abrindo-as. Agora, para a última parte do fado,
ele vai-se sentando na latrina ao lado do Holandês, que permanece na
penumbra.) 

(Cantando)
Guitarras e sanfonas,

13 


Jasmim, coqueiros, fontes,
Sardinhas, mandioca,
Num suave azulejo.
O rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E, numa pororoca,
Deságua no Tejo.

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um Império Colonial.

(Luz sobre os dois. Mathias usa uma ceroula vermelha com faixa verde; o Holandês empunha uma bandeira branca espetada num bambu; suas ceroulas são azuis, listradas de vermelho.)


*

https://etudesromanes.revues.org/1348?lang=en (Fado Tropical de Chico Buarque e Portugal de Georges Moustaki)
http://books.openedition.org/pulm/958 (adaptação de canções brasileiras por Georges Moustaki, por Manuel Ramos; ver, também, no final, a Troisième chanson, cotejo lado a lado de Fado Tropical e Portugal)
http://www.longoalcance.com.br/brecife/calabar/index.html (Índice; explorar todos os temas, clicando em: Contexto, História, Motivos, Conclusão, Bibliografia. Para a história de Recife antigo, clique em «Voltar».

**

http://nossaradio.blogspot.pt/2013/05/em-memoria-de-georges-moustaki-1934-2013.html (palavras de João Gobern, seguidas pelo texto de  Álvaro José Ferreira, que publica a mensagem, que inclui reproduções de Le Métèque / O Estrangeiro, Natalia, Ma Solitude, Lettre à Marianne, Il Est Trop Tard, Rue des Fosses Saint-Jacques, Ma Liberté, Margot, Marche de Sacco et Vanzetti, Kim, Portugal)

http://bairrodovinil.blogspot.pt/2010/02/portugal-fado-tropical.html (Portugal - Fado Tropical)
https://www.youtube.com/watch?v=HiN5AqGaSM8 (versão do tema «Fado Tropical», no filme Fados, de Carlos Saura. Canta Chico Buarque, declama Carlos do Carmo.)
https://www.youtube.com/watch?v=LImcXq3zMH0 (Sei que estás em festa, pá... - Versão original de Tanto Mar. Clique em «show more», para ver a letra.)
https://www.youtube.com/watch?v=ST30-i7cZJk (Foi bonita a festa, pá... - 2.ª versão de Tanto Mar, no álbum «Chico Buarque, editado em 1978. Clique em «show more».)
http://www.chicobuarque.com.br/letras/tantomar_75.htm (letra das duas versões de Tanto Mar. Clique no ícone, páginas, canto superior direito, para ler a nota sobre Tanto Mar.)

***

A peça Calabar... no YouTube, depoimentos, Fado Tropical, Ode aos Ratos 
https://www.youtube.com/watch?v=Ki5WDlppPiI [CHICOCANTA - CHICO BUARQUE. Calabar - O Elogio da Traição.  «Lançado em 1973 pela C.B.D. Phonogram, foi reeditado em 1977 pela Phonogram com a adição de uma foto.» 30:52. Fado Tropical, com as partes cantadas e ditas, do minuto 19:30 a 23:38.]
https://www.youtube.com/watch?v=c24TrYSIURA [Calabar, 1.ª parte. Leitura da peça, com todos os personagens, na sede da APROPUC, 4/6/2012. Nem sempre segue a ordem do texto; pequenas supressões, aligeirando a extensão da passagem de onde foram retiradas, 57:08.]
https://www.youtube.com/watch?v=RduOOWXt65E [Calabar, 2.ª parte, 59:30.]
https://www.youtube.com/watch?v=MfODFi4x0J4 [Calabar - O Elogio da Traição – peça representada por Stella Maris, 2.º C, Ensino Médio (É uma versão, com supressões), 38:25.]
https://www.youtube.com/watch?v=3Kzu86d1gO4 [Chico Buarque e MPB-4 - Pot-Pourri da peça Calabar - Bastidores + Depoimento. – A peça foi gravada ao vivo e houve que introduzir alterações («rasuras», aplausos falsos...), para o disco poder sair.]
https://www.youtube.com/watch?v=ycalDO53nzk [Ode aos Ratos, Chico Buarque & Edu Lobo – de Calabar.]
https://www.youtube.com/watch?v=1lI2X0RyNSg [Ode aos Ratos - Chico Buarque canta.]
https://www.youtube.com/watch?v=DeLn9-T7gAg [Ode aos Ratos – Chico Buarque - Desconstrução; «Bastidores da gravação do álbum Carioca».]
https://tuliovillaca.wordpress.com/2012/07/20/sobre-o-mal-estar-na-cancao/ [Sobre o mal-estar na canção, por Túlio Ceci Villaça (inclui dois vídeos, um deles, Ode aos Ratos, cantado por Chico Buarque).]
http://topicosparaumasemanautopica.blogspot.pt/2009/09/ode-aos-ratos-chico-buarque-x-bichos_9268.html [Ode aos Ratos (Chico Buarque) versus Bichos Escrotos (Titãs). O autor refere a Ode aos Ratos, em confronto ou à luz de Bichos Escrotos da banda Titãs, em que, mais, ainda mais, se revê ou inspira.]
http://www2.uol.com.br/neymatogrosso/imp_mai08_02.html [No álbum Inclassificáveis, de Ney Matogrosso, «Ode aos Ratos, canção social de Chico Buarque que descreve metaforicamente o caos urbano brasileiro, num primeiro momento parece destoar do resto do álbum».]

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Morte e Vida Severina

7 de Janeiro de 2015
No comboio para Lisboa...
Falávamos...
A língua portuguesa, na expressão brasileira e lusitana... A minha preocupação pelo facto de, quando se acede à internet, sermos guiados em aspectos básicos, técnicos, de ficheiros, escrevendo palavras como download, upload, access, na fala do lado de lá do mar, parecendo-me que o governo português devia poder impor a daqui, no nível em que o pode e deve fazer. Fora disso, gostaria de ver as línguas portuguesas da chamada lusofonia seguirem os seus caminhos, sem a preocupação imperial. E sem medo nenhum de contactos no universo da língua portuguesa e de todos os povos com quem ela se enriquece. É um grande logro o dos números, em que caem — na nossa opinião — grandes espíritos.
Dito isto, admiro a par os textos dos melhores escritores, sem distinção de país.
Neste ponto, apresentei à minha companheira de viagem João Cabral de Melo Neto.
Em 1966, no cinema Império, em Lisboa, tive a felicidade de assistir à representação de Morte e Vida Severina. Morava ali perto, na Abade de Faria.
Recordo as coisas assim: um jovem cantava certos passos, com diferenças de pronúncia, abertura, fonemas, doçura, inebriante... Durante muito tempo, fui cantarolando essas partes, sobretudo quando com um grande amigo — até hoje —, que também teve o privilégio de ver e ouvir Morte e Vida Severina - Auto de Natal Pernambucano.

Na série Duas Águas, Editora TUCA (Teatro da Universidade Católica de S. Paulo), 1968
i
— Finado Severino, quando passares em Jordão e os demônios te atalharem perguntando o que é que levas...
— Dize que levas cera, capuz e cordão mais a Virgem da Conceição. ......      …...      …..      ……      ......
— Uma excelência dizendo que a hora é hora.
— Ajunta os carregadores que o corpo quer ir embora.
— Duas excelências...      ….      ....
ii
«Essa cova em que estás / com palmos medida, / é a conta menor / que tiraste em vida.» ......    ......    ......
Estas, as partes que cantávamos.
Agora, às vezes, lembro Morte e Vida Severina, mas eu e o tal amigo, quando nos encontramos, temo-nos esquecido de cantar. «Uma excelência dizendo que a hora é hora»... Duvido que na altura da representação soubesse quem era Chico Buarque, mas a voz que imitava mentalmente, quando cantava, era a dele.
O retirante resolve migrar ao longo do rio Capibaribe até ao Recife, fugindo à seca do interior do Nordeste, procurando melhor vida no litoral. Acompanhamo-lo nessa migração.
Ver, no fim, ligação para uma muito boa evocação da Lisboa de 66, o café Vavá e a passagem de Chico Buarque pela capital portuguesa. Morte e Vida Severina foi, ainda, representada em Coimbra e no Porto.
*
— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

Esta parte pode ser ouvida, através do primeiro endereço que damos, abaixo, na voz de Chico Buarque. No texto está escrito «cota» (1), mas é «conta» que o cantor pronuncia, com o mesmo significado de porção, quantia. O que falta pode ler-se em SELECÇÃO 2. A identificação com a terra é completa, na nudez total. Nela, que lhe bebeu o suor vendido, viverá para sempre, livre do sol e da chuva. A terra o abriga e o veste, com um fato feito à medida. «[...] deixa-te semear ao comprido». «Não levas semente na mão: // és o próprio grão.» «Se abre o chão e te envolve, // como mulher com quem se dorme.»
A parte à volta do nascimento do menino (SELECÇÃO 3) é banhada de religiosidade, do carácter sagrado com que é sentida a vida. A vida é salva pelo menino. Não é um acaso o subtítulo da obra de João Cabral de Melo Neto: Auto de Natal Pernambucano.     
________________ 
(1) Tenho, entretanto, nas minhas mãos o livro Morte e Vida Severina e outros poemas para vozes, na 59.ª reimpressão da 34.ª edição (1994), da EDITORA NOVA FRONTEIRA, Rio de Janeiro. Este belíssimo livro inclui, ainda, O rio; Dois parlamentos; Auto do Frade. «é a conta menor / que tiraste em vida»: assim se pode ali ler, sendo certamente gralha a grafia «cota» do texto da internet, aqui reproduzido.  [Nota acrescentada em 18-01-2015, às 19 horas.]

SELECÇÃO
1
NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA,VAI PARODIANDO AS PALAVRAS DOS CANTADORES

— Finado Severino, quando passares em Jordão e os demônios te atalharem perguntando o que é que levas...
— Dize que levas cera, capuz e cordão mais a Virgem da Conceição.

— Finado Severino, etc. ...

Dize que levas somente coisas de não: fome, sede, privação.

— Finado Severino, etc. ...

— Dize que coisas de não, ocas, leves: como o caixão, que ainda deves.

— Uma excelência dizendo que a hora é hora.

— Ajunta os carregadores que o corpo quer ir embora.

— Duas excelências...

— ... dizendo é a hora da plantação.

— Ajunta os carregadores...

— ... que a terra vai colher a mão.


SELECÇÃO
2
ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO
— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

— Viverás, e para sempre,
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
— Será de terra tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
— Será de terra e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
— Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.

— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos).
— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).

— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.

— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.

— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
— Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha.
— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.

— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito a viração.
— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com quem se dorme.

SELECÇÃO
3
O nascimento do menino; o caderno que se inicia

UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ

— Compadre José compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.

APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM VIZINHOS, AMIGOS, DUAS CIGANAS ETC.

— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor.
[...]

COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO

— Minha pobreza tal é que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues;
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
— Minha pobreza tal é que coisa não posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar;
aqui são todos irmãos,
de leite, de lama, de ar.

 FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES ETC.
[A formosura do menino]

— De sua formosura
já venho dizer:
[...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[...]
— Sua formosura
deixai-me que cante:
[...]
— Sua formosura
eis aqui descrita:

 [...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[…]

— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
[...]
Na internet
https://www.youtube.com/watch?v=IZnXIWIyDq4 (Filme, 1977; especialmente, de 30:56 a 33:35.)
https://www.youtube.com/watch?v=MthmmdJgQXY (Teleteatro musical, 1981, com parte do elenco do filme de 1977; especialmente, de 52:02 a 54:51.)
http://www.releituras.com/joaocabral_bio.aspPublica em Lisboa seu livro Quaderna, em 1960.»; «Como ministro conselheiro, em 1966, muda-se para Berna. O Teatro da Universidade Católica de São Paulo produz o auto Morte e Vida Severina, com música de Chico Buarque de Holanda, primeiro encenado em várias cidades brasileiras e depois no Festival de Nancy, no Théatre des Nations, em Paris e, posteriormente, em Lisboa, Coimbra e Porto.» «1982 [...] Vai para a cidade do Porto, em Portugal, como cônsul geral.»)
http://cvc.instituto-camoes.pt/oceanoculturas/11.html (Breve nota biográfica, referindo a colocação de João Cabral de Melo Neto no Porto, no decurso da sua carreira diplomática.Transcreve um poema de Pedra do Sono.)
http://www.releituras.com/joaocabral_morte.asp (O texto integral de Morte e Vida Severina.)
Chico Buarque em Lisboa
(«[...] CHICO BUARQUE E AS VALQUÍRIAS
Helena Carneiro ainda se recorda de uma peça de teatro que foram todos ver ao cinema Império, em 1966, e que marcou aquela geração: Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, representada por um grupo universitário brasileiro que integrava no elenco três músicos para acompanharem as canções. Um deles fez grande furor no Vavá. Era Chico Buarque de Holanda, autor da música da peça, então um ilustre desconhecido, que por cá andou durante um mês, segundo consta, em permanente bebedeira.»)
Bibliografia
A Imprensa Nacional — Casa da Moeda editou a Poesia Completa 1940-1980, de João Cabral de Melo Neto, em 1986.
Há várias edições brasileiras de Morte e Vida Severina.