(Depois da minha arenga, ouçamos o fado do sobreiro. Fica bem, neste domingo.)
*
Ao fim de tantos anos, pensei que não havia dúvidas. Quando era pequeno, um chaparro e um sobreiro eram a mesma coisa. Mais tarde, aprendo que um chaparro é um sobreiro novo. Mas não é que um amigo meu, alentejano do miolo do Alentejo, me diz que um chaparro é uma azinheira!? Isto veio a propósito de uma pergunta minha sobre o fado do sobreiro, que entrou na conversa não sei como.
-- Como é que o montado chora, ao luar, com saudades do sobreiro, quando em seu lugar já está um chaparro altaneiro? -- perguntei.
A resposta pode dá-la o fadista.
Mas, se a morte um dia vem,
Nós deixamos sempre alguém,
Com saudades, a chorar.
O
chaparro, altaneiro que seja, ainda não é bem sobreiro. E mesmo se o fosse,
podia haver saudade do velho sobreiro.
A
dúvida instalou-se. A partir de agora, receio que possa deixar de ter, às vezes, dúvidas e
me comece a cercar em qualquer situação a Dúvida.
*
Lá no cimo do montado,
No ponto mais elevado,
Havia um enorme sobreiro.
De todos era a cobiça,
A dar bolota e cortiça,
No montado era o primeiro.
De todos era a cobiça,
A dar bolota e cortiça,
No montado era o primeiro.
Mas um dia, com
a tempestade,
Fez ouvir lá na
herdade
O ribombar do
trovão
E no céu uma
faixa risca
Uma enorme
faísca
Fez o sobreiro
em carvão.
E no céu uma
faixa risca
Uma enorme
faísca
Fez o sobreiro
em carvão.
Passaram-se anos
e agora
No mesmo sítio
lá mora
Um chaparro
altaneiro
E, em noites de
luar(e),
Ouve-se o
montado a chorar(e),
Com saudades do
sobreiro.
E, em noites de
luar(e),
Ouve-se o
montado a chorar(e),
Com saudades do
sobreiro.
E é(i) assim que
nasce a vida
Constantemente
vivida,
Quase sempre a
trabalhar(e).
Mas, se um dia a
morte vem,
Nós deixamos
sempre alguém,
Com saudades, a
chorar(e).
Mas, se um dia a
morte vem,
Nós deixamos
sempre alguém,
Com saudades, a
chorar(e).
(Letra de Abílio Morais)
Uma curiosidade agradável, para um natural da terra; a árvore escolhida para a sequenciação do genoma do sobreiro é de Montargil. Ver o artigo
genoma do sobreiro
P. S. Na verdade, depois de uma observação que me foi feita, já depois de publicada esta mensagem,
penso que chaparro e sobreiro, para muita gente, é a mesma coisa; isto, no ambiente de Montargil em que fui criado.
A palavra «chaparro» tem um sabor mais popular, rústico, até rude. É a designação primeira, do dia-a-dia. Deve ser pré-romana e com
raiz mais funda na psique das pessoas do que sobreiro, que nos vem dos romanos. Ora, vejamos o DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO DA LÍNGUA PORTUGUESA, de J. P. Machado:
Chaparro,
s. Etimologia ainda não esclarecida, mas este voc. deve relacionar-se com o basco
txapar, «roble novo», dimin. de
sapar; [...]