Na Quinta de Bicesse encontraram- -se manuscritos,
fotografias, cartas e a biblioteca pessoal do artista ainda por estudar.
Hoje é anunciada a programação do ano de celebrações do nascimento
Até 2006 houve um Almada
Negreiros fechado na pequena casa de madeira que era o atelier da Quinta
de Bicesse. Nesse ano, as netas do artista e uma jovem investigadora
abriram as portas do espaço. Os manuscritos, fotografias e cartas, entre
outros materiais lá encontrados, têm estado desde então a ser
trabalhados e serão apresentados ao longo deste ano, durante as
celebrações dos 120 anos do nascimento do artista, cuja programação será
hoje anunciada (ver caixa).
Com a historiadora de arte Sara
Afonso Ferreira, que há dez anos se dedica ao estudo da obra de Almada,
Rita e Catarina Almada Negreiros encontraram inéditos como a conferência
Os Embaixadores Desconhecidos (1932) ou o folheto satírico
K4, O Quadrado Azul (1917), a maquete de um cenário para a peça
Los Medios Seres (1929), do dramaturgo espanhol Ramón Gomez de la Serna, originais como o romance
Nome de Guerra,
cujo manuscrito se julgava perdido desde a primeira edição, em 1938,
desenhos publicados na imprensa, rascunhos e uma biblioteca de milhares
de livros. "Nenhum de nós estava à espera de encontrar tanta coisa, nem o
filho, que me disse ter feito uma selecção daquilo que lhe parecia mais
importante para depositar na Biblioteca Nacional", explica Sara Afonso
Ferreira.
No meio do pinhal
A Quinta de Bicesse, perto de
Cascais, foi mandada construir por Almada Negreiros (1893-1970) e a
mulher, Sara Afonso, na década de 1930. Passavam longas temporadas nesta
residência, a única que possuíram, já que a de Lisboa, na Rua São
Filipe Nery, era arrendada. Durante a II Guerra Mundial, o casal viveu
mesmo exclusivamente nesta pequena quinta, com um lagar, uma horta, um
pomar e o pinhal em volta do atelier. Após a morte de Sara Afonso, em
1983, o filho do casal, José, levou para lá o recheio da casa da Filipe
Nery e do atelier de Lisboa, na Rua Rodrigo da Fonseca.
Sara
Afonso Ferreira começou a estudar a obra de Almada 18 anos depois, em
2001, em Bruxelas. Quando veio para Portugal fazer o doutoramento, em
2003, percebeu que a obra de um dos nomes fundamentais do modernismo
português "não estava assim tão estudada". Nos museus, considerou as
colecções pouco representativas da totalidade da obra plástica do
artista, e os catálogos existentes tinham imagens a preto e branco e
referências incompletas ou mesmo incorrectas. Face a esse panorama, o
estudo a que se propusera, sobre as relações texto-imagem na obra de
Almada no quadro do primeiro Modernismo português (1915-1927),
pareceu-lhe impossível. "Percebi que tinha de começar pela raiz", conta a
investigadora, a quem os herdeiros do artista acabaram por abrir as
portas de casa.
A inventariação do espólio na posse da família
está a ser feita desde 2011 por um grupo de investigadores do Instituto
de Estudos de Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa. Os
resultados serão apresentados nos dias 13, 14, e 15 de Novembro num
colóquio internacional organizado em parceria com o Instituto de
História da Arte também da Nova, ao qual Sara Afonso Ferreira está
ligada.
Para além da inventariação, o objectivo é promover o
cruzamento do espólio da família, do espólio do Centro de Arte Moderna
da Gulbenkian e da Biblioteca Nacional numa plataforma virtual que
reunirá todos os documentos que se encontram fisicamente dispersos.
"Conseguindo lançar este projecto a partir dos espólios principais
pensamos que os coleccionadores e particulares vão sentir vontade de
abrir as suas colecções. Muitas vezes trata-se de herdeiros de amigos
íntimos do casal, que têm cartas e desenhos", diz Sara Afonso Ferreira.
Fernando
Cabral Martins, investigador responsável pelo projecto, e que já
estudou a obra de outros modernistas como Fernando Pessoa e Mário de Sá
Carneiro, diz que o espólio de Almada é particularmente "complexo" e
permite uma "descoberta permanente". Especialista em literatura dos
séculos XIX, XX e XXI, destaca, para lá dos inéditos, os rascunhos e
diferentes versões de um mesmo documento, que permitem perceber o
processo de criação. "Os modernistas como Almada não trabalhavam de
forma linear, o crescimento da obra não é orgânico. Ali, cada uma das
fases tem personalidade própria, existe em si mesma, são múltiplos
estados e múltiplas versões da mesma obra. O trabalho que eles faziam é
diferente de um trabalho racionalizado e organizado", explica.
Para
Cabral Martins, contactar com este espólio permite ter acesso a
testemunhos mais directos da vida de Almada, não apenas enquanto
artista. "Quem entra em contacto com o espólio sente que há uma
comunicação que se estabelece para lá do objecto. O termo técnico é
testemunho, que é muito apropriado, porque cada objecto ou manuscrito
testemunha algo e é uma coisa viva."
Sara Afonso Ferreira realça
também a importância do espólio documental, no qual se incluem objectos
comprados em feiras, correspondência, fotografias e recortes de imprensa
que levaram a descobertas. No Verão de 2012, por exemplo, encontrou-se
um pequeno recorte que fazia referência a nove crónicas que o artista
tinha escrito num jornal, das quais os investigadores nunca tinham
ouvido falar mas que acabaram por descobrir na Biblioteca Nacional.
Foram ainda encontrados originais de desenhos publicados no semanário humorístico
Sempre Fixe, que existiu entre 1926 e 1935. Os originais estavam ainda nos envelopes em que foram devolvidos pela redacção.
Intemporal
O
papel das netas do artista tem sido determinante, dizem os
investigadores. Rita e Catarina explicam que tiveram de aprender a
tratar o avô por "Almada" para criar a distância necessária ao estudo a
sua obra. Nas suas palavras, "a grande vantagem deste espólio foi ter
sido preservado durante tantos anos": "Se tivesse sido aberto nos anos
1980, as coisas podiam ter ficado dispersas."
A abertura do
espólio coincidiu com a passagem do testemunho do arquitecto José Almada
Negreiros para as filhas, que, embora não se assumam especialistas na
obra de Almada, se dedicam há dez anos a uma causa que consideram ser
simultaneamente "um dever e uma obrigação, uma alegria e uma missão".
Não
conseguem esconder a admiração que sentem pela obra do avô: "A vibração
que sentimos quando lemos ou vemos toda a sua obra para nós é um
optimismo, uma vida vibrante, uma inteligência, sentido de humor, é um
estímulo enorme. Temos imensa sorte por adorar e gostar imenso da obra
do nosso avô e por sermos das primeiras entusiastas. Podia não ser o
caso."
Para Rita, arquitecta e parceira de trabalho de Catarina, a
obra do avô é intemporal e contínua em diálogo com a sociedade do
século XXI. "Toda a vida dele foi virada para a busca do essencial, do
arquétipo, do Eu universal, e isso é uma coisa intemporal. A geração do
Orfeu é a vanguarda, foram eles que desbravaram o caminho para tudo o
que aconteceu até hoje no nosso país. Ir até às origens do que foi essa
ruptura é muito enriquecedor. No fundo é o princípio e o agora. Não é o
fim, é o agora."