[PRIMEIRO ACTO]
A bandeira rubro-verde servindo-lhe de babador (p. 3)
Rubro-verde em 1635?, no ano da Graça de…
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal, (p. 11) [O Brasil]
Ainda vai tornar-se um Império Colonial. (p. 13) [a
terra onde está, que pisa, o Brasil]
DIAS: Viva
Portugal!
FREI: Que Deus o
tenha. (p. 21)
SOUTO:
Governador, talvez não seja o momento, mas fui eu que…
MATHIAS: Já sei,
você é o traidor. Parabéns, está nomeado alferes.
FREI: Não, quem
trai a Holanda não trai o papa. Traidor é quem trai Castela.
MATHIAS: Traidor
é quem trai Portugal.
FREI: Sutilezas
histórias, Excelência.
CAMARÃO: Traidor
é quem trai Jesus Cristo.
DIAS: Traidor é
quem trai a pátria.
SOUTO: Traidor é
Calabar. (p.22)
Canção de Anna (p. 24)
Calabar - na presença de Frei e do escrivão – perguntado
pelo ouvidor «se sabia que alguns portugueses haviam sido traidores, e tratavam
com o inimigo secretamente, levando-lhe ou mandando-lhe avisos do que entre nós
se fazia. Ao que ele respondeu que muito sabia e tinha visto nesta matéria.»
(p. 25) Calabar não dá os nomes.
FREI: Excelência,
cuidado. Segundo o que me disse Calabar, os grandes culpados não estão na
arraia-miúda. O que ele me pediu licença que lhe contasse são coisas pesadas,
que eu gostaria de tratar consigo em particular.
BÁRBARA: […] Certo,
certo, certo, A culpa de tudo é de Calabar. A culpa de todos é de Calabar. (p.
26).
MATHIAS: […]
(Ajoelha-se) Eu, Mathias, de sangue e de nome português, mas brasileiro por
nascimento e afeição, às vezes tenho pensado neste meu país…
[SEGUNDO ACTO
[…]
NASSAU: […] Mas orgulhoso, indiferente e cético, mesmo assim eu sei do meu fracasso. E o mais engraçado, o que me faz rir a bandeiras despregadas, é que não me importo…
(mas serio do que nunca, põe-se a cantar.)
Porque esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso canavial...
BÁRBARA: Um dia
este país há de ser independente. […]
*
O Fado Tropical
(Luz isola Mathias, que começa a cantar “ Fado Tropical ” .)
Ó musa do meu fado,
Ó minha mãe gentil.
Te deixo, consternado,
No primeiro abril.
Mas não sê tão ingrata,
Não esquece quem te amou.
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
12
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.
(Falando com emoção, permanecendo o fundo musical de
melosas guitarras)
Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos
no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo. Além da
sífilis, é claro. Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas
em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e,
sinceramente, chora.
(Cantando)
Com avencas na caatinga,
Alecrins no canavial,
Licores na moringa,
Um vinho tropical.
E a linda mulata,
Com rendas do Alentejo,
De quem, numa bravata,
Arrebata um beijo.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.
(Declamando, sempre acompanhado de guitarras)
Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto.
De tal maneira que, depois de feito,
Desencontrado eu mesmo me contesto.
Se trago as mãos distantes do meu peito,
É que há distância entre intenção e gesto.
E se meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão do incesto.
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa,
Mas meu peito se desabotoa.
E se a sentença se anuncia bruta,
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa.
(No decorrer do soneto, Mathias foi desabotoando as calças e
abrindo-as. Agora, para a última parte do fado,
ele vai-se sentando na latrina ao lado do Holandês, que permanece na
penumbra.)
(Cantando)
Guitarras e sanfonas,
13
Jasmim, coqueiros, fontes,
Sardinhas, mandioca,
Num suave azulejo.
O rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E, numa pororoca,
Deságua no Tejo.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um Império Colonial.
(Luz sobre os dois. Mathias usa uma ceroula vermelha com faixa verde; o Holandês empunha uma bandeira branca espetada num bambu; suas ceroulas são azuis, listradas de vermelho.)
*
http://books.openedition.org/pulm/958 (adaptação de canções brasileiras por Georges Moustaki, por Manuel Ramos; ver, também, no final, a
Troisième chanson, cotejo lado a lado de
Fado Tropical e
Portugal)
http://nossaradio.blogspot.pt/2013/05/em-memoria-de-georges-moustaki-1934-2013.html (palavras de João Gobern, seguidas pelo texto de Álvaro José Ferreira, que publica a mensagem, que inclui reproduções de Le Métèque / O Estrangeiro, Natalia, Ma Solitude, Lettre à Marianne, Il Est Trop Tard, Rue des Fosses Saint-Jacques, Ma Liberté, Margot, Marche de Sacco et Vanzetti, Kim, Portugal)
***
Texto integral de Calabar...
A peça Calabar... no YouTube, depoimentos, Fado Tropical, Ode aos Ratos
https://www.youtube.com/watch?v=Ki5WDlppPiI [CHICOCANTA - CHICO BUARQUE.
Calabar - O Elogio da Traição. «Lançado em 1973 pela C.B.D. Phonogram, foi reeditado em 1977 pela Phonogram com a adição de uma foto.» 30:52.
Fado Tropical, com as partes cantadas e ditas, do minuto 19:30 a 23:38.]
https://www.youtube.com/watch?v=c24TrYSIURA [
Calabar, 1.ª parte. Leitura da peça, com todos os personagens, na sede da APROPUC
, 4/6/2012. Nem sempre segue a ordem do texto; pequenas supressões, aligeirando a extensão da passagem de onde foram retiradas, 57:08.]
https://www.youtube.com/watch?v=3Kzu86d1gO4 [Chico Buarque e MPB-4 - Pot-Pourri da peça Calabar - Bastidores + Depoimento. – A peça foi gravada ao vivo e houve que introduzir alterações («rasuras», aplausos falsos...), para o disco poder sair.]