domingo, 14 de abril de 2013

     A Noite Sangrenta, de novo
    
     Dizia, ontem, que o episódio da morte de António Granjo, se não o disse pensei-o, devia ser do conhecimento dos portugueses, através de um opúsculo, que nos servisse de memória. Convém conhecer o bem e o mal. As histórias, também fazem parte da história. Lembro de ter lido narrativas circunstanciadas sobre o episódio da fragata Charles et George, de lutas de D. João V para fazer prevalecer contra uma potência estrangeira um cerimonial de precedências, afirmando a nossa dignidade de portugueses, e outras, por exemplo,  sobre situações ocorridas durante as invasões francesas. Li, não há muito, o relatório de Cenáculo sobre os acontecimentos de Évora, ai, ai... Ai dos vencidos ou que temporariamente estão nessa situação. Mas a vida continua.

     Ao ver, hoje, de fugida, um catálogo que a In-Libris fez chegar ao correio electrónico, deparo com um livro dedicado ao assunto em título. Se a rubrica «livros» do meu orçamento tivesse ainda cabimento para livros, este não podia falhar. É assim. Aqui vai uma cópia.

A Noite Sangrenta


CONSIGLIERI SÁ PEREIRA
carta-pref. Raul Brandão
capa de Alberto Souza

Lisboa – Paris – Porto – Rio de Janeiro, 1924
Livrarias Aillaud e Bertrand / Livraria Chardron / Livraria Francisco Alves
1.ª edição
18,9 cm x 12,1 cm
188 págs.
exemplar muito estimado; miolo limpo
ostenta no frontispício carimbo de entrada em biblioteca particular
peça de colecção
45,00 eur

Da portada do livro:
«Neste livro se faz descrição completa da maneira como foi assassinado Antonio Joaquim Granjo, ao pôr do Sol do dia Dezenove de Outubro do ano de Mil Novecentos e Vinte e Um, no Arsenal de Marinha da cidade de Lisboa, bem como da sua vida e dos acontecimentos que precederam tão trágico sucesso. Não quere o autor proceder à descrição por igual detalhada das mortes de Antonio Machado Santos, Carlos da Maia, Botelho de Vasconcellos e Freitas da Silva, porque delas não teve conhecimento tão amplo como da primeira. [...]»
António Granjo desempenhava, na altura, funções de primeiro-ministro.

pedidos para:
telemóvel: 919 746 08

sábado, 13 de abril de 2013

     Os anos 20 em jornais de Torres Vedras
     O TORREENSE, 1921

     Já há algum tempo -- em 2009 -- li duma ponta à outra um jornal dirigido pelo Dr. Justino Freire Moura Guedes, de que tenciono dar alguma notícia neste blogue. Aí descobri o escritor Manuel Ribeiro -- citado pelo director num dos seus editoriais --, de quem tenho vindo a adquirir a obra quase toda, 
e dois ou três colaboradores de boa qualidade de escrita. Ainda não sei se estes dois jornais, ambos semanários, polemicavam entre si. Guardo notícia de rivalidade de A Nossa Terra com outro jornal torriense, mas não recordo qual. Neste primeiro exemplar (1) de O Torreense, nada se vislumbra e até o aspecto do jornal, a distribuição das peças, o aproveitamento das colunas, pelo menos, um colaborador comum -- Silvestre Botelho de Sequeira -- e a transcrição de artigos de jornais de Lisboa indicam grande similaridade. E mais: o mesmo sentimento de procurar sair de uma situação de entorpecimento cívico e pobreza. A Nossa Terra dá, também, uma extensa descrição, transcrita de jornal da capital, dos acontecimentos ligados à morte de António Granjo, caso exemplar que convém conhecer como em primeira mão, hoje, para memória do que somos, no bem e no mal.

     Hoje, sábado, comecei a ler (1) O TORREENSE, ano de 1921.
     
     O TORREENSE, 2 de Janeiro de 1921
Órgão do Partido Republicano Liberal
publica-se aos domingos em Torres Vedras
     1.ª página:
     1921 - editorial
     AMNISTIA - por Egas Moniz, transcrito de A Lucta
     SECÇÃO LITERÁRIA - Soneto «UMA VEZ», por Virgínia Vitorino´
      Do primeiro verso: «Ama-se uma vez só. [...]»
     O problema financeiro em Portugal - de discurso de Barros Queiroz
*
O TORREENSE, 2 de Janeiro de 1921, N.º 63
        O artigo de fundo, assinado por Talbero (deve ser Alberto, o director, Alberto Vieira da Mota), é de um pessimismo incrível. Muitos sabemos (todos) que é assim, num plano das coisas; noutro, não é, não pode ser. É a vida, mas mesmo a vida não é assim, morte e renovação da vida confundem-se, morte e renascimento. A vida inclui a morte dentro dela. Outra coisa são as configurações que a vida vai tomando. Há é que vivê-la, na configuração em que estamos moldados, sabendo que o percurso (mas ignorando-o ou fazendo por isso) vai acabar um dia. Sabemos ou não sabemos, mas queremos ignorá-lo e ignoramos.
     
     Talbero sabe tudo isto. Ele desabafa, quanto à «apagada e vil tristeza». Na última secção do seu texto, a concluir, transfigura-se de esperança, negando-se:

     «Avé, 1921!  Que não transformes as nossas esperanças em desilusões dolorosas!
     Traz-nos Paz e Felicidade, desanuvia-nos o espírito; afasta para longe as nuvens negras que pressagiam tempestade. Protege-nos, que nós confiadamente exclamamos!
     Salvé 1921!»
*
AMNISTIA, por Egas Moniz
     Defende a amnistia, para os presos monárquicos, os vencidos de 1919. Egas Moniz também pugnou pela libertação dos que estiveram presos no período do dezembrismo, argumenta contra os que se contramanifestaram -- quando da romagem das senhoras portuguesas, junto do Presidente do Ministério, para que os presos pudessem passar o Natal  com as suas famílias -- que também instou pela libertação desses presos políticos com o mesmo calor e entusiasmo com que hoje o faz.
     Defende um plebiscito sobre a amnistia.
     No artigo, são referidos António Granjo e Jacinto Nunes, figuras gradas do Partido Republicano Liberal, que no último congresso exprimiram esta maneira de pensar.

*
     Infelizmente, estavam para acontecer os tristes episódios da noite de 19 para 20 de Outubro deste mesmo ano, em que António Granjo foi assassinado. 
     N'O TORREENSE, n.º 105, de 30 de Outubro de 1921, toda a primeira página é dedicada à morte de António Granjo, e boa parte da segunda. Até ao n.º 113, de 25 de Dezembro, sempre este caso está presente nas colunas do jornal. Número após número, é dado à estampa, em continuação, um trabalho do Diário de Lisboa, «As horas negras da República: "Matem, que matam um bom republicano": As últimas horas da vida de António Granjo».
*
     (1) Vejo, ao chegar a casa, vindo da Biblioteca Municipal, que já havia consultado, também exaustivamente, como no caso de A Nossa Terra, O Torreense, de que conservo muitas notas. Como as coisas se apagam... Os jornais lidos foram os de n.º 63 a 79 (2 de Janeiro a 17 de Abril).
     
     
Óscar Lopes, 1917-2013
Ainda a tempo

Morreu há pouco, a 22 de Março. Teve e tem uma forte presença a História da Literatura Portuguesa, que escreveu em parceria com António José Saraiva. O primeiro livro, só dele, que folheei em casa da amiga da família e professora distinta, D.ª Judite Vieira, em Lisboa, foi Cinco Poetas Parnasianos.

Alguma coisa do que se escreveu recentemente, dá uma ideia do que foi este grande professor e homem de letras do Porto.

Morreu o professor e ensaísta Óscar Lopes
Sobre Óscar Lopes
Agora que estou mais perto da cova,tenho uma enorme confiança na ciência
Óscar Lopes e o Transcendente


domingo, 7 de abril de 2013

Almada Negreiros, os 120 anos do nascimento

Domingo, revista do dia
Do jornal Público, podíamos seleccionar, de entre outros textos muito interessantes, o de Frei Bento Domingos, A ressurreição continua, e, ainda, de Paulo Trigo Pereira, O Titanic, de Vasco Pulido Valente, No escuro. Gostaria de referir, quase clandestinamente, de Miguel Esteves Cardoso, A revista passageira , uma delícia, para quem gosta de livros, revistas, papéis...

Entretanto, às 18h 30 min. começou a comunicação ao país do primeiro-ministro. Já aconteceu. Dias difíceis, os em que estamos. Possamos nós, daqui a uns anos, ver estas coisas como espuma dos dias que ficaram para trás.

O que não fica para trás tão facilmente é a obra dos grandes homens, como Almada Negreiros, de quem agora se comemoram os 120 anos do nascimento.


  Almada Negreiros e Sarah Affonso com os filhos Ana Paula e José Affonso, anos 40


 
 Almada Negreiros ao colo da mãe, Elvira Sobral de Almada Negreiros


 Almada Negreiros e colegas do Colégio de Campolide, no Portinho da Arrábida, 1909 

  
 Almada Negreiros, Lisboa, 1913


Almada Negreiros, 1919



Fotografia inédita de Almada Negreiros, Lisboa, 1921


Retrato de Almada Negreiros dedicado ao pintor Eduardo Viana, 1921




Almada Negreiros, Lisboa, 1921, (Fotografia de Tomás Fernandes)


Sarah Affonso e Almada Negreiros, Lisboa, anos 30 


Almada Negreiros e Sarah Affonso no Chiado, 1934

Almada Negreiros e Sarah Affonso no Hotel Vitória, na Avenida da Liberdade, 1934


Almada Negreiros em finais dos anos 30


  
Sarah Affonso e Almada Negreiros, na Quinta de Bicesse, em finais dos anos 14940 

  
Interior da casa da Quinta de Bicesse 


Atelier da Quinta de Bicesse em finais dos anos 1940



Almada Negreiros no Castelo dos Mouros, Sintra, anos 60


Almada Negreiros a trabalhar na Gare Marítima de Alcântara, Lisboa, 19
 Almada Negreiros a trabalhar no painel «Começar», Fundação Calouste Gulbenkian, 1969

Sarah Affonso com as netas, Catarina e Rita Almada Negreiros
José de Almada Negreiros com a neta Rita, Lisboa, 1969


Em A Invenção do Dia Claro, onde se lê, se vive páginas geniais, lembro as em que Mestre Almada fala da Mãe. A fotografia da mãe com o filho ao colo obriga-me a lembrá-las. «Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça! [...]   [...]
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!»













Esta pequena grande obra é de 1921, Lisboa, OLISIPO, Apartado 145. Há edição fac-similada, da Assírio e Alvim.
*

No Público, de hoje:


Há um novo Almada Negreiros para descobrir 120 anos depois


       
Na Quinta de Bicesse encontraram- -se manuscritos, fotografias, cartas e a biblioteca pessoal do artista ainda por estudar. Hoje é anunciada a programação do ano de celebrações do nascimento
Até 2006 houve um Almada Negreiros fechado na pequena casa de madeira que era o atelier da Quinta de Bicesse. Nesse ano, as netas do artista e uma jovem investigadora abriram as portas do espaço. Os manuscritos, fotografias e cartas, entre outros materiais lá encontrados, têm estado desde então a ser trabalhados e serão apresentados ao longo deste ano, durante as celebrações dos 120 anos do nascimento do artista, cuja programação será hoje anunciada (ver caixa).
Com a historiadora de arte Sara Afonso Ferreira, que há dez anos se dedica ao estudo da obra de Almada, Rita e Catarina Almada Negreiros encontraram inéditos como a conferência Os Embaixadores Desconhecidos (1932) ou o folheto satírico K4, O Quadrado Azul (1917), a maquete de um cenário para a peça Los Medios Seres (1929), do dramaturgo espanhol Ramón Gomez de la Serna, originais como o romance Nome de Guerra, cujo manuscrito se julgava perdido desde a primeira edição, em 1938, desenhos publicados na imprensa, rascunhos e uma biblioteca de milhares de livros. "Nenhum de nós estava à espera de encontrar tanta coisa, nem o filho, que me disse ter feito uma selecção daquilo que lhe parecia mais importante para depositar na Biblioteca Nacional", explica Sara Afonso Ferreira.
No meio do pinhal
A Quinta de Bicesse, perto de Cascais, foi mandada construir por Almada Negreiros (1893-1970) e a mulher, Sara Afonso, na década de 1930. Passavam longas temporadas nesta residência, a única que possuíram, já que a de Lisboa, na Rua São Filipe Nery, era arrendada. Durante a II Guerra Mundial, o casal viveu mesmo exclusivamente nesta pequena quinta, com um lagar, uma horta, um pomar e o pinhal em volta do atelier. Após a morte de Sara Afonso, em 1983, o filho do casal, José, levou para lá o recheio da casa da Filipe Nery e do atelier de Lisboa, na Rua Rodrigo da Fonseca.
Sara Afonso Ferreira começou a estudar a obra de Almada 18 anos depois, em 2001, em Bruxelas. Quando veio para Portugal fazer o doutoramento, em 2003, percebeu que a obra de um dos nomes fundamentais do modernismo português "não estava assim tão estudada". Nos museus, considerou as colecções pouco representativas da totalidade da obra plástica do artista, e os catálogos existentes tinham imagens a preto e branco e referências incompletas ou mesmo incorrectas. Face a esse panorama, o estudo a que se propusera, sobre as relações texto-imagem na obra de Almada no quadro do primeiro Modernismo português (1915-1927), pareceu-lhe impossível. "Percebi que tinha de começar pela raiz", conta a investigadora, a quem os herdeiros do artista acabaram por abrir as portas de casa.
A inventariação do espólio na posse da família está a ser feita desde 2011 por um grupo de investigadores do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa. Os resultados serão apresentados nos dias 13, 14, e 15 de Novembro num colóquio internacional organizado em parceria com o Instituto de História da Arte também da Nova, ao qual Sara Afonso Ferreira está ligada.
Para além da inventariação, o objectivo é promover o cruzamento do espólio da família, do espólio do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian e da Biblioteca Nacional numa plataforma virtual que reunirá todos os documentos que se encontram fisicamente dispersos. "Conseguindo lançar este projecto a partir dos espólios principais pensamos que os coleccionadores e particulares vão sentir vontade de abrir as suas colecções. Muitas vezes trata-se de herdeiros de amigos íntimos do casal, que têm cartas e desenhos", diz Sara Afonso Ferreira.
Fernando Cabral Martins, investigador responsável pelo projecto, e que já estudou a obra de outros modernistas como Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro, diz que o espólio de Almada é particularmente "complexo" e permite uma "descoberta permanente". Especialista em literatura dos séculos XIX, XX e XXI, destaca, para lá dos inéditos, os rascunhos e diferentes versões de um mesmo documento, que permitem perceber o processo de criação. "Os modernistas como Almada não trabalhavam de forma linear, o crescimento da obra não é orgânico. Ali, cada uma das fases tem personalidade própria, existe em si mesma, são múltiplos estados e múltiplas versões da mesma obra. O trabalho que eles faziam é diferente de um trabalho racionalizado e organizado", explica.
Para Cabral Martins, contactar com este espólio permite ter acesso a testemunhos mais directos da vida de Almada, não apenas enquanto artista. "Quem entra em contacto com o espólio sente que há uma comunicação que se estabelece para lá do objecto. O termo técnico é testemunho, que é muito apropriado, porque cada objecto ou manuscrito testemunha algo e é uma coisa viva."
Sara Afonso Ferreira realça também a importância do espólio documental, no qual se incluem objectos comprados em feiras, correspondência, fotografias e recortes de imprensa que levaram a descobertas. No Verão de 2012, por exemplo, encontrou-se um pequeno recorte que fazia referência a nove crónicas que o artista tinha escrito num jornal, das quais os investigadores nunca tinham ouvido falar mas que acabaram por descobrir na Biblioteca Nacional.
Foram ainda encontrados originais de desenhos publicados no semanário humorístico Sempre Fixe, que existiu entre 1926 e 1935. Os originais estavam ainda nos envelopes em que foram devolvidos pela redacção.
Intemporal
O papel das netas do artista tem sido determinante, dizem os investigadores. Rita e Catarina explicam que tiveram de aprender a tratar o avô por "Almada" para criar a distância necessária ao estudo a sua obra. Nas suas palavras, "a grande vantagem deste espólio foi ter sido preservado durante tantos anos": "Se tivesse sido aberto nos anos 1980, as coisas podiam ter ficado dispersas."
A abertura do espólio coincidiu com a passagem do testemunho do arquitecto José Almada Negreiros para as filhas, que, embora não se assumam especialistas na obra de Almada, se dedicam há dez anos a uma causa que consideram ser simultaneamente "um dever e uma obrigação, uma alegria e uma missão".
Não conseguem esconder a admiração que sentem pela obra do avô: "A vibração que sentimos quando lemos ou vemos toda a sua obra para nós é um optimismo, uma vida vibrante, uma inteligência, sentido de humor, é um estímulo enorme. Temos imensa sorte por adorar e gostar imenso da obra do nosso avô e por sermos das primeiras entusiastas. Podia não ser o caso."
Para Rita, arquitecta e parceira de trabalho de Catarina, a obra do avô é intemporal e contínua em diálogo com a sociedade do século XXI. "Toda a vida dele foi virada para a busca do essencial, do arquétipo, do Eu universal, e isso é uma coisa intemporal. A geração do Orfeu é a vanguarda, foram eles que desbravaram o caminho para tudo o que aconteceu até hoje no nosso país. Ir até às origens do que foi essa ruptura é muito enriquecedor. No fundo é o princípio e o agora. Não é o fim, é o agora."

NB -- As fotografias supra são do ESPÓLIO ALMADA NEGREIROS.




quinta-feira, 4 de abril de 2013

Mais
Obra completa do Padre António Vieira e Acordo Ortográfico

Diz-se adiante da importância absoluta desta edição e que, para Vieira, a verdadeira fidalguia está na acção,  coisas com  que concordo plenamente. Da edição da obra, no que respeita a questão do Acordo, já dói. Não é pacífico, não. Quanto aos organizadores, são do melhor que temos, lá isso são.


*


Padre António Vieira completo


300 anos depois da morte


Literatura


Isabel Lucas







Está pela primeira vez reunida a obra do Padre António Vieira. São 30 volumes a publicar até Setembro de 2014. Os primeiros três são apresentados hoje, quando surgem críticas à opção dos responsáveis por seguir o Acordo Ortográfico









“Só agora, mais de 300 anos depois da morte do padre António Vieira será possível fazer a sua biografia
completa.” A afirmação é de Migue Real, escritor e investigador na área da História da Literatura sobre a publicação da Obra Completa do Padre António Vieira (1608-1697), uma colecção de 30 volumes, mais de 12 mil páginas — um terço das quais de inéditos traduzidos do latim — que resultaram do trabalho de uma equipa de 52 investigadores, portugueses e brasileiros, coordenada pelo historiador José Eduardo Franco e pelo filósofo Pedro Calafate, ambos da Universidade de Lisboa. Pela primeira vez está reunida a obra do jesuíta natural de Lisboa, onde nasceu a 6 de Fevereiro de 1608, e que morreu em S. Salvador da Baía, em Julho de 1697, com 89 anos.
São sermões, cartas, textos proféticos e políticos, sobre judeus e sobre os índios, teatro e poesia. “A importância da publicação desta obra é absoluta”, afi rmou ao PÚBLICO Miguel Real, responsável pelo segundo volume da correspondência de Vieira. “É uma obra um pouco barroca, pela sua extensão e complexidade, que vem homenagear o grande mestre do barroco”, sintetizou ainda o escritor sobre o projecto que nasceu há 13 anos na cabeça de José Eduardo Franco, director do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e do qual se conhecem hoje os três primeiros volumes: o número um, Cartas Diplomáticas, e os dois seguintes que dão a conhecer na íntegra A Chave dos Profetas, o último título do padre António Vieira. “Vieira morreu quando estava a escrevê-lo e estava em latim”, revela José Eduardo Franco sobre aquele que os autores apresentam como um dos pontos altos da “colecção” apresentada hoje na reitoria da Universidade
de Lisboa com a leitura de um dos sermões de Vieira pelo actor Luís Miguel Cintra.
“A leitura de A Chave dos Profetas vem mostrar o lado heterodoxo da relação entre o padre António
Vieira e a Igreja Católica. É a obra profética máxima de Vieira, onde encontramos a ideia de uma igreja ecuménica, universal, de todos os povos — incluindo os judeus —, e sem o radicalismo de outras obras que levaram a Inquisição a prendê-lo”, afirma ainda Miguel Real, lembrando que em Portugal apenas se
conhecia parte deste trabalho que a partir de hoje pode ser lido na íntegra numa edição do Círculo de Leitores e que Eduardo Franco classifica, se não como o maior, “pelo menos como um dos grandes projectos editoriais nesta área jamais feito em Portugal.” A obra divide-se em quatro tomos
— Epistolografia, Parenética, Profética
e Varia — e estará publicada em Setembro de 2014 a um ritmo de três volumes a cada dois meses,
terminando justamente com a edição da poesia e do teatro de Vieira. Mas o projecto é ainda mais ambicioso e integra ainda um dicionário multimédia e uma obra selecta com cerca de 400 páginas a publicar em oito línguas. Os organizadores chamam a este conjunto Vieira Globaliniciativa integrada no Centenário da Universidade de Lisboa que se celebrou em 2011. Orçado num milhão de euros —
500 mil doados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa — partiu, segundo José Eduardo Franco, de uma pesquisa “de raiz”, desde os primeiros testemunhos escritos de Vieira e seguindo-lhe a geografia biográfica e bibliográfica. Os óbvios Portugal e Brasil, onde o autor viveu, e outros onde foram também encontradas fontes manuscritas e impressas. Casos de Espanha, França, Itália, Inglaterra e México. “O número de originais encontrados era muito grande. Muitos estavam em latim e havia que
tratá-los e traduzi-los, o que fez subir os custos do projecto.” Ou seja, em vez dos 500 mil euros inicialmente previstos, que seriam cobertos pela doação da Misericórdia de Lisboa, passou-se para o dobro. O resultado é, ainda segundo José Eduardo Franco, uma investigação “tão completa e definitiva quanto possível sobre um homem actual, que lutou contra a escravatura, pela reforma da Inquisição, um crítico das más práticas políticas, da divisão da sociedade entre cidadãos de primeira e de segunda, defensor da abolição da diferença de direitos dos chamados cristãos-novos e cristãos-velhos, capaz de fazer um diagnóstico de Portugal e da mentalidade portuguesa do seu tempo e que dizia que a verdadeira fidalguia estava na acção. Ele faz muito sentido neste tempo de crise em que vivemos”, resume José Eduardo Franco sobre a pertinência de conhecer Vieira, mas sublinhando que acima de tudo estamos perante um dos fundadores do português moderno, “alguém que fixou o bom português escrito e falado em Portugal e no Brasil”.
Seguir o acordo
E é precisamente a fixação do texto deste trabalho que está a originar polémica. Os responsáveis pela edição da obra optaram por seguir as normas do Acordo Ortográfico, conscientes de que isso não seria
uma decisão “pacífica”. Vasco Graça-Moura criticava isso mesmo num texto publicado na edição de ontem
do PÚBLICO. Saudando a obra e a sua ambição, Graça-Moura aponta essa opção pelo acordo como “um
grave problema” e, dirigindo-se aos responsáveis pela coordenação e edição da obra, escreve: “Ignoram
a polémica e os problemas? Não sabem que há hoje três grafias divergentes a serem aplicadas no mundo
da língua portuguesa? Quem tem medo do Estado de direito? Quem tem medo da aplicação da Lei?”.
José Eduardo Franco sublinha, em defesa da opção que tomou, o facto deste ser um projecto luso-brasileiro e assume a dificuldade que foi o definir “critérios linguísticos comuns, capazes de serem aceites em Portugal e no Brasil”. “O nosso objectivo é a democratização dos bens da alta cultura. Se Vieira foi um praticante do português falado e escrito temos o dever de o tornar acessível a todos.” Segundo José Eduardo Franco, ter ido por outro caminho que não o do acordo ortográfico já assinado seria “uma enorme arrogância”.
“Este era um projecto luso-brasileiro e uma das formas de nos entendermos foi cumprir o contrato e usar a norma em vigor. Há leis de que gostamos mais e outras menos. Não há acordos perfeitos. O padre António Vieira era uma figura luso-brasileira. Ele escrevia o português do século XVII que, em alguns aspectos,tem semelhanças com o que se fala e escreve no Brasil actual e noutras nem por isso. Mas ele é uma figura fundadora das duas literaturas. Contribuiu para uma evolução comum e é um exemplo dessa evolução.
Tivemos de encontrar uma plataforma de entendimento sob pena de hipotecar o conhecimento daquele que foi considerado o maior orador português”. Guilhermina Gomes, directora editorial do Círculo de Leitores, defende também, neste caso, a “norma comum” para editar uma obra de divulgação e minimiza a crítica de
Graça-Moura, que não se ficou pela opção pelo acordo, apontando ainda falhas de revisão e confusão entre
as palavras “esfinge” e “efígie”. O intelectual sugere, por tudo isso, a destruição destes três primeiros volumes: “Ora aproveitem lá a esfinge para mudar de revisor, guilhotinar estes três volumes inimigos da pátria e tratar da edição de Vieira como ela merece ser tratada...” Guilhermina Gomes assume o “erro” em relação “à esfinge” e garante que “ele será corrigido”, mas vê nas palavras de Vasco Graça Moura “uma intenção clara de destruir uma obra”. “Não se põe em causa um trabalho desta dimensão intelectual por causa de um erro como o dessa troca de
palavras.”
 (Público, 4.4.2013)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Acordo Ortográfico

Deixo três depoimentos recentes, um, de V. G.M, saído hoje, no Público.


Vieira queimado
em...“esfinge”

Debate Obras do padre António Vieira
Vasco Graça Moura
O padre António Vieira nunca foi  “imperador da língua portuguesa”. Essa é apenasuma das muitas mistificações engendradas por Fernando Pessoa, que nem sequer percebeu que a língua não é um império mas sim a principal base identitária de uma comunidade humana. De resto, se fosse realmente reconhecido como “imperador” e o seu império fosse deste mundo, a sua obra não poderia deixar de ser estudada, e muito a sério, nas nossas escolas...
Vieira foi, sim, um dos maiores escritores de todos os tempos da nossa língua, num quadro barroco em que soube fazê-la extravasar dos cânones e dos códigos parenéticos, teológicos, humanitários, oratórios, retóricos, argumentativos, políticos, diplomáticos, epistolográficos, proféticos, sociais e tantos outros em que a utilizava, assim como foi um mestre na maneira e no virtuosismo com que tão destramente se servia dela (e a servia) para a interpretação literal, analógica, tropológica e anagógica da palavra divina e das suas caleidoscópicas refracções.
Nessa razão de ser da sua longa vida, soube implantar uma dimensão fundamental que podemos considerar da ordem do estético, e que é expressiva e dinâmica, capaz de conjugar razão, emoção, erudição, conhecimento e mito, aproximação do real e flagrância, suspense e teatralidade, convicção e persuasão, chegando a estádios de um vigor estilístico, de uma energia verbal e de uma beleza retórica incomparáveis. Engendrou assim uma “estética pragmática”, posta ao serviço de Deus e apostada na conversão e salvação das almas e hoje, mesmo para aqueles a quem não seja o reino de Cristo neste e deste mundo aquilo que propriamente mais interessa, a preocupação de Vieira com o homem e o seu destino e a sua orientação espiritual da vida prática dos cristãos a quem se dirigia para a dimensão da escatologia em nome da qual falava, proporcionam-nos páginas em que o verdadeiro prazer da leitura se combina com a descoberta de análises extraordinárias da natureza e do comportamento humanos.
Quando penso em Vieira, penso em Miguel Ângelo. E ocorre-me também que, um pouco à maneira do Deus bíblico, Vieira nos modela a nossa própria humanidade na argila da língua que falamos. Ele soube utilizar a palavra, enquanto massa estruturante e fluidez sonora e semântica em movimento, na genialidade de um pensamento dialéctico que é também encenação constantemente transfigurada em acção, numa distribuição de volumes, equilíbrios, pontos de fuga, tensões e resoluções, em que nos restitui também um mundo enquanto arquitectura verbal e representação metafísica.


Bastante estudado por especialistas, mas pouco lido pelo grande público e nunca editado em toda a extensão de uma obra que promete continuar a revelar inéditos e variantes numa profusão desvairada de
arquivos nacionais e estrangeiros, Vieira vê chegada a hora do projecto mais ambicioso de edição de tudo quanto escreveu e que envolve, como principais entidades responsáveis pela saída dos trinta volumes projectados, a Universidade de Lisboa, a Santa Casa da Misericórdia e o Círculo de Leitores, além de muitos outros apoios e colaborações. Os objectivos desse projecto, na sua reunião de cartas e documentos
portugueses e latinos, do sermonário, da obra italiana, da obra profética, da intervenção política e diplomática, dos dispersos, de tudo o mais que importa dar a lume e até dos apócrifos, estão bem explicitados nos textos introdutórios e oxalá possam ser levados a cabo com as metodologias e os calendários previstos. Nas páginas de apresentação
notabilíssimas que já pude ler, seja das Cartasseja da Chave dos Profetas, não só encontrei percursos fascinantes, quase “de romance”, da história das ideias, como apanhei também fi os condutores preciosos que guiam o leitor num labirinto emaranhado de conceitos teológicos e situações históricas de que hoje estamos muito distantes. A escrita dos apresentadores é rigorosa, sabedora eficaz. E consegue nunca aborrecer o leitor apesar da por vezes derrotante rarefacção da matéria. Ficamos a compreender melhor o mundo, este mundo, o de Vieira e o nosso, o que vem dele até nós, o que
passará além de nós…
Esta magna edição é de saudar entusiasticamente, mas tem um grave problema. Digo isto com a reserva de que não sou especialista, mas sim o tal leitor comum a quem a edição expressamente se dirige (p. 33) e é apenas nessa qualidade que falo. 
O grave problema está em que a edição pretende pautar-se pela norma ortográfica em vigor e afinal aplica uma norma que não está em vigor nem nunca esteve, e que é a do Acordo Ortográfico. Sabe-se bem que esta questão tem feito correr rios de tinta. Mas entidades tão científica e economicamente poderosas
como as mencionadas, tão responsáveis económica, cultural e socialmente, pela missão que desempenham, dispondo de estruturas institucionais que comportam faculdades, departamentos, conselhos científicos, sei lá que mais, não poderiam e não deveriam, antes de se lançarem a este portentoso empreendimento, pedir pareceres científicos e jurídicos abalizados na matéria?
Viverão num mundo nefelibata? Ignoram a polémica e os problemas? Não sabem que há hoje três grafias divergentes a serem aplicadas no mundo da língua portuguesa? Quem tem medo do Estado de direito? Quem tem medo da aplicação da Lei? Quem tem a desvergonha de, num caso destes, evitar fazê-lo, sem um escrúpulo, sem um prurido de consciência, sem uma forma, ao menos esboçada, de se isentar de responsabilidades pela opção tomada? Que autoridade científica, jurídica oucultural assiste aos directores da edição para falarem, a p. 33 (vol. Cartas), numa “actualização linguística no quadro das normas vigentes do português”? Ou à dr.ª Aida Lemos para aí afirmar, a p. 35, que as grafias foram “normalizadas segunda a norma em vigor”? Se o tivessem sido, nuncapoderia ser aplicado o AO porque ele não constitui norma vigente...
Vieira e a sua obra incomparável saem desfigurados dessa irresponsabilidade de lesa-cultura que mancha indelevelmente um trabalho tão digno e de tão grande envergadura e que se fi ca a dever a tantos nomes importantes, em que sobressaem os dos directores da iniciativa, professores José Eduardo Franco e Pedro Calafate. Estive na sessão de apresentação pública e de lançamento desse projecto ainda não há muitas semanas e regozijei-me ex corde com ele, como português, como escritor, como cidadão com algumas responsabilidades na cultura. Confesso que nunca me ocorreu que as coisas iam ser assim.
E também não me passou pela cabeça que alguns problemas de revisão tornariam relativamente caricata a apresentação, sendo de esperar que outros não ocorram no texto do grande jesuíta. Aponto dois, ambos do Tomo I/Volume I: a pp. 27/28 escreve-se “apesar de Teófilo Braga (...) ter despeitado a qualidade literária dos textos oratórios de Vieira (...)”. Não me parece que o verbo “despeitar” como transitivo faça grande sentido nesta acepção.
Mas há pior: diz-se, a p. 25, que “os estudantes de Coimbra,     instigados pela Inquisição, o tinham queimado em esfinge na praça de universidade, como herege e inimigo da pátria”. Em esfinge??? Ora aproveitem lá a esfinge para mudar de revisor, guilhotinar estes três volumes inimigos da pátria e tratar da edição de Vieira como ela merece ser tratada.
Escritor

Ver, aqui, José Eduardo Agualusa, em 20 de Março, p. p.

O Acordo Ortográfico e a lusofonia
Renato Epifânio
20/03/2013 - 00:00
Há algo que assaz me incomoda em toda esta querela em torno do Acordo Ortográfico (AO): um certo sentimento antilusófono que emerge em alguns dos argumentos aduzidos, como se fosse possível confundir a questão (bem vasta) da lusofonia com esta questão do AO, questão bem específica, por mais fracturante que seja. Essa confusão, deliberada nalguns casos, involuntária noutros, encontro-a, devo dizê-lo, tanto nalguns apoiantes como nalguns detractores do AO: nos primeiros, quando fazem do AO uma questão, quando não "a questão", fundamental da lusofonia, como se não fosse possível defender a lusofonia sem apoiar o AO; nos segundos, quando, a respeito do AO, falam do "lusofonês" ou da "abrasileirização" da língua portuguesa.
Gostaria, pois, de começar por desfazer essa confusão: o AO não é a questão fundamental da lusofonia e é possível defender a lusofonia sem apoiar o AO. Conheço, de resto, várias pessoas que têm essa posição, desde logo no universo do MIL: Movimento Internacional Lusófono, a que presido. Numa sondagem que realizámos junto dos nossos aderentes, verificou-se que esta era mesmo, de longe, a questão mais fracturante - muitas delas defendem, sem qualquer reserva, o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço da lusofonia no plano cultura, social, económico e político, considerando que, para tal desiderato, o AO não é fundamental, sendo mesmo contraproducente.
Pela minha parte, defendendo em teoria os benefícios de um AO, devo reconhecer que este AO a que se chegou, após o longo e sinuoso processo negocial que escusado será aqui recordar, tem causado muitos danos à lusofonia que tanto defendo. Não vou aqui entrar na argumentação mais técnica - sendo certo que sou particularmente sensível, por formação (filosófica) à questão da filologia ("sem filologia não há filosofia"), não é menos certo que a língua portuguesa, antes deste AO, já estava, em muitos casos, longe da raiz filológica. Para mais, tenho, até por razões académicas, uma visão histórica da língua: leio frequentemente textos antigos e constato que a língua já mudou (muito) mais antes do que agora com este AO. Dito isto, não posso deixar de reconhecer que este AO tem recomendações que a mim me causam as maiores reservas.
Sem orgulho nisso, devo até confessar que, quando tenho de escrever segundo este AO uso o seguinte expediente: escrevo a primeira versão sem me preocupar com o assunto; na revisão, sempre que tenho de "corrigir" algum vocábulo, arranjo um sinónimo, nem que para isso tenha de alterar a construção frásica. É daqueles casos em que me sinto mais dividido. Racionalmente, considero que um AO seria benéfico - não apenas no interior do espaço lusófono (para o ensino da língua, desde logo), mas também para fora: na ONU, por exemplo, como noutros fóruns internacionais, os documentos para divulgar são, por regra, traduzidos para português e brasileiro, como se fossem duas línguas independentes. Seria a meu ver benéfico que isso deixasse de acontecer - mas o problema é que com este AO isso não fica devidamente resolvido, como se sabe (dada a profusão das duplas grafias).
Tudo seria mais fácil se a história fosse um jogo de computador, em que pudéssemos voltar atrás sempre que damos um passo em falso. Nesta questão, o grande passo em falso foi dado, como é sabido, por Portugal, em 1911, quando, unilateralmente, avançou para uma reforma ortográfica sem o acordo do Brasil. Já então "a língua não era só nossa, mas também nossa". De então para cá, essa fissura ortográfica foi-se alargando - a ponto de, actualmente, ser talvez impossível um AO aceitável para ambas as partes. Mas talvez fosse possível dar ainda um último passo nesse sentido: face a todas as hesitações, agora até do Brasil, deveríamos sentar-nos a uma mesa e, sem qualquer pressão mediática, repensar este AO desde a raiz. Sem recriminações nem preconceitos - a esse respeito, gostaria também de dizer que os defensores deste AO que conheço (falo apenas daqueles que conheço) são pessoas genuinamente bem-intencionadas - não os "vendidos a interesses comerciais" como, por vezes, são apresentados.
Estou, de resto, cada vez mais convencido de que, mesmo que este AO entre em vigor, mais cedo ou mais tarde ele terá de ser revisto. Talvez agora isso não seja possível, dado o impasse a que se chegou. Mas isso, fatalmente, irá acontecer. Nem que seja para, em última instância, reconhecer que nenhum AO será aceitável para ambas as partes. Não será por isso que a lusofonia morrerá. Como é cada vez mais reconhecido, o maior erro estratégico de Portugal nestas últimas décadas foi ter desprezado os laços com os restantes países e regiões do espaço lusófono - isso fragilizou-nos, em muito, no plano global e, em particular, no seio da União Europeia, onde estamos, cada vez mais, numa posição subalterna. O impasse em que agora estamos é, de resto, bem maior do que o impasse do AO. Não podemos sair do euro e, ficando no euro, pior cada vez mais estaremos. Sem ser uma panaceia, longe disso, a convergência lusófona é a via que, a médio-longo prazo, melhor garante o nosso futuro. Com ou sem AO.
Presidente do MIL - Movimento Internacional Lusófono. www.movimentolusofono.org