sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Dornes e Centro Geodésico de Portugal

No fim da visita, ao pôr-do-sol ( o vídeo está no final, a seguir à última imagem)

         Em 30 de Janeiro de 2023, uma excursão da Universidade Sénior de Torres Vedras — a AUTITV — deslocou-se em visita de estudo a Dornes e ao Centro Geodésico de Portugal, passando também por Vila de Rei (Museu do Fogo e da Resina). As inscrições estavam abertas aos alunos da disciplina de Oficina da Fotografia e a outros que quisessem participar.

Este pequeno vídeo quer honrar a importância do lugar, pela categoria do marco geodésico padrão e sua centralidade no país.

O giro que se procurou fazer (360 graus) é uma saudação a todo o continente português e ao ir dizendo adeus, com a mão erguida, imaginamos toda a terra que vemos e mais a que não vemos até às ilhas do Atlântico... Foram momentos de despedida. Fiquei com vontade de voltar e tocado pelo encanto simples de Dornes..., numa visita breve. Um vislumbre...

Um agradecimento aos professores António Lourenço Luís e Maria Rita Sarreira, das disciplinas de Oficina da Fotografia e História de Portugal, respectivamente, pela preparação da visita e a distribuição do habitual guião, desta vez intitulado de ROTEIRO FOTOGRÁFICO, com informações lembrando pontos básicos para «fazer» (ia dizer «tirar»!) uma colheita proveitosa de fotografias: a exposição, as regras de composição e sugestões. Muita coisa em «ão», mas é a língua que temos, e não deve ser por acaso que o órgão do sentimento se chama entre nós «coração». A parte histórica coube à Dr.ª Rita, cheia de ensinamentos úteis de história, lenda, arte e aspectos de vida social e política de quem nos precedeu até uns milhares de anos...

*

Começo a escrever, usando o teclado do computador, para filtrar um pouco a alma, sem a perder. A letra manuscrita tem qualquer coisa de pintura ou poesia, mas fique agora um pouco de lado. Poderá mais e poderá menos, neste caso, em que pretendo ser objectivo.

*

           — Vamos tomar um café a Dornes? — A Tormes?  A Doornes!

«Vamos tomar um café a Reguengos», disse um dia o Dr. Miranda ao meu irmão Manuel no final dos anos sessenta. Fiquei admirado, quando soube desta mudança do lugar diário de convívio no café Portugal, em Évora. Achei caro!? Compreendo, agora, melhor, como é importante tomar um café com alguém. O que se agiganta é a distância, o percurso em que somos envolvidos numa bolha, que desde o momento da partida se dilata e nos acompanha até à despedida no final do regresso. Já estamos no espírito do café à partida, junto à estação ferroviária de Torres Vedras, e só quando saímos do autocarro ao fim do dia a bolha se dissipa. Despedimo-nos, saímos do «café» e esperamos pelo próximo convite, daqui a um mês… O que digo de dois professores do liceu de Évora, um em começo de carreira e o outro perto de findá-la, veio-me à mente. Quem se admirou com o gesto imprevisto, «largo, liberal e moscovita»[i] do Dr. Miranda nos anos idos de sessenta, não se admiraria, hoje, conhecendo melhor quem foi o Dr. Alberto Miranda, e acha natural ir «tomar um café a Dornes», neste caso, o café propriamente dito, depois de almoço.

Lá fomos, cumprindo o programa: 07:30 – Torres Vedras → Dornes → Vila de Rei (Museu do Fogo e da Resina → Centro Geodésico de Portugal) – 20:30 – Torres Vedras.

A – Dornes; B – Museu do Fogo e da Resina; C – No Centro Geodésico de Portugal Continental

A – Em Dornes

Dornes foi de longe a parte mais interessante, para mim, pese embora não termos podido entrar na igreja de Nossa Senhora do Pranto, talvez por ser segunda-feira, dia em que os museus estão encerrados. Comecei por pensar que Dornes era a terra do engenheiro António Guterres, por onde já tinha andado em companhia de alguns companheiros de Torres, perto da aldeia de Nossa Senhora do Cabo, à beira da serra da Gardunha. Não, essa é Donas. Mas, foi um motivo de interesse… Brinquei, depois, com a etimologia, derivando Dornes de Dornas, pois às vezes, os povos gostam de dar um ar menos prático às coisas…E esta derivação antiga vem afirmada no sítio da Câmara Municipal de Ferreira de Zêzere, afinal… De «Dores» há quem goste para a origem do nome da povoação e uma lenda acolheu-o, associando-o a Nossa Senhora das Dores (do Pranto, da Piedade, Pietá). É lenda referida em documento antigo e ligada a Guilherme de Pavia, feitor da Rainha Santa Isabel. Vem recolhida no livro de Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas, vol. IV, pág. 75-79. Ed. Multilar. Lisboa, 1988.

A paisagem na envolvência de Dornes é cheia de montes, lembrando como as viagens nestes sítios deviam ser demoradas e sinuosas. A sensação de algum isolamento, de estarem distantes do litoral, de Coimbra, de Lisboa deve ter sido sentida para as pessoas daqui. Quase como um ninho de águia devia parecer Dornes, quando o rio Zêzere mais deixava ver as margens fundas e talhadas quase a pique…  Estavam, contudo, relativamente perto de Tomar, sede da Ordem dos Templários, a que estavam ligados, religiosa e civilmente, de que é testemunho a inscrição na pedra embutida na parede ao lado esquerdo da porta da fachada lateral sul. Os nomes de algumas ruas, e são poucas, felizmente não foram mudados, pois ajudam a ter a perspectiva do viver de séculos. Rua Guilherme de Pavia, Rua da Barca, Rua de Nossa Senhora do Pranto, Rua da Rainha Santa Isabel. Sem excluir a actualidade, pois o Padre Artur Mendonça das Neves é recordado em nome de rua e, ainda, junto a parede da igreja matriz em fonte que é um pequeno monumento e momento comemorativo; ostenta sobre secção de coluna placa de mármore, com homenagem ao sacerdote, na seguinte inscrição:

DOS PAROQUIANOS DE DORNES / COMO PROVA DE GRATIDÃO / NO DÉCIMO ANIVERSÁRIO DE PRESENÇA E SERVIÇO ENTRE / NÓS DO PÁROCO PADRE / ARTUR MENDONÇA DAS NEVES / DORNES 12 DE OUTUBRO 1968

Almoçámos na Associação de Melhoramentos, Cultura e Recreio de Dornes, tempo sempre especial de encontro.

Há um sinal moderno em casa da Travessa das Escadinhas, indicativo de alojamento local – AL. Esta travessa nasce na Rua Guilherme de Pavia, muito perto, também, da Rua da Barca, sinal de ter sido caminho para o local de atravessamento do Zêzere. Do lado de lá é distrito de Castelo Branco (já não há distritos, mas que os há, há…), Do lado de cá, Santarém. Em termos religiosos, pertence à diocese de Coimbra.

A Rua de Nossa Senhora do Pranto está nestes dias despojada de escola primária e de sede da Junta de Freguesia, localizada na Frazoeira, com a designação de Junta de Freguesia de Nossa Senhora do Pranto, criada por agregação das freguesias de Dornes e Paio Mendes, pela Lei n.º 11-A/2013, de 28 de Janeiro.

Dornes tem posto de Turismo.  Deixamos uma menção aos percursos de caminhada e às pequenas ilhas, nascidas com a subida das águas, devido à barragem do Castelo de Bode.

Está situada numa pequena península, comprida e estreita, como um bico de águia a ensaiar o voo sobre a albufeira do Zêzere.

 B – No Museu do Fogo e da Resina

Neste museu podemos observar em imagens e textos exemplos da importância do fogo, desde há cerca de 500 000 anos na vida do Homem, primeiro para cozinhar alimentos e, depois, para fins industriais, na cerâmica e na metalurgia… «[…] há cerca de 3 000 anos o povoado do Cerro do Castelo, na freguesia de Vila de Rei, foi destruído pelo fogo, levando a sua população a construir muralhas defensivas.» «Neste período, o fogo está também presente nas cerimónias de morte, atestado nos rituais de cremação.» Na relação com o fogo é lembrada «a importância da floresta e a arte tradicional da exploração da resina».

O Museu do Fogo e da Resina está instalado no edifício que foi da Delegação Escolar e dispõe de sala de exposições, pequeno auditório e loja de recordações (Segui nesta secção o Roteiro...)

C – No Centro Geodésico de Portugal

O Centro Geodésico de Portugal inclui no seu espaço o Museu da Geodésia, inaugurado em 2002, no âmbito de uma parceria entre o Instituto Geográfico Português e a Câmara Municipal de Vila de Rei. Ali se encontram painéis com imagens e textos esclarecedores do visitante. São-nos apresentadas a história dos antecedentes e primórdios da construção deste marco geodésico e a evolução científica que o tornou possível. O museu «reúne, entre outros instrumentos, o Nível de Precisão de Brito Limpo, a Luneta de Passagem Repsold ou o Cronógrafo Favag». **[ii] Conta, ainda, com bar e loja de recordações. Junto ao marco geodésico padrão TF4, em placas comemorativas e num dos lados da pirâmide (de primeira ordem), há informações relevantes.

Era preciso regressar e com quase toda a gente já nos seus lugares, foi-nos lançado um lembrete, um apelo a que se fizesse fotografias, aproveitando o pôr-do-sol. A montanha, com a sua aura sagrada e a luz privilegiada da hora, assim impunham. Um pequeno grupo de voluntários respondeu à chamada, dirigiu os passos na direcção do poente e, serenamente, em intimidade com a sua máquina, fez o que tinha a fazer, salvando a honra do numeroso grupo. 

Com paragem numa área de serviço, terminámos a jornada à hora prevista, junto à estação da CP - Torres Vedras.


[i]  Àlvaro de Campos, em OBRAS COMPLETAS DE FERNANDO PESSOA, II, POESIAS DE ÁLVARO DE CAMPOS, pp. 126-129. Lisboa, Edições Ática, s/d.

[ii] Consultei, também, o artigo de Célia Domingues, em e-cultura.pt/património…, intitulado «Museu da Geodésia».

P. S. - Ficou por ver, devido ao facto de o templo estar fechado, contrariamente ao que se tinha acordado, a igreja de Nossa Senhora do Pranto, que só por si justifica uma deslocação a Dornes. Entre outras coisas, pelos azulejos, oito imagens do século XVI, em pedra, de que se destaca a de Santa Catarina, e uma pintura sobre madeira, do último terço do século XVI, O Descanso na Fuga para o Egipto.

***
A - Em Dornes

1 - Situação geográfica de Dornes e Vila de Rei

2 - Em frente, a Rua de Nossa Senhora do Pranto

3

4

5

6


8

9

10

11

12 

13
Cruzeiro
Via Sacra, XIV estação
Jesus é sepultado 
Ao fundo, à direita, a capela de Santo António 
A procissão do Senhor dos Passos começa no Casal da Mata, onde está o primeiro cruzeiro, e segue pela estrada até Dornes, numa extensão de quatro quilómetros.

14

15

16 - (Do sítio da Junta de Freguesia, com a devida vénia)

17 - Fachada Principal

18
Esta igreja mandou fazer em louvor do Senhor Deus e da preciosa sua madre Virgem Maria o honrado cavaleiro frei Gonçalo de Sousa vedor do Sr. Infante dom Henrique e do seu conselho e seu alferes mor comendador desta comenda e alcaide mor de Tomar filho de Gonçalo Anes de Sousa a qual igreja se fez às suas próprias despesas por sua boa devoção sem a elo sendo obrigado : e por memória mandou aqui pôr : estas suas armas : Deus por sua mercê lhe dê galardão de sua benfeitoria Amen : era do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo 1453 :
(Respeita-se as palavras, com alguma actualização ortográfica)

19

20
Fachada lateral sul
Aqui jaz Simão Álvares
O «e» e o «s» na segunda linha, já fora do espaço central

21

22

23

24

25

26

27

28

29 

30 
Já cá chegou a moda do alojamento local, com esta unidade hoteleira, AL. Entrada pelas Escadinhas 
Pe. Artur Mendonça das Neves

31
Rua Guilherme de Pavia

32 - 5224 nítido claro
Via Sacra, XIII estação
Jesus é descido da cruz

33
Posto de Turismo

34

35

36


37
Rua da Rainha Santa Isabel

38
Neste cruzamento se encontram as ruas da Rainha Santa Isabel (em frente), a de Guilherme de Pavia (à esquerda), a de N.ª. Sr.ª do Pranto (à direita) e a da Barca (atrás do observador). Percorremos a Rua de Guilherme de Pavia atá ao Posto de Turismo.

39

40
À direita, a Rua da Barca

41

42
Um barco, em primeiro plano e «Mesmo à beira da margem, pequeno, em discretos traços de azul, está parado outro barco, com três traços transversais. São os assentos.» Ver a história do barco de três tábuas ou abrangel.

43

44
Ruína no lado montante da albufeira

45
O mesmo lado da albufeira

46
Lado jusante

47
Ao centro, a pequena península de Dornes (google maps)

48 - Vista da península de Dornes
(Com a devida vénia a vagamundos.pt)

Nomes das ruas

49 -  (do google )

50
Rua de Nossa Senhora do Pranto 

Os brasões de Dornes

51
Na placa toponímica da Rua de Nossa Senhora do Pranto

52
Três círios de azul, lira de azul, cruz da Ordem de Cristo...
No edifício onde funcionou a Junta de Freguesia de Dornes
A freguesia de Nossa Senhora do Pranto, com sede na Frazoeira, mantém os símbolos heráldicos das  de Dornes e de Paio Mendes, agregadas Pela Lei N.º 5/2013, de 12 de Dezembro. «A ordenação heráldica do brasão e da bandeira foi publicada no Diário da República, III Série, de 25 de Agosto de 1998 (Ver no sítio do município de Ferreira do Zêzere, «nossasenhoradopranto.pt...»)

 Acrescente-se, por estar em placa toponímica de Dornes, o brasão do município de Ferreira do Zêzere. (Ver, atrás, a imagem n.º 29)

53
Cruzes do Templo e de Cristo 

B - No Museu do Fogo e da Resina
Do Museu do Fogo e da Resina, em Vila de Rei, já algo dissemos atrás, mas não deixamos registo de imagens.
C - Centro Geodésico de Portugal
Restam-nos as imagens seguintes e o vídeo.

54 - 5230 rec 3.4

55 - 5229 rec livre

56 - 5246

57 - 5237

58 - 5239 rec.4

59 - 5245 rec nítido

60 - 5244 rec 3.4

61 - 5243 rec 3.4 nítido

62 - 5242 end clarear rec 3.4 nítido

63 - 5240

64 - 5241


Sobre a paisagem que daqui se avista, num giro de 360 graus, falámos no texto inicial. 

domingo, 11 de junho de 2023

A Água no Sudoeste Alentejano

Divulgo um texto de pessoa amiga, publicado sem os dois primeiros parágrafos no jornal SUDOESTE.

Revejo-me na atitude do autor, perante a natureza entendida de maneira larga. É assim que tenho olhado para o mundo que nos rodeia. Preocupado. Com uma nova colonização aqui no rectângulo, como chamamos, talvez carinhosamente, ao nosso país.

Queremos que seja um país...
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------

ÁGUA

Direi, antes de começar, que em 1981 fui um dos três cidadãos, com Jorge Fidalgo e José Pedro Simões, criadores da associação ambientalista SOSSUDOESTE. Iniciativa tímida que viria a soçobrar quando a pessoa que ficou à frente das actividades, passou a confraternizar com Thierry Roussel, mais os ministros de Cavaco Silva que aos fins de semana vinham banquetear-se com o dito empreendedor “inovador da agricultura nacional” (dixit Cavaco Silva) nesta zona agora desfigurada, e que pouco depois da criação da associação, ganhou o estatuto de PAISAGEM PROTEGIDA, mais tarde de PARQUE NATURAL.

Quero por acréscimo, enquanto praticante de uma agricultura familiar, que já em 1985 antes de se perspectivar a falta de água à escala actual, instalei uma rede de distribuição subterrânea com saídas estrategicamente localizadas, complementada com tubagem amovível acima do solo para que a água saísse exactamente junto das culturas a tratar, e, com a chegada da electricidade, a rega com aspersão e gota-a-gota.

 

1

Quando o projecto de Roussel faliu deixando os destroços pela área intervencionada, outros lhe tomaram o lugar aproveitando a brecha legal com que Cavaco Silva contradisse a decisão especializada do biólogo Luís Palma do PNSACV.

Testemunhamos a partir de então, o abate de coberto florestal para abrir espaços, e a práticas proibidas dezenas de anos antes na Alemanha, para esterilização dos solos com etanoato de sódio, destinada a eliminar os micro-organismos do ecossistema de base, beneficiando deste modo em exclusivo as monoculturas, com a agravante de, por saturação dos solos, se ter verificado escorrência para o mar com danos acentuados na flora e fauna costeira.

A região de entre Mira e Seixe, tonou-se cobiçada maioritariamente por estrangeiros. O argumento de que estes projectos iriam criar milhares de postos de trabalho esvaiu-se, quando os novos colonizadores descobriram que seria mais barato pagar a intermediários para traficarem gente do sueste asiático, seduzida pela propaganda do “eldorado” português; imigrantes que, como sempre aconteceu ao longo dos tempos, caíram nas malhas de indivíduos e organizações sem escrúpulos, muitas delas criadas na circunstância, e especializadas na exploração de quem mal consegue sobreviver. Grandes beneficiários deste esquema, os novos exploradores alijam responsabilidades que, com a maior paz de espírito, atribuem aos intermediários.

Assim, o que sobra do ganho de quem duplamente explorado aqui vem trabalhar, escoa-se para o outro lado do mundo.

 

2

Ouço argumentar, que ficam os impostos das empresas, os descontos para a Seg. Social e as receitas das vendas no estrangeiro.

Lembro a propósito, que uma grande empresa nacional do ramo dos hipermercados, transferiu a sua sede para a Holanda, devido aos impostos serem lá mais baixos. Temos cá colonizadores ingleses, americanos, chilenos, espanhóis, outros, e alguns portugueses. Creio que será ingenuidade admitir que essas empresas de quem escuso dizer os nomes porque não as conheço todas, tenham transferido as sedes fiscais para Portugal sabendo que aqui lhes espera o IRC português. Quanto ao produto das vendas de frutos vermelhos e outros, quase totalmente exportados para essa Europa, quem é que acredita que o dinheiro regressa ao território que possibilita tal riqueza, sabendo-se dos esquemas de transferências tão bem dominadas por especialistas ao serviço dessas internacionais?

Voltando à questão da água, lembro-me de ouvir há mais de quarenta anos, que modelos de previsão climática alertavam para a desertificação do sul de Portugal segundo um processo lento, mas irreversível, das alterações climáticas.

O sudoeste alentejano e o Algarve são desde que há memória, a parcela do território português com o menor índice de pluviosidade. A barragem de Santa Clara foi criada para atenuar essa tendência, considerando modelos de agricultura sustentável, e não as superproduções intensivas e mono culturais que pelo menos em alguns casos, à revelia de legislação protectora, iniciaram a destruição dos sistemas microbiológicos, que são a base de toda a vida e fertilidade dos solos.

Assistimos ao longo dos anos à descida implacável do nível das águas da barragem de Stª Clara, e lembremo-nos, de que as explorações intensivas são responsáveis por mais de oitenta por cento do consumo da água do Mira. Não se tratando já só, da destruição da paisagem considerada há quarenta anos como natural e biologicamente diversificada, essas explorações agrícolas apresentadas como modelo de poupança dos recursos hídricos, estão de facto 24 sobre 24 horas a escoar as reservas.

A água pode vir a acabar? “Depois logo se vê”. Mas atenção aos alheados, que este “logo se vê” está a chegar irreversivelmente, em proporções cada vez maiores.

Diz a experiência que, quando algo proporciona lucro fácil e rápido, mobiliza mimeticamente todos os que querem aproveitar a oportunidade. Quem chegar primeiro, tem sucesso assegurado. Ignoram, ou fingem ignorar, que o que compensa para cinco, leva cinquenta à ruína.

Acaso ignoram os responsáveis pelo ordenamento do território, e pelo Ambiente, a tragédia ambiental e brevemente a económica, que está a acontecer no Parque Doñana no sul da Andaluzia?

Que incapacidade é esta, de aprender com o erro mesmo quando se trata do de terceiros, para tomar as necessárias e urgentes medidas preventivas?

 

3

Tardiamente a ministra da agricultura emitiu uma portaria proibindo a implantação de novos equipamentos, excepto os já autorizados. No meu entendimento, também estes deveriam ser suspensos, cumprindo compensações legais, se tal forem devidas.

Fala-se agora, de considerar recursos alternativos para dispor de água, concretamente da abertura de furos. É do conhecimento geral, que muitos agricultores e floreiros se adiantaram ao processo administrativo furando clandestinamente. A propósito desta alternativa chamo à consciência, que a consequência imediata devido à redução dos lençóis freáticos, é a secura de poços, nascentes naturais e a morte de ribeiras, a que se associa a doença ou a morte de indivíduos que compõem a floresta, e que já se verifica. A água no subsolo é perfeitamente comparável ao sistema circulatório de todos os seres vivos. A extracção desenfreada desse sangue telúrico, pode comparar-se à sangria das sanguessugas, quando sugam o sangue dos animais que, sedentos, bebem a água estagnadas dos charcos. Alguém desejará uma terra exangue? Há décadas que os espanhóis construíram transvases com centenas de quilómetros.

Se entre nós, as cheias do Mondego ultrapassam a capacidade de contenção da barragem da Aguieira com ruinosas inundações, como são exemplo as de Coimbra até à Figueira da Foz, porque não a condução dos excessos dos rios de grandes caudais, para as regiões ao sul do Tejo?

Sem impedimento de que isso possa um dia ser concretizado, proponho que sem perda de tempo, se comecem a instalar centrais de dessalinização, pois ninguém duvida de que o oceano, aqui tão à nossa beira, é fonte inesgotável.

E não vale a pena perderem tempo e dinheiro a criar equipas para “estudar” o que já se faz muito significativamente em Israel (90% da água para o país), na nossa ilha de Porto Santo e brevemente no Algarve. Repliquem-se em série as existentes enquanto se melhora a tecnologia, e instalem-se ao longo da faixa costeira, tanto para a agricultura, como, por razões de proximidade, para as populações do litoral. Quanto à energia necessária para o seu funcionamento, não nos falta o sol para centrais fotovoltaicas. E se, antes das sedentas estufas e afins, a água disponível alimentava as necessidades de uma agricultura sustentável (leguminosas de sequeiro, fonte de proteína vegetal e outras que importamos, podendo produzi-las aqui), reservem-se as águas fluviais para uma agricultura sustentável recuperadora da biodiversidade.

Precisamos de racionalidade política que faça uma gestão duradoira da água tendo em atenção o futuro dos naturais e residentes do PNSACV.

Não cortem a água a quem nasceu e vive nesta terra e que precisa dela para viver, em vez de privilegiar quem chegou para colonizar enquanto der e em proveito próprio, aquilo que, até ver, conserva ainda o estatuto de Parque Natural.

Fernando Fonseca

Roma 16 ABR2023 11h40m

segunda-feira, 20 de março de 2023

Comendador Rui Nabeiro (1931-2023)

 RUI NABEIRO

Pequena homenagem ao Senhor Rui Nabeiro, ontem falecido.

Deixo aqui o resultado de uma visita em que tive a honra de estar presente no CEAN - Centro Educativo Alice Nabeiro. Foi a primeira vez que estive perto do Sr. Rui. A segunda, foi no Hospital da Luz, há poucos anos, de passagem, onde foi a uma consulta, indo eu e a minha irmã a acompanhar o nosso irmão. A terceira, em 30 de Maio do ano passado... Todavia, a ligação profunda do Manuel ao Sr. Rui e ao Sr. João Manuel, seu filho, sem esquecer a restante família, foi profunda e de há muitas décadas. A esta ligação estamos, fomos ficando profundamente associados, a Bia e eu.

https://aterraeagente.blogspot.com/2015/07/no-centro-educativo-alice-nabeiro.html


(Fotografia de 30 de Maio de 2022)
AO COMENDADOR RUI NABEIRO
A oferta do monumento vem dedicada com estas singelas palavras, na fita curva que forma a base aos pés do homenageado 

Sobre base de mármore pouco elevada, indicando ao mesmo tempo poder e proximidade, o homem olha e acolhe quem se aproxima pela Avenida da Liberdade. Atrás de si o obelisco, memorial de uma vida de trabalho, empreendedorismo, solidariedade social.