segunda-feira, 13 de maio de 2019

Doris Day

Éramos crianças. Nem sei se vi o filme com Doris Day. A minha irmã viu, com certeza, e fica-me, através dela e da alegria dos olhos dela a dizer de Doris Day, loira, bela, boa, irradiante, fica só um nome, uma imagem indefinida e sorridente que não quero substituir por nenhuma mais concreta.

Hoje, a notícia, de repente... Doris Day partiu.
Todavia, está dentro de nós. Outros nos verão partir. Nós estamos e connosco, iluminando-nos, loira, bela e boa, Doris Day.
Lembro o universo dos Gregos, que nunca me abandona:

Assim como a linhagem das folhas, assim é a dos homens.
Às folhas, atira-as o vento ao chão; mas a floresta no seu viço
faz nascer outras, quando sobrevem a estação da primavera:
assim nasce uma geração de homens; e outra deixa de existir.
       (Homero, Ilíada, Canto VI, 146-149, tradução de Frederico Lourenço)

*

sábado, 11 de maio de 2019

Ângelo de Sousa na Paços - Torres Vedras

10-05-2019
Nesta manhã de sexta-feira, como preâmbulo ao Encontro de História, Turres Veteras XXII, com início às 14 horas, entrei de manhã no edifício Paços do Concelho (antigo) e visitei a exposição a decorrer. O que segue é apenas uma aproximação. À primeira vista, sente-se uma certa rarefacção no espaço; todavia, o que nos interpela é exigente, a pedir segunda visita. Ademais, a Galeria Municipal de Torres Vedras é constituída por outras salas, em vários pisos, sem aviso prévio. O apreciador mais incauto pode sair sem ver toda uma exposição e deve ter sido o que me aconteceu, hoje, mais uma razão para voltar.
Curiosidade é o facto de Ângelo de Sousa pertencer ao grupo de jovens estudantes das Belas Artes do Porto conhecido por os Quatro Vintes*, devido à classificação com que concluíram os cursos, numa associação irónica, bem disposta, aos maços de tabaco da época, os Três Vintes.

* Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro e José Rodrigues 

Catálogo em papel couché, com 20 páginas, incluindo a capa e verso da capa, de 24 x 17 cm

Depois da entrada na sala do piso térreo, à direita
Esta exposição reúne obras de vários períodos da carreira de Ângelo de Sousa, as primeiras, «ainda figurativas mas apontando já para a depuração que viria a caracterizar o artista, lado a lado com os exercícios abstrato-geométricos - nomeadamente desenhos, telas e esculturas - que o impuseram como um dos maiores estudiosos da cor e da luz». [Do painel informativo, supra]

Sem título, 1966
«Esta vontade de simplificar também se traduz na ausência de títulos -- segundo o artista, intitular os seus trabalhos seria multiplicar artificialmente possibilidades de interpretação de uma obra que nunca ilustrou ou partiu de ideias, mas da pura vontade de fazer e pensar com as mãos -- desde logo de uma incansável vontade de desenhar (e de pensar desenhando).» [Do catálogo]

Vista parcial da galeria, a seguir ao átrio de entrada no edifício

Sem título, 1975
Tiras de aço inoxidável
200 x 400 x 200 cm

Página do catálogo, com a devida vénia
São elencadas trinta e duas obras em exposição e, não exposta, «Uma escultura (S. N. B. A.), 1972 / Filme Super 8 transferido para / DVD, cor, sem som, 12'12'' / Coleção privada»

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Agostinho da Silva, falta publicar

A partilha da semana
Para os interessados, uma coisa de interesse geral, tal é a importância crescente que para mim vem assumindo a obra que Agostinho da Silva nos deixou. Falo deste artigo de há uma semana, curiosamente de 25 de Abril, e que só agora encontrei.
As «Páginas Esquecidas», publicadas recentemente sob a organização de Helena Briosa e Mota, outras a salvar do esquecimento e a «estranha “conjugação cósmica” (ainda que de responsabilidade exclusivamente humana)» empurrando Agostinho para uma segunda morte. Escreve Renato Epifânio:

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Uma procissão no museu de Estremoz

Pode ver-se neste endereço uma obra de Mariano da Conceição (1903-1959), exposta de maneira pouco vulgar, muito bela. Deixado o Museu Municipal do Prof. Joaquim Vermelho, acompanhe o percurso até ao Rossio do Marquês de Pombal.


Sobre o Mestre Mariano da Conceição, ver, com a devida vénia, aqui.

sábado, 26 de janeiro de 2019

A estrada de Estremoz - Borba - Vila Viçosa


A partilha da semana ou do mês
Conheci a estrada, que voltei a percorrer várias vezes, no último ano, décadas depois... Estranhei muito a degradação dos muros e as colinas de blocos de memória não aproveitados...
De qualquer modo, a estrada já não é exactamente o que era, com as vias mais modernas que lhe estão perto. Atravessar Borba e seguir em frente, para Vila Viçosa, não era para todos, à primeira. A certa altura, estava-se perdido e tinha de se procurar o caminho.
Como é que não me veio à ideia? Não veio. A da reconstrução da ponte na antiga estrada de Estremoz a Vila Viçosa. Ponte, já era fisicamente a parte onde se deu o desastre. A maioria das pessoas é que não se apercebia, porque a vegetação não deixava perceber...
Reconstruir a estrada de Borba. Óbvio e incontornável — diz ele.
Veja, aqui, o artigo de Carlos Cupeto. Em otros mundos, com a devida vénia.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Ponte Nova de Santa Justa


Domingo, 20 de Janeiro
De passagem pela Ponte de Santa Justa, freguesia do Couço
Passei muita vez pela antiga, algo periclitante, que só permitia a passagem de viaturas num sentido, à vez. Sem muro ou parapeito de protecção, uns cabos simples serviam de defesa e aviso.
Está bonita... Pouco depois da confluência do Sor e do Raia.
À saída da ponte, cruzo-me a pé com um homem que ia a caminho de Santa Justa, os seus quarenta, cinquenta anos, saúdo com o braço esquerdo erguido e vou dizendo, e ele respondendo:
— Finalmente, temos uma ponte à maneira! 
— Custou, mas foi!...


Ainda na margem de Santa Justa

À direita 




Na direcção de Coruche

À esquerda


Do lado de Montargil, à esquerda, e de Mora, à direita, gritam um para o outro os rios, primeiro o de Montargil e logo o outro, em modo de apresentação: SOR! RAIA! Vão juntos, de tal maneira unidos que são um só, os nomes mesmo se juntam, querem dizê-lo e sai-lhes outro enquanto fluem, que é a sua maneira deles, de andar e correr. Num quase esquecimento do que foram sendo e ainda admirados do que estão a ser, ainda tentam dizer na mesma ordem, o de Montargil e o de Mora, SOR-RAIA, SOR-RAIA, mas sai-lhes diferente o som. São um e o nome, de alguém que os ouviu e foi passando a outros, é agora SORRAIA.


Do lado do Couço 

Depois de atravessar a ponte, fiquei de tal modo contente com a as obras de arte que a identificam, lhe dão o nome, que voltei a percorrer a ponte, até Santa Justa, como se fosse a primeira vez.
Quem foi Joaquim Casanova do Bêco? Um homem do povo, que fazia a travessia do rio, levando pessoas e pertences duma margem à outra, fincando no leito do rio a vara comprida, como a lança do Quixote? É o que ele nos lembra, aqui, na sua vida de aventura..., quando o rio não se podia passar a vau...



Cá está o cartaz de metal, a obra de arte, a ponte a anunciar-se a quem vem do lado de lá, como uma figura de convite.



P. S. Um pouco a descaso, pensando já depois de ter acabado esta mensagem, estranha-se que, fora da represa, o rio esteja tão seco..., nesta altura do ano.