quinta-feira, 25 de abril de 2013


Notícia no CM, primeira página
ISALTINO MORAIS DIRIGE CÂMARA NA CADEIA
·                 Autarca foi preso pela Judiciária quando saía da autarquia para almoçar
·                 Perda de mandato autárquico só com faltas injustificadas
              Págs. 8 e 9
*
       Estamos a ficar encadeados, também fora das prisões, por falta de informação sobre a actividade político-jurídico-financeira geral. Não sabíamos da missa, a metade? Não sabíamos (nem sabemos) da missa uns 120%, o que quer dizer a missa toda e mais alguma coisa, porque além de não sabermos NADA = ignorando TUDO, ainda descobrimos sempre mundos novos, assim como buracos negros, numa espécie de universo em expansão.
       Encadeados e encandeados (ofuscados) pelo brilho do aparelho garantístico da nossa justiça. Expedientes, incidentes, medidas cautelares, recursos recorrentes… A justiça funciona muito timidamente, anémica. O sistema legal está viciado na garantia de não dar verdadeiramente garantias à maior parte da população. Está roubado, endrominado. Apesar de tudo, dá sinais. As duas justiças…

Calcinha Preta
Hoje, num cafezito. Não está lá a gente do costume. Dois jovens, um rapaz e uma rapariga estão na esplanada e, na pequena sala, ninguém e o som muito alto, para eles — que estão a tomar conta — ouvirem bem. O rapaz vem atender-me e acobardo-me de pedir para baixar o som. Pensei que eu é que estaria deslocado, ali. Estive pouco tempo e saí, mas, entretanto, pergunto:
— Quem é que está a cantar?
— Não sei.
Foi lá fora e voltou:
— Calcinha Preta.
— Mas é a rapariga que está a cantar, ou é o grupo?
— É o grupo.

sábado, 20 de abril de 2013

     Sintra

     Terra de encanto.
Quem vai de Torres Vedras, pela Coutada, Ericeira, à beira-mar, é a nossa marginal, Sintra afinal aqui tão perto...; ontem fui lá. Pelo caminho, aldeias, nomes que me dizem muito e eu, satisfeitíssimo de o tempo os não ter apagado e nomes de santos e santas. Descubro, em mim, que, por mais não seja, um cristianismo se deixou ficar por inércia e ainda demora. Nossa Senhora do Ó. À esquerda, junto à estrada, que sobe, a igreja. Lá longe, o convento de Mafra na grande massa clara. A sua vista vai-nos acompanhar algum tempo. Ao seu lado ou um pouco para lá dele, uma muito pequena nota dissonante, sem lhe tirar a presença majestosa e espiritual. Um gerador eólico.
     Numa aldeia, com Sintra à vista, páro e pergunto como se vai para lá a umas pessoas sentadas a jogar às cartas e outras a ver. O vidro do lado direito, aberto, pergunto outra vez, desligo o motor do carro. Até que um homem de idade (como eu), «ninguém responde ao homem?», lá pergunto claro e diz-me: -- É sempre em frente. -- Por uns momentos, fui um marciano... Obrigado, senhor; obrigado, amigo. A humanidade ficou redimida.
     O meu objectivo era a Casa do Fauno, a seguir à Quinta da Regaleira. Perto do Turismo, mete-se em frente, passa-se pelo Lawrence's e a uns dois ou três quilómetros, a Quinta da Regaleira. Continua-se na faixa preta de alcatrão, apertado entre grossos muros das quintas, com a patine cinzenta. É a descer e há curvas. Sente-se o verde, o arvoredo, uma espécie de exílio, de paz. A Casa do Fauno. Portão de ferro, gradeado, aberto. Tem de se deixar o carro fora, bem encostado ao muro. Na sala, onde estive algum tempo, música celta ou de influência celta; depois, outra música, mas agradável e repousante.

     Viagens na nossa terra. Há, no entanto, outra pequena nota dissonante. Antes de entrar em Sintra, vê-se o espaçoso Palácio da Justiça ou Campus da Justiça, a exibir-se-nos de maneira desmedida para o restante enquadramento do lugar. Não seria possível tê-lo ocultado parcialmente, com colinas?
*
     Dito isto, encontro-me, à noite, com uma impressão de Sintra, do livro de Vergílio Ferreira, Diário Inédito, que vou lendo, por estes dias. Contrasta com a que acabo de dar. Vamos ver.

Ano de 1948





A Casa do Fauno
     Ver, aqui.
     Estou a ler

     Afonso Cruz
     Os livros que devoraram o meu pai. -- A estanha e mágica história de           
        Vivaldo Bonfim
Peguei no livro, folheei, li umas frases, gostei. Vamos supor que isto é literatura infantil. Desta, gosto. Mas queria dizer, antes, literatura para crianças sem a diminuição de infantil, como às vezes parece andar muita por aí. Digo «parece», porque a bem dizer conheço pouco. Não sou do continente, por enquanto; moro ainda numa ilha, onde já entra Aquilino e um ou outro mais. (Não contam para esta história os romances e contos tradicionais.)
     Diria que Afonso Cruz está a ver as coisas com os meus olhos. Esta migração leve de um mundo a outro é tão natural...
     Os livros que devoraram o meu pai é para todas as idades. Para as crianças que são e para as crianças que somos.
     No sótão («estava tudo cheio de letras»), de repente é tudo gente. Tudo são pessoas: o pó, os livros...

     DA CONTRACAPA: «Vivaldo Bonfim é um escriturário entediado que leva romances e novelas para a repartição de finanças onde está empregado. Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo.
     Esta é a sua verdadeira história -- contada na primeira pessoa pelo filho, Elias Bonfim, que irá, qual Telémaco, à procura do seu pai, percorrendo clássicos da literatura cheios de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras.»



     Só o primeiro capítulo, para se ter uma ideia:



     É mesmo um livro para crianças. O autor recebeu o Prémio Literário Maria Rosa Colaço, distinta professora do ensino primário, como então se dizia, formada na Escola do Magistério Primário de Évora e, logo nessa época, além de actividade cultural, no âmbito daquele estabelecimento de ensino, colaborava no suplemento literário DOM QUIXOTE, do Jornal de Évora.
     Este livro é da Editorial Caminho e dedicado aos filhos do autor.
*
    Lê-se depressa e as letras são de tipo grande. Vou continuar a ler.
   
     Guilherme de Oliveira Martins
     Seriedade, competência, cultura

Aqui está um digno representante do seu antepassado, Joaquim Pedro.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

     Como é possível?
     A água faz das suas no Museu do Prado

     Como é possível uma coisa destas acontecer? É preciso haver responsabilização, incluindo dos arquitectos e outros técnicos, até ao nível mais alto. E já não é a primeira vez. Eu, que saio pouco daqui, tive o grato prazer de já ter visitado o Museu do Prado.  Pertence-nos. Alimenta-nos.
     É preciso ter cuidado com as pessoas, pois ficamos todos diminuídos com isto.

quarta-feira, 17 de abril de 2013


       Nós, aqui e agora
Portugal, 17 de Abril de 2013
       Alguns artigos, de hoje ou destes dias, podem encontrar-se nesta página. Têm a palavra Manuel Clemente, Adriano Moreira, Viriato Soromenho Marques, Vasco Graça-Moura, Henrique Monteiro, Daniel Oliveira. Várias maneiras e posturas, na resposta ao que «o tempo pede». A agricultura vai dar pouco? Dará, mas como pode não se ter? É urgente o regresso a ela. A democracia é boa? Defendamo-la, no respeito pelos outros, com tolerância.
Ver os artigos,aquiaquiaquiaquiaqui e aqui.

Pagamos ou não a dívida?
       As dívidas são para pagar, tentar pagar… Podemos, é claro, ser obrigados a não conseguir pagar. Chegámos à situação de sacudir o fardo? Bom é de dizer, mas as consequências são grandes e pesadas. Valeria, mesmo assim, a pena? A mim, pessoalmente, desagradou-me muito ouvir dizer José Sócrates que as dívidas «gerem-se, não se pagam». E não compreendo Mário Soares, quando diz, mais curto, «não se pagam».
A seguir, a Visão de algumas pessoas sobre este tema.

Revisão nos programas de Matemática
       A actual presidente da Associação dos Professores de Matemática, bem como a anterior, criticam asperamente o ministro Nuno Crato sobre este assunto. No Forum CM, opina-se sobre alterações ao ensino da Matemática. A educação é fundamental.

terça-feira, 16 de abril de 2013

    
Jornais dos anos 20, em Torres

Jornal  A RECONSTITUIÇÃO
(Semanário, do n.º 1 ao 24 — 1922-23)

— Que raio de nome! — digo eu, antes de abrir esta colecção encadernada de jornais. Entre três jornais, à escolha, abrigados nas suas encadernações, escolho este, pela bizarria do nome, amplamente justificada, pelo cabeçalho, que agora admiro.

ASSINATURAS (Pagamento adian-
  tado): Ano, 5$00 – Semestre,
  7$50 – Numero avulso, $10
  Centavos (100 réis).
ANUNCIOS e Comunicados na 1.ª
E 2.ª paginas, preços conven-
Cionais; na 3.ª e 4-ª, cada
Linha ou espaço de corpo 8, $20
Os autógrafos, publicados ou não,
     Não se restituem.
A  RECONSTITUIÇÃO

ANO I — N.º I                                                 Torres Vedras, 16 de Julho de 1922
ORGÃO LOCAL DO PARTIDO REPUBLICANO RECONSTITUINTE, DIRIGIDO PELA COMISSÃO  MUNICIPAL
                         Composto e impresso na Tip. e Pap. da S. Progresso Industrial – Torres Vedras  Editor: José Vieira Propriedade da Empresa “A RECONSTITUIÇÃO”

Logo na primeira página, o meu amigo Moura-Guedes. E digo isto, pelo convívio que tive com ele, na leitura de A NOSSA TERRA, que tenciono retomar. Bem à vista, na habitual SECÇÃO LITERÁRIA (poesia, uma sede que nunca acaba), o soneto «SOMBRAS». A assinatura é bem visível nas letras maiúsculas: MOURA GUEDES. Sombras ao meio dia, mão invisível, a pobreza e a velhice desamparada.

SOMBRAS

                                            Sôbre a poeira ardente dos caminhos,
                                                                   Ao cálido fulgor dum sol a prumo,
                                                      Passam errantes – como naus sem rumo
                                                      No grande mar da vida – os pobrezinhos.


                                             Sobem dos lares espirais de fumo…
                                                       E eles passam, lembrando velhos ninhos
                                                       Onde houve pão, talvez, em alvos linhos
                                                                     E houve dos cachos o divino sumo.


                                            Ardem ao sol as pálpebras vencidas,
                                                      Onde secaram lágrimas perdidas
                                                      Que ninguém viu, nem enxugou ninguém.


              E as alvas barbas brancas dos velhinhos vão
                                                      Como farrapos que invisível mão
                                                                    Parece ir atirando para àlém.»
                                                                                              MOURA GUEDES.

Este reencontro com Moura-Guedes é em cheio: logo na página dois, uma carta aberta ao Sr. Alberto Vieira da Mota (duas colunas inteiras, toda a página três e toda a quatro). Assina: Justino Freire de Moura Guedes. A assinatura por extenso é intencional e percebe-se, pela leitura do texto.

*
Títulos da primeira página:

RECONSTITUIÇÃO (editorial, duas colunas); Telegrama; A PROPÓSITO (artigo de opinião); SECÇÃO LITERÁRIA; “SECÇÃO LITERÁRIA”; Uma festa d’Arte; A RECONSTITUIÇÃO vende-se na Papelaria da Sociedade Progresso Industrial …      … .
     
RECONSTITUIÇÃO — O antecessor de A RECONSTITUIÇÃO é o Ecos de Torres, de que não se repudia, na generalidade, a obra, mas com maior serenidade e ponderação. «Queremos a luta sã de ideias, e pugnaremos sempre, sem desfalecimentos, por tudo o que representar aspirações generosas de verdadeiros republicanos.» «Queremos reconstruir e, humildes obreiros de uma obra imensa, esperamos de todos os homens bons do nosso Concelho, de todos os que aspiram à felicidade do nosso Povo, que os auxiliem com o seu leal esforço e nos encaminhem com os seus conselhos de protecção.»

Telegrama — ao dr. Álvaro de Castro, líder do PRR, pelo restabelecimento dos exames do 2.º grau de instrução.

A PROPÓSITO… — F. d’Alma defende os rapazes novos contra o que disse uma sumidade jornalística: «somos os novos que se não deixam corromper, os novos que reagem sempre com energia contra os assaltos traiçoeiros dum falso republicanismo interesseiro que pretende subjugar-nos para assim conseguir os seus fins perversos e jesuíticos.»

SECÇÃO LITERÁRIA — o soneto SOMBRAS

“SECÇÃO LITERÁRIA” — Anunciado novo colaborador, que tratará com delicadeza o espírito e o coração femininos: Dom Sol, de quem se defende o anonimato. Colaborou logo no número seguinte do jornal.

Uma festa d’Arte — no Hotel Natividade, a já tradicional audição das alunas da distinta professora de música ex.ma sr.ª D. Maria de Jesus Ferreira dos Santos Gonçalves. Pena que estas sessões sejam tão espaçadas. Seguiu-se um animado baile.
     
Em CARTA ABERTA AO SR. ALBERTO VIEIRA DA MOTA, Justino Freire de Moura Guedes, defende-se galhardamente do sr. Alberto Vieira da Mota, «contador da comarca de Alemquer e político profissional em Torres Vedras». O motivo, o desfalque da tesouraria das Finanças, aproveitado por AVM, como arma política. A peça, pela sua argumentação e desenvolvimento, é importante. Falta conhecer os panfletos anteriores de Moura Guedes, então com 24 anos, e o que escreveu o seu adversário.
*
Observações marginais
Na colecção ECOS DE TORRRES — Ano III, n.º 102 – 1921, registo manuscrito, à margem da mancha impressa (uma das vezes sobre etiqueta colada): Sr. Victor; Ex.mo Sr. Victor Fonseca. Na primeira folha de guarda, lê-se:
Oferece à Biblioteca Municipal de Torres Vedras
Em 20/XI/935
Victor Cesário da Fonseca
Selecciono o anúncio seguinte, que aparece nas várias edições deste semanário, pela sua relação também com o avô do anunciante. A partir de certa altura, o anúncio muda um pouco os seus dizeres:
                                                                      Moura Guedes
             Advogado
             Junto à casa do
             sr. dr. Freire

              Moura Guedes
             Advogado
              Em casa do
              sr. dr. Freire

segunda-feira, 15 de abril de 2013

     Vergílio Ferreira

     Tive sempre grande admiração por Vergílio Ferreira e conheci-o logo, se a memória não me falha, quando no verão de 1957 assisti a provas orais dos exames de admissão ao liceu. Numa delas, a Português,   Vergílio deteve-se um pouco sobre um «que». Nada de desproporcionado, mas até hoje recordo a finura breve. Vim a apanhá-lo, numa vigilância à prova escrita de Grego e em duas provas orais que tive de fazer, como aluno externo, no Liceu de Camões. No Liceu Camões. A Português foi arguente e a Latim fazia parte do júri. Tinha uma maneira directa de nos pôr à vontade. Aquele pouco tempo de vivência escolar no Camões valeu como se tivesse sido discípulo dele em dois anos inteiros. Não é a mesma coisa, mas queria que fosse. A admiração já vinha do tempo do Liceu de Évora, também ajudada pelo que ia sabendo do ambiente escolar; da figura de intelectual dele, mais pelo meu irmão, e do que a minha irmã me contava da convivência nas aulas dela e das colegas com «a Regina», que era professora de Desenho. E, aí, as miúdas chegavam a saber qualquer coisa da vida deles, como seres normais que eram,  se ela vinha bem ou mal disposta, se e porque...
      Falta-me ler muito dele, romance e ensaio. Eis uma boa coisa que tenho de fazer, com todo o gosto, porque a amizade à pessoa, que não me conhece -- vamos supor que está vivo --, mantém-se.
        Hoje, temos continuação da apresentação do Diário Inédito.

Diário que Vergílio Ferreira
escreveu para Regina Kasprzykowski

19 de Julho de 1944

     Minha Gina: vou hoje começar um diário para ti. Já mais de uma vez tentei escrever um diário, mas fatalmente, ao fim de duas ou três sessões, sentia-me fatigado. A razão vinha de eu pensar em publicá-lo o que o tornava artificial e estreito. Assim, visto que o diário é só para ti, não vou seleccionar o que hei-de dizer-te nem preocupar-me demasiado com literatices.  Não quero porém que ele fique chato, vazio de interesse, tanto mais que desejo aproveitá-lo como treino para as outras empresas literárias.
     Tu sabes que um diário é sempre falso. Nós somos quase sempre falsos até mesmo quando pensamos, porque o pensar é já o desnudar-se de uma pessoa perante si mesma. Vê tu, por exemplo: não nos desculpamos a nós próprios dos nossos defeitos? Sabemos bem que os defeitos existem, são bem reais, puseram a marca viva de um ferro em brasa. E no entanto procuramos intrujar-nos. Como hei-de eu ser verdadeiro, inteiramente verdadeiro no que escrevo? Em todo o caso eu vou esforçar-me por te dizer a maior parte do que sinto, visto ser impossível dizer-te tudo. E quando outra coisa não consiga, ao menos obrigo-me a reflectir sobre o que à minha roda e dentro de mim se vai passando. Será isso um meio de combater a exterioridade que é, como sabes, a marca do inútil e do Sancho Pança.
                                                                                                             (Diário ..., os dois 1.ºs &&)



domingo, 14 de abril de 2013

A Noite Sangrenta 2
 Fui à procura da carta-prefácio de Raul Brandão, em suporte digital, e encontrei textos, além do próprio Raul Brandão, de António Sérgio, Jaime Cortesão, Raul Proença e Raul Rego. Mais haverá, mas chega e sobra para fazer uma ideia bastante precisa. Com a devida vénia aos autores e proprietários de blogues e sítios.

http://arepublicano.blogspot.pt/2009/10/noite-sangrenta-19-de-novembro-de-1921.HTML

http://republica-sba.webnode.com.pt/products/depois-veio-a-noite-infame/

http://www.centenariodarepublica.org/centenario/2008/12/02/a-noite-sangrenta-i/

http://www.centenariodarepublica.org/centenario/2008/12/02/a-noite-sangrenta-ii/

http://www.wook.pt/ficha/a-noite-sangrenta/a/id/100998

Nota: Como o primeiro endereço, acima, não abre a partir deste blogue, resolvi aqui pôr o documento, expurgado dos comentários.


SEGUNDA-FEIRA, 19 DE OUTUBRO DE 2009


A NOITE SANGRENTA – 19 DE OUTUBRO DE 1921



"Depois veio a noite infame [19 de Outubro de 1921], onde, além dos actores visíveis, dos marinheiros e dos soldados, dos bonifrates que actuaram entre gritos de loucura, entrou outro actor tremendo, do qual não pudemos mais desviar os olhos – e que não devia fazer parte da peça. De tarde, aquele desgraçado [António Granjo] via os homens porem-lhe cerco como a um bicho e o seu suor era já de agonia. Via-os aproximarem-se – ouvia-os falar na escada do prédio onde se refugiara 

[António Granjo residia na Rua João Crisóstomo e a sua casa confinava, pelas traseiras, com a morada de Cunha Leal, na Av. Miguel Bombarda, para ondeGranjo procurou abrigo, avisado do perigo que corria por um vizinho e seu Irmão da maçonaria, Bernardino Simões, comerciante – consultar, Rocha Martins, “Vermelhos, Brancos e Azuis”, vol.2].

Veio depois a noite e eu tenho a impressão nítida de que a mesma figura de ódio – o mesmo fantasma para o qual todos concorremos – passou nas ruas e apagou todos os candeeiros. Os seres medíocres desapareceram na treva - os bonifrates desapareceram: só ficaram bonecos monstruosos, com aspectos imprevistos de loucura e de sonho, que na camioneta fantasma[nome como foi conhecida a camioneta, que transportava os assassinos (10?) que levaram a cabo os crimes perpetuados nesse dia. Entre eles estavam,Benjamim Pereira, Manuel José Carlos e Abel Olímpio (o Dente de Ouro). Pelo que é referido por Berta Maia, viúva de Carlos da Maia (um dos assassinados) a camioneta foi fornecida pelo tenente Mergulhão] procuravam as suas vítimas. Noite de chumbo. No quarto andar da Rua da Madalena, a sombra esmagava-me o coração, reduzindo-o a cisco. Na taberna em frente a mesma música reles de todas as noites não cessava de tocar num realejo a que um galego dava corda ... E a noite prolonga-se, sórdida e satânica.

A essa hora o desgraçado consumia a sua agonia no Arsenal, entre rugidos das bestas desencadeadas. – Sangrem-no como a um porco!

Outro [Carlos da Maia] é arrancado dos braços da mulher, que grita inutilmente, cheia de dor, pedindo piedade para o marido e o filho que tem nos braços. E a camioneta, onde os bonecos se agitam, percorre as ruas negras, alucinante e trágica. – Almirante [Machado dos Santos], é a sua hora: vai ser fuzilado! – E a voz daquele ingénuo, que quis ser político, jornalista e revolucionário e vai ser, de encontro a uma parede, um farrapo humano a escorrer sangue por todas as feridas, responde: Veja – diz ele para o bandido que lhe fala – que as minhas pulsações não aumentaram. (...)

Se todos nos quiséssemos ouvir, encontraríamos, talvez, dentro da nossa alma, a explicação da noite infame e compreenderíamos por que ela foi possível. Ódio, terror e o desconhecido. Andaram também metidos nisso políticos e, ao que se diz, até um padre 

[referência, presume-se, ao Padre Lima (natural de Estivares), e que juntamente com Fernando de Sousa, ambos do jornal A Voz, mais o tenenteMergulhão, Gastão de Matos, Luiz Moutinho de Carvalho, Carlos Pereirae o Conde de Tarouca, foram considerados, na época, como os principais mandantes dos assassinatos em cadeia – vidé, Berta Maia, As Minhas Entrevistas com Abel Olímpio ‘O Dente de Ouro’, Lisboa, 1929]

– nas ruas são as personagens insignificantes que entram em todas as tragédias. Quem os mandou matar? – porque estas coisas nunca são espontâneas. (...) 

Raul Proença, in Memórias, vol. III

J.M.M.