terça-feira, 20 de maio de 2014

De Helsínquia para o Aeroporto, 2

A gare da linha vermelha – Saldanha – é, entre todas, de alto nível. Começámos por esta, mas a ordem lógica de leitura, até uma ordem histórica, deve começar por Saldanha – linha amarela. É mais tranquila, de uma beleza mais sossegada, uma interpretação do mundo com a cor e poesia do mito. A zona intermédia, de passagem de uma «sala» à outra parece encaminhar-nos para as estações a caminho do Oriente e do Aeroporto, com as figurações em mármore rosa de Borba – rosto, mão direita, mão esquerda. Curiosamente, as figuras de convite apresentam-se na mesma posição, quer se venha de uma «sala», quer se venha da outra: de frente para o passante, o que não daria a nenhuma das gares prevalência sobre a outra. O mesmo se diga das figurações em mármore de Borba?

— O plano superior comanda o inferior — alvitra a minha interlocutora.

     Para quem entra e sai das carruagens na gare da linha vermelha, houve o cuidado de oferecer recepção condigna. As pessoas são vistas como convidadas. Nada foi esquecido para humanizar o ambiente. Frases que nos lembram as dos sete sábios gregos da antiguidade, desenhos, quadros com figuras geométricas. Nalguns corredores e átrios, nas paredes laterais e no tecto, mosaicos a preto formam linhas sobre fundo branco, continuando com leveza a arte da gare.

     À primeira vista, a frase «Entrei numa livraria...» pareceu-me de Pessoa. É o espírito de Pessoa. Num dos desenhos, vemos duas pessoas lendo; uma delas, a revista Orpheu 2. Pessoa e Almada. É a osmose dos génios, é o espírito comum do grupo de Orpheu, mas as frases, vai-se descobrindo, são todas de Almada. 

     Parece que ninguém repara, mas, mesmo os aparentemente mais desatentos sentiriam uma grande falta se uma bela manhã tudo ficasse nu e cru. Aos poucos, hoje um bocadinho, amanhã, outro tanto, as pessoas vão lendo; os velhos, os jovens. As frases interpelam, fazem pensar. Não agridem, conversam. Algumas, difíceis, como

Ser autor é trazer-nos inédito o que ainda pertence ao conhecimento geral.

Esta é profundamente socrática:

O difícil não é chegar aos grandes, mas a si-próprio!


Almada e Pessoa. À medida que os anos passam, o seu vulto vai-se agigantando.


Acabei por subir as escadas, no sentido que vai para o Oriente e Aeroporto, à esquerda um painel de 47-49,  e fui saindo. Saindo, saindo, e já quase a deixar as instalações, olhei para trás, levado pelo mesmo impulso da mulher de Lot. Nada esperava ver. E foi uma admiração. Vereis, no fim.

                                                                                 As frases, desenhos e quadros
                                                  (Respeitou-se o texto, até em eventuais erros.)

(Lado para S. Sebastião.)
Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida.    Não chegam, não duro nem para metade da livraria. 
[Não duro nem para…                                                                                     

          O desenho é o nosso
          entendimento
          a fixar o instante.]

Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.      O homem-comum é o único que interessa, os outros são por ele.

[Deve certamente haver outras  (…),  senão estou perdido.          O homem-comum  (…), os outros são por ele.

           A geometria é a                          O cânone não é  (1)           A perfeição contém  (2)                 Ter a dúvida é          
           medição da natureza                  obra do homem                  e corrige                                           saber exactamente   
           com o entendimento                  é a captação                        a exactidão.                                      o que estou a dizer. 
           humano.                                       que o homem pode                                                                                           
                                                                 da imanência.]

Ser autor é trazer-nos inédito o que ainda pertence ao conhecimento geral.      As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca se acabam

[Ser autor é trazer-nos inédito o que ainda …
                      Os olhos da nossa
                      memória vêem melhor
                      do que os nossos.]

(1)  À direita de «O cânone não é…»,  geometrismo e legenda: 3 Quadrante; engomadeira.
(2) À esquerda de «A perfeição contém…», Rosto de perfil, grafismo  e legenda: 2  A porta da harmonia

(Lado para o Aeroporto.)
Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade

                                                                                                                                                                           Belo não é o gosto
                                                                                                                                                                                                                          pessoal, é todos os
                                                                                                                                                                                                                         “gostos pessoais”

Uma época não é apenas uma questão de tempo mas essencialmente um sentido do novo no eterno

                             Arte não é                                                                                             Pintar é falar  (3)
                             uma opinião,                                                                                         consigo mesmo
                             é um conhecimento.                                                                             para que alguém
                                                                                                                                             nos entenda. (4)

Há sistemas para todas as coisas que nos ajudam a saber amar. Só não há sistemas para saber amar                 Tudo quanto ficar escrito não terá absolutamente nada de científico. Será exactamente nem científico nem falso, ao mesmo tempo.


[Há sistemas para todas as coisas que nos ajudam (…) amar. Só não há sistemas para saber amar            Tudo quanto ficar

A língua é a maior                                                                 O idioma é a  (4)                                           Os olhos são para
fortuna de um povo.                                                              instrução dum povo.                                      ver e o que
                                                                                                 A arte                                                             os olhos vêem só
                                                                                                 a sua educação.                                             o desenho o sabe.]

(3)  À direita de «Pintar é falar…», esquematismo,  com a legenda: 4 Relação 9/10. Mais à direita, desenho: à mesa, lendo.
(4) À esquerda de «O idioma é a…»,  a legenda 1 O ponto da bahütte


Átrio. No piso, inferior, a linha vermelha.

No mesmo átrio. As figuras parece estarem em movimento de rotação, sendo a da direita algo dissonante. Estão paradas, mas o todo gira.




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     Do lado da gare sentido S. Sebastião

















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     Do lado da gare sentido aeroporto











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Por este sentido se vai ao Aeroporto

Saída para o Arco do Cego


Saída para o Arco do Cego, da outra plataforma













Mais escadas

Já se vê o clarão da saída, mas ainda há que subir

Virei-me para trás



Mais uma estação Saldanha


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Consultável na internet:

TURRES VETERAS XVII

TURRES VETERAS XVII: ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA
Ceuta e a expansão portuguesa
16 e 17 de Maio de 2014

Este foi, de todos os encontros TURRES VETERAS, o de que mais gostei, certamente por estarem muito presentes as crónicas medievais, sendo referidos, além do autor da Crónica da Tomada de Ceuta — Gomes Eanes de Zurara —, Fernão Lopes e Froissart. É bom ler Zurara, nesta crónica, continuação da de Fernão Lopes sobre D. João I , de que constitui a terceira parte. Há ali grande manancial para conhecer a linguagem e a mentalidade da época. Este encontro é um bom estímulo para o fazermos.
Destaco dois momentos altos, embora de teor diferente, e sem embargo da qualidade de todas as outras comunicações:
1 — A intervenção de João Abel da Fonseca correspondeu ao que Carlos Guardado da Silva dele disse: grande capacidade retórica. Os seus muitos conhecimentos, que uma pronta memória disponibiliza com grande prontidão, são servidos por uma figura poderosa, voz que enche o auditório, empolgando os ouvintes. Transporta-nos aos lugares, faz-nos compreender a geoestratégia, dá exemplos; vemos as situações concretas, servidas por termos coloquiais; levanta o véu para práticas que não vêm escritas no discurso mais ou menos oficial. O cronista é funcionário régio e a obra dele resulta de uma encomenda. Devemos ler nela o que lá está e o que lá não está.
2 — A intervenção de Maria Manuela Catarino foi um momento muito belo, literariamente. Imaginou a entrada da comitiva régia na, então, vila de Torres Vedras e a sua movimentação pelo lado norte e pelo lado sul, mostrando-nos o que se lhes deparou, nos pontos de passagem e paragem: Convento da Graça, almoinhas, Chafariz dos Canos, igrejas, oficinas de artesãos… O seu conhecimento da vila medieval foi-nos assim transmitido, em jeito de itinerário, numa peça de fino lavor.
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Aguardamos o livro de actas do Encontro, que se espera para daqui a um ano, quando da realização do próximo, como tem acontecido, com toda a regularidade, ao longo das dezassete edições dos TURRES VETERAS.

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domingo, 18 de maio de 2014

Conselho Régio de 1414, em Torres Vedras, 2

     Álbum de fotografias

     Antes do álbum legendado, um ideia geral da recriação do conselho régio, de onde saiu a decisão do empreendimento de Ceuta: estiveram presentes o rei, os infantes mais velhos -- D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique --, os grão-mestres das Ordens Religiosas-Militares, Nuno Álvares Pereira e os membros do conselho mais directamente ligados ao magno assunto de que se iria tratar.

     O cortejo saiu da Praça do Município, pela Rua Miguel Bombarda até ao Largo de S. Pedro, passando pel'A Brazileira de Torres, ruas Alm. Gago Coutinho, Serpa Pinto, Roque Ferreira Lobo, Largo do Grilo, subindo a Rua do Castelo e paragem junto à Casa de Ceuta, onde o alcaide esperava el-Rei.

     No castelo, no que resta do Paço dos Alcaides a recriação do que se discutiu foi acompanhada por actividades de lazer e folgar, não faltando uma cena de adestramento em luta de espada, orientada pelo próprio D. Duarte.

     No final, D. João I deu por encerrada a função e aos presentes disse:

     -- Podeis ir-vos embora. Ide, ide para o raio que vos parta...

     Isto, dito com algum sentimento paternal. Adorei! Foi como o toque de mãe numa criança; ela sente-se segura.

     Saímos todos dali, calmamente, cada um para o raio que o partisse.

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 O cortejo, vindo da Rua Miguel Bombarda

 Em frente da igreja de S. Pedro

 Final da Rua Serpa Pinto; a cabeça do cortejo já vai na Rua Roque Ferreira Lobo

 Rua Roque Ferreira Lobo

 Dois pagens e o alcaide-mor aguardam el-Rei, à porta  do paço

 El-Rei D. João I detém-se junto do paço

 A caminho do castelo


A importância das ordens religiosas-militares

 À frente, a bandeira da dinastia de Avis

Debaixo do pálio, el-Rei, empunhando o ceptro real

 A arraia miúda marcou presença

 Vão lindas, vistosas, coloridas e sabem muito bem disso.

 Um pouco atrás, mas não menos importantes, as mulheres mais velhas vão fazer ouvir a sua voz. O senhor Rei deu-lhes a honra de as receber

O Rei

 O canto no castelo, que contou com a régia presença e dos seus acompanhantes

 À frente, o alcaide, fazendo as honras da casa; atrás dos músicos, reconhece-se D. Duarte e el-Rei

 Sentado, de branco, o valente Grão-Mestre de uma das Ordens Religiosas-Militares; ao centro, o Rei, tendo a seu lado o Príncipe Real.

 El-Rei fala. Bem podia ser cognominado de O PRUDENTE QUE OUSA...

Raparigas dançam; a faixa na cinta dá sinal de unidade

 Dança das raparigas, para o povo folgar

 Passando por baixo de um túnel, feito de gente.

 Que bem que dança D. Duarte

 O mesmo

 El-Rei fala. De assuntos sérios, naturalmente. Sabe ter graça. É um bom moderador.

 De que estarão elas rindo? O pior estava para vir.

 «Reina» a boa disposição

 Que terá feito ou dito o valente Grão-Mestre, que até o Rei sorri?

*

     El-Rei falou: ide, ide..., e depois tudo andou.


Damos um olhar de despedida. A festa foi muito bonita. Os festeiros prepararam tudo muito bem.

A Casa de Ceuta, no lugar do paço real, onde há 600 anos houve uma importante reunião do Conselho Régio




O pinheiro no telhado


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Em baixo, encontra informação importante e objectiva:


Conselho Régio de 1414, em Torres Vedras

     Na sequência de TURRES VETERAS XVII e para fechar com chave de ouro o segundo dia de trabalhos, teve lugar uma recriação da visita de D. João I a Torres Vedras. Houve Conselho Régio, especialmente convocado para tratar da questão da conquista de Ceuta, debaixo de grande sigilo. Deu-se uma versão bem humorada da vida e problemas daquele tempo no que resta do Paço dos Alcaides.