Logo que vi no último Ípsilon o belíssimo artigo de Alexandra Lucas
Coelho sobre o encerramento da Livraria Alfarrabista Avelar Machado, quis
lembrar o Sr. André, já referido anteriormente neste blogue.
Cheguei a comprar alguns livros ao Sr. Orlando Figueiredo e à filha Elisa,
em presença e pela internet.
O que mais me tocou no artigo de Alexandra Lucas Coelho (veio aumentar o
que conheço do Sr. André), já digo, primeiro quero dizer que o Sr. André deu a
mão ao Sr. Orlando Figueiredo, numa ocasião difícil para este. André tinha
regressado da sua experiência brasileira, que deve ter sido rica humanamente, e
propôs uma parceria ao antigo colega. Tomaram conta* da Avelar Machado. Estando
tudo já a funcionar, André sai para fundar a Lácio, no Campo Grande.
* Vejo, agora, que o nome do Sr. André ficou gravado na designação oficial da empresa: LIVRARIA AVELAR MACHADO Alfarrabista desde 1876 De Orlando Figueiredo & André, Lda [Da internet]
O Sr. Jorge Nunes é o livreiro-alfarrabista de quem sou mais assíduo e,
por isso, aqui tem o primeiro lugar. Entretanto, não é bom ignorar
alfarrabistas de fora de Lisboa, para uma obra de que ocasionalmente
precisemos, para nos ilustrar ou simplesmente pelo gosto de ler. Jorge Nunes, homem
ainda novo, para alguma surpresa minha, quando o visitei pela primeira vez na
livraria. Contactávamos por correio electrónico, uma ou outra vez pelo
telefone. Uma pessoa de 60 anos pode chegar até nós ao telefone com uma voz
jovem e assim a imaginamos. Não sei que filtro fez o telefone, no caso de Jorge
Nunes. Talvez interponhamos uma prevenção, sem dar por isso. Ouvimos o que
queremos ouvir!? É que imaginei Jorge Nunes uma pessoa de idade, «carregando»
uma herança cultural que de algum modo o prende na fidelidade e lembrança dela…
À entrada da Travessa de São Domingos de Benfica perguntei a uma senhora de um
«lugar» ou pequena loja onde era o estabelecimento que procurava. Logo a
senhora me informou: o Jorge? Gostei da familiaridade.
O Jorge. É como hoje lhe chamo. Homem que faz o seu trabalho com alegria
e competência, é leve no desempenho da lide, português de gema no
aspecto físico, um de nós — que somos variados no aspecto, diga-se. Um de nós, na aparência que recebemos pelos olhos, na aura, na envoltura de gestos, olhar, fala, alma que se sente. Tudo o que, somado, constitui uma presença. A culpa de
alguma imagem que suspeitei nele deve vir do seu nome, com um apelido
estrangeiro, prévio ao Nunes, que é portuguesíssimo da silva. Essa palavra
estrangeira pode traduzir-se por «fogo ruivo», alterando uma vogal, de «e» para
«a», como acontece na oralidade portuguesa.
Vejam bem. O conteúdo da palavra afasta da imagem que suspeito ter
criado, ou melhor, de que suspeito ter criado uma suspeita. Há tantas palavras
estrangeiras que nos soam elegantes e distintas e são na sua origem «tão
concretas e definidas como» oliveira, figueira, de que se socorreu Hervé para
criar a personagem Oliveira da Figueira, dos livros de Tin Tin. Não compreendi
o nome, olhei só para a pele ou indumentária.
O Jorge manda quase todos os meses o catálogo on-line dos livros do mês.
E, também quase sempre vou adquirindo um, dois ou três. Às vezes, passo.
*
Algumas livrarias vão fechando. Depois, reabrem com nova gerência. É o
caso da Sá da Costa, na Rua Garrett, que felizmente abriu as portas, com gente
da Livraria Castro e Silva. Já lá estive depois da reabertura. E é o caso,
também, da sucessora da Lácio, que aguarda a satisfação da minha curiosidade.
Outras, não voltam a abrir, como suponho é o caso de uma que fechou no
Largo da Misericórdia e da Barateira, na Rua Nova da Trindade, 16-C, muitas
vezes por mim visitada ao longo dos anos. As da Calçada do Combro (termo
genérico para a zona), só muito mais tarde as descobri.
De várias, temos aqui imagens. Outras podiam figurar. Em termos de
beleza da sala, apresentação, montras lindíssimas, a todas leva a palma a
Galileu, de Cascais. Évora está omissa. Há-de aparecer.
Loja Nunes
Rua de S. Domingos, 5-A
«A Livraria Nunes nasceu em 1970. Augusto Faustino Nunes foi o seu primeiro alfarrabista, homem generoso e conhecedor de livros antigos. Após falecimento de Augusto Nunes, em 9 de Janeiro de 2005, seu filho, Jorge Nunes, decidiu continuar a carreira do pai.» (Daqui.)
Barateira
Livraria Castro e Silva
Rua do Loreto, Lisboa
Letra Livre
Na Calçada do Combro, n.º 139; livraria de primeira água
Avelar Machado
Na Rua do Poço dos Negros, 19-21; encerrou as suas portas no passado dia 4 de Abril.
Em Ponte do Sor, fotos tiradas em 11 de Agosto de 2008, perto das quatro da tarde.
A loja do A. B. CARVALHO (dizia-se A B CARVALHO, vou ao A B CARVALHO) era a
melhor de Ponte do Sor, com tecidos, roupa, louça e outros variados artigos.
Ainda lhe comprei alguns livros. O Sr. mudou-se entretanto para Benavente e um dia encontrei as portas do estabelecimento fechadas, com estas telas de papel vestidas das palavras de poetas. Condizem com o que senti na pessoa do senhor, São a sua despedida.
Continuo a receber catálogos em linha.
Rua de Olivença, na ligação à Rua Vaz Monteiro
Rua Vaz Monteiro
Em frente, o edifício da Câmara Municipal, posteriormente, da Biblioteca Municipal, que também já mudou de instalações.
Rua Vaz Monteiro. Em frente, a ponte sobre o rio Sor
A casa A. B. Carvalho, vista de janela da Biblioteca Municipal, quando ainda aqui se encontrava instalada. (Fotos de 11-08-2008.)
No
Dia Nacional dos Moinhos — 7 de Abril — e no fim-de-semana, dias 9 e 10,
visitei o Moinho do Duque, situado a norte da aldeia de Penedo e sobranceiro a
Runa, constituindo um excelente miradouro, bem perto do CASRUNA - Centro de
Apoio Social de Runa, herdeiro do HOSPITAL REAL DE INVÁLIDOS MILITARES DE RUNA,
inaugurado em 25 de Julho de 1827.
A
recepção aos visitantes, feita pelo proprietário e elementos da sua família foi
muito boa. O moinho era uma ruína, quando o Sr. Vale Paulos deitou mãos à obra,
recorrendo a mestres (havia antigamente engenheiros de moinhos). Não me alargo
neste ponto, ficando só satisfeito por saber que ainda há quem saiba fazer
moinhos.
Quando
estiverem concluídos os trabalhos de acabamento em zona inferior à praça do
moinho, disporemos de uma área social com cozinha, forno, lareira e de
exposição sobre o moinho e o ciclo do pão. Teremos na prática o essencial do
que se chama um centro de interpretação.
Para
já, foi oferecido um caderninho, ilustrado, sintético e preciso. Pelos
subtítulos se faz uma ideia: O Moinho do Duque; Quinta de Alcobaça; D. Maria
Francisca Benedita; Hospital Real de Inválidos Militares de Runa — CASRUNA;
Linhas de Torres Vedras; As Invasões Francesas passaram por aqui; Combates na
Vila de Sobral do Monte Agraço; Combate de Runa; Combate de Dois Portos
(Ribaldeira/Caixaria); Inauguração do Hospital Real de Inválidos Militares de
Runa — CASRUNA; Inscrições do Moinho do Duque; Localização do Moinho do Duque;
Aldeia histórica de Penedo — Aldeia arqueológica [Castro de Penedo;
Penedo-Villa Romana].
Muito
bom.
Hoje,
domingo, 10 de Abril, foi dia de festa em Penedo. Houve missa na capela, que é
nova, procissão... Ouvia-se discretamente os sinos, ao mesmo tempo que as velas
no giro deixavam o rasto suave do seu som. [Texto que acompanha a mensagem publicada no YouTube; o vídeo, mais abaixo.]
*
O caminho para lá
Desde que chegamos à garganta entre as duas serras
— a da grande pedreira, do lado da Espera e a da mais pequena pedreira, do
outro lado (esta, desactivada, restando ainda no sopé dois fornos de cal, que
se iam alimentando do calcário da serra) —, começamos a ver o Moinho do Duque. Logo
a seguir, a bifurcação; à esquerda, o lugar da Espera (Vila Nova da Espera), a
caminho de Alenquer, continuando na Estrada Nacional n.º 9; a via da direita
leva-nos a Runa, na estrada nacional n.º 248.
Entrando em Runa, vindo de Torres Vedras, depois do
largo onde está a igreja, a junta de freguesia, o café e o restaurante Roque,
vire à esquerda e há-de encontrar o caminho para as pontes, primeiro a do rio e
depois a do caminho-de-ferro. Entre as duas, uns 200 metros. É o caminho para o
Penedo, que atravessámos e descemos, passando ao lado de uma habitação com
capela e subindo até ao Caminho dos Moleiros. À mão esquerda somos levados ao
reconstruído Moinho do Duque, na serra da Carrasqueira; reconstruído, porque
após um incêndio, ficou só com as paredes, em completa ruína. À mão direita,
seríamos levados ao Moinho da Mascote, em estado de ruína, ainda com capelo.
No regresso, descendo até à base da encosta do
Penedo, tomámos o caminho da direita, passando por trás do Centro de Apoio Social
de Runa – CASRUNA e vindo a alcançar a E N n.º 9, à Espera. Nos dias seguintes,
voltámos a Runa e Penedo.
As fotos darão uma ideia do percurso e
apresentar-nos-ão com algum pormenor o que desta vez mais importa, o Moinho do
Duque.
Curiosidades
Moinho do Duque — O nome é uma homenagem a
Artur Wellesley, grande chefe militar na luta contra os franceses em solo
português. O título de duque de Wellington foi criado em 11 de Maio de 1814. O
senhor João Lázaro Miranda (o moinho foi inscrito em seu nome em 14 de Maio de
1900) usava um chapéu ou carapuça adaptado, com dois bicos, um à frente e outro
atrás, à maneira do general inglês. Daí, a alcunha «Duque» e o nome por que
passou a ser conhecido o moinho.
A espessura da parede do moinho - 1,5 m.
A grande roda deitada na base do capelo — Fez-me recordar as das carroças que os carpinteiros de carros levavam em Montargil para o largo em frente dos ferreiros, pois a cinta de ferro que a envolve é de semelhante aplicação. O aro de ferro era aquecido ao rubro pelo ferreiro e, dilatado, colocava-se-lhe a roda de madeira dentro. Concluído este trabalho de perícia e força, deitava-se água sobre o aro, para arrefecer e contrair, gerando um aperto inabalável. A grande roda assentava numas rodinhas de madeira, que tinham de ser mudadas de dois em dois anos, por se irem deteriorando com a humidade; agora, são de
plástico. Giram na calha chamada frechal.
O cabresto — Corda, cuja extremidade enrola no «pescoço» da pedra de amarração, imobilizando o giro das velas. A palavra também designa o arreio que se coloca na cabeça de alguns animais, por exemplo, o cavalo, para o segurar e dirigir. É termo, também, de marinharia.
O mastro — Eixo do moinho.
O capelo — É a cúpula, cabeça do moinho. É feito rodar pelo cabrestante.
O cabrestante — Dispositivo que faz
rodar o capelo, para que as velas procurem o vento mais favorável.
A praça do moinho — É o espaço circular
delimitado pelas pedras de amarração das varas.
O catavento — Ao contrário do que
se chama a alguns humanos, também apelidados de bandeirinhas de Santo António,
pela flutuação, pela falta de firmeza nas suas opiniões, os cataventos são
importantes e deles se fiam os moleiros, naturalmente, pois indicam a direcção
do vento, força motriz que faz mover toda a engrenagem. É preciso saber
aproveitar a sua força. A admiração que tenho pelo catavento leva-me a dar-lhe,
aqui, o lugar de pedra de fecho. (Informação
complementar, no final.)
*
Foto tirada da zona da estação do caminho-de-ferro
Penedo, ao alto, visto do futuro parque verde de Runa
Ponte sobre o rio Sisandro
Ponte sobre a via férrea
Do outro lado, os edifícios da Quinta da Granja, ao fundo
A última casa, antes da povoação fica, aqui, à esquerda. É a Casa do Caminho Velho
Vista parcial de Runa, sobressaindo o futuro parque verde
[Foto obtida na zona junto ao Largo do Poço Loureiro.]
Largo do Poço Loureiro
Pequeno parque infantil, à entrada do Penedo
Rua Quinta do Penedo, a seguir ao Largo do Poço Loureiro
Olhando para trás
A mesma rua
Fim da Rua Quinta do Penedo
Penedo fica para trás
Ao fundo, o caminho para o Moinho do Duque continua, passando pela frente da capela, em direcção ao Caminho dos Moleiros
[Foto tirada do terreiro da capela de Nossa Senhora da Penha de França, no Penedo.]
Pela estrada da direita se vai ao Moinho do Duque
Vista que se tem do alto do Moinho do Duque
A aldeia em frente é Nossa Senhora da Glória
Do mesmo lugar, para os lados de Runa
Em primeiro plano, o CASRUNA — Centro de Apoio Social de Runa
Farinha do moinho, oferecida aos visitantes
*
Dois dos vários painéis da exposição
A grande «roda deitada»
[Recorte de uma das fotos do painel anterior]
* O Caminho dos Moleiros
Para um lado e o outro desta placa segue o caminho de dois moinhos, em direcções opostas
Este é a direcção do Moinho do Duque
Já se avista, já emerge o Moinho do Duque
Do sítio do outro moinho, começa a divisar-se o capelo do Moinho do Duque
O Moinho da Mascote
Idem
Penedo, visto do Moinho da Mascote
O regresso pelo caminho alternativo, sem precisar de passar pelo Penedo
665
É o número que se lê na pequena pedra quadrada sobre a padieira da porta, devendo entender-se 1665
Moinho que serviu para bombear água por conduta subterrânea (manilhas?) até Penedo.
À esquerda, a estrada que leva à E N n.º 9, ladeando o CASRUNA
O CASRUNA fica para trás
Depois deste pontão sobre um afluente do Sisandro, a EN nº. 9 está à nossa «espera», junto ao lugar com o mesmo nome.
Panorâmicas, do alto do Moinho do Duque
À esquerda, a aldeia de Nossa Senhora da Glória; à direita, Zibreira
Vista para o lado de Runa
*
Runa, Penedo e o Caminho dos Moleiros
[Google earth, imagem de 25-08-2015, com a devida vénia.]
Neste endereço, ainda sobre o
concelho de Torres Vedras, clique em BROCHURA MOINHOS ABERTOS 2016. Nas páginas
163 a 167 do documento são apresentados o Moinho do Catefica, o Moinho dos
Caixeiros, o Moinho da Bordinheira, o Moinho do Gaio e a Azenha de Santa Cruz.
Abecedário
dos moinhos – Bastante interessante a comparação que se faz entre os
moinhos e o seu velame e os veleiros. Pensámos nas caravelas e naus e da
ligação a dois mundos, o do moleiro e o do navegante, trocando impressões com o
proprietário do Moinho do Duque, senhor Vale Paulos. Estivemos de acordo e no
texto aqui apresentado, «A arte de marinheiro e o ofício dos moleiros dos
moinhos de vento», que precede o «dicionário comparado», vem confirmada e posta
em realce a nossa percepção. [Editado em 23-04-2016. Foram
acrescentadas algumas fotografias.]