sábado, 18 de maio de 2013



Fernanda Botelho [180°]
                                                       

      Eu cheguei a Lisboa num dia de sol. Parece o primeiro verso de um poema, mas cheguei por acaso a Lisboa num dia de sol. E ao sair do Rossio, da estação do Rossio, olhei para a luz, olhei para aquilo e senti-me no paraíso.
                                                                       Fernanda Botelho




                                                                           


      
No passado dia 19 de Abril, a RTP 2 emitiu mais um de vários programas sobre escritores portugueses, desta vez, Fernanda Botelho.
Venho oferecer a transcrição do que foi dito e lido no decorrer do programa. Colegas da Faculdade e no ofício da escrita, estudiosas da sua obra, tiveram o privilégio de a acompanhar nesta peregrinação em que estamos. Todos con-viveram.
Da minha parte, ficou muito por anotar quanto a fotografias, documentos, partes de filme, que foram sendo apresentados em simultâneo, ilustrando as falas, ou em pequenos interlúdios. Foram mostrados, por exemplo, os cafés -- a Orquídea, a Paraíso, o Chave de Ouro. Digamos só que no diálogo tirado de «Bailarico Saloio» aparecem os rostos de duas mulheres [actriz Cecília Guimarães], irmãs (é o mesmo rosto, lado a lado), fala uma, responde a outra, parecem ter 50 anos, uma mais desenvolta/agressiva, a outra, mais compreensiva e humilde. No livro Gritos da Minha Dança, em breve nota explicativa a este «teatro sem acção», são apresentadas como personagem A e B; a personagem A é uma idosa de aproximadamente 70 anos e a personagem B, de meia-idade, com aproximadamente 50 anos.
E Henry Miller, na casa de Natália Correia, fazendo a felicidade de Urbano Tavares Rodrigues, que nos conta o caso.
*
F. B. -- Fernanda Botelho
A. M. C. V. -- António Manuel Couto Viana, poeta. Um dos directores da Távola Redonda, em que Fernanda Botelho colaborou.
U. T. R. -- Urbano Tavares Rodrigues, jornalista, professor universitário, escritor.
J. V. -- Joana Varela, directora da revista Colóquio / Letras -- Fundação Calouste Gulbenkian. Fernanda Botelho dedicou-lhe o seu último livro, Gritos da Minha Dança.
G. A. -- Graça Abreu, professora da Faculdade de Letras de Lisboa, escreveu Da Surdina ao Clamor: Arquitetura da Crise em Fernanda Botelho.
F. Branco -- Fernanda Branco, professora do ensino secundário; escreveu Orquestração Rigorosa para Uma Terra sem Música.
J. M. A. -- Joana Marques de Almeida, autora de A Figura Feminina em Fernanda Botelho.
*


           Fernanda Botelho [180°]

(Voz.) «Não sinto nostalgia do passado. Pois que fiz eu na minha vida, que mereça a sacralização das lágrimas fora de prazo? Escrevi uns livros que o tempo vai escorrer para a poeira das coisas esquecidas. Acumulei livros que não sei o que a posteridade vai fazer deles, quando o espaço que ocupam for utilitariamente reclamado e não havendo, aliás, quem os leia.»
(Pág. 65, de Gritos da Minha Dança.)
(Urbano Tavares Rodrigues, na sua casa.) «Conheci a Fernanda Botelho, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde andávamos em anos diferentes, mas…, e em curos diferentes; porque eu fiz Filologia Românica e ela fez Filologia Clássica; mas conheci-a, era uma rapariga baixa, muito bonita, com feições finas, com um sorriso levemente irónico e que o que aliás já deixava entrever a personalidade dela.»
(Joana Varela, nos jardins da Gulbenkian?) «Era uma mulher muito interessante, muito bonita e com um tipo muito pouco português, não é?, muito branca, com os olhos verdes…»
(António Manuel Couto Viana, em sua casa.) «Era singular, era diferente dos outros. Irreverente, e realmente, sem preconceitos, apesar de ser uma mulher do Norte.»
(Voz de Joana Varela.) «Uma das coisas que sobressai mais na imagem da Fernanda é o facto de ela ter o cabelo muito curto, que é uma coisa que, isso, isso não era vulgar.»
(Voz de UTR.) «Era uma pessoa nitidamente avançada para a época dela; em todos os comportamentos e isso está explícito nos livros dela, está muito marcado.»
(Voz de AMCV.) «Havia, talvez, um certo frisson com, com a mãe, não é, realmente, a mãe estaria em desacordo com certas atitudes dela e sobretudo, bom, com a sua literatura.»

[Aqui, a página de rosto de A Gata e a Fábula, com dedicatória:

                                                                   Lx. Setembro de 61
                                                      Para a minha mãe

 esta Ⱥ GATA
                      E A FÁBULA, numa
     dedicatória muito
     simples, porque é
     a mais sincera de
           todas as dedicatórias
           — ditada pelo grande
         amor que lhe tenho.
                                                                           Da sua

                   Nanda
                        (Fernanda Botelho)

(J. V.) «Conflitos com a mãe que terão sido sempre bastante surdos, quer dizer que a Fernanda tinha respeito pela mãe e portanto que acataria a ordem estabelecida. Sei, por exemplo, que a Fernanda queria fazer Direito, que não havia no Porto, não havia Faculdade de Direito no Porto, a mãe foi matriculá-la a Coimbra e ela veio de lá matriculada em Clássicas, porque Direito não era um curso para raparigas.»
(Fernanda Botelho.) «Mas admito que foi uma educação austera, de que eu consegui libertar-me e, nessa altura, deixei de ter preconceitos. Os preconceitos que eu tinha deixaram de existir.»
(Urbano.) «Ela é de família aristocrática, descendente do Camilo Castelo Branco e do Abel Botelho.»
(J.V.) «O Abel Botelho foi um escritor naturalista, que fez uma imensidão de romances, daqueles com muito adultério e muitos casos de mulheres perdidas e coisas assim parecidas e, portanto, dá a ideia que pelo menos corre ali, naquela família, corre um sangue qualquer, que tenha a ver com literatura.»
(Voz de FB.) «Nasci no Porto em 1926 e estudei no Porto, fiz a minha instrução primária no Porto…»
(Uma voz lê.) «Toda esta minha inépcia era um tanto ou de todo inexplicável.  É que aos quatro anos, sem saber explicar como, aprendi literalmente a ler sem mestre. Repito, não sei ou não me lembro de qualquer explicação para o facto ou de como o facto aconteceu. Seja como for, esta minha prematura capacidade é rigorosamente autêntica. E como será óbvio, a partir do momento em que meti o dente na suculência das letras e das palavras, passei a devorar livros
(Pág. 15, de Gritos da Minha Dança.)

[Vê-se, à medida que se ouve a voz, as páginas de O Livro da Primeira Classe, primeiro, de fugida, a 99, depois, vão sendo folheadas, a 103, a 105, a 107 e a 110.]
(Fernanda Botelho aparece na imagem, com O Livro da Primeira Classe na mão.)
[Ao mesmo tempo que se ouve FB, uma faixa transparente desliza na vertical, com quatro tiras brancas longitudinais, deixando um espaço maior ao meio. Sobre esta passadeira, começa a ler-se:
               d
               e
               s
               o
               b             f
               e             e
               d             i
                i             t
               ê             a
               n  
               c             a
               i   
               a             D
                                              e
                              u   
                       s
Uma pergunta começa a ler-se ao alto, e a atravessar esta resposta, da direita para a esquerda:
Sabes o que é um pecado, meu pequenino?
Entretanto, a resposta que vimos acima aparece completa: «É uma ofensa feita a Deus.» Mais abaixo, em letras maiores: «… que quer ser bom, um menino corajoso confessa as suas maldades.» Todos estes dizeres se encontram na pág. 110 de O Livro da Primeira Classe, sob o título Confissão.]
«Eu, isto tudo está guardado, não está em boas … este livro, O Livro da Primeira Classe, que até que me chamaram a atenção, tem as orações, orações de rezar, rezas, está em mau estado, mas não é porque tenha sido maltratado, é simplesmente porque é mais velho do que eu; foi nele que eu aprendi a ler aaa… a ler antes do tempo.»
(Voz.) «No meio de todas as águas mornas, evoco uma situação que, a princípio aflitiva, veio ter deslinde muito positivo. Deu-se o caso de eu cair à cama, lá ficando durante três semanas a canja de galinha. Nesse entretanto, a professora Dona Lucília havia ministrado aos seus discípulos os primórdios da análise lógica (sintaxe). Quando regresso aos bancos escolares, vejo a malta a alinhavar e a saltar frases, e aquilo era coisa para mim misteriosa, e não apenas misteriosa, também em absoluto o Mistério. E, mais ainda, um labirinto para minha perdição sem fio a que me agarrar. Não por muito tempo: uma semana depois, já eu o agarrara por mercê de uma Ariana-anjo-da-guarda e saía ilesa do labirinto e do mistério. E apaixonei-me — pelo mistério, pelo labirinto, pela sintaxe. Era tão giro!»
(Gritos da Minha Dança, págs. 15-16.)
«Fiz assim! Fui para Coimbra. Muito bem; porque é que eu depois… me… pedi a transferência para Lisboa? Isso também posso contar.»
(J.V.) Ela falou muito da pequenez, fala muito da pequenez do que era o meio coimbrão.
«Vim para Lisboa, porque me deixei de gostar de Coimbra. Estava um bocado enfastiada com o espírito provinciano de Coimbra. Era uma cidade, como digo, muito bonita, mas o espírito que reinava era provinciano.»
(J.V.) Suponho que vir para Lisboa foi para ela uma libertação, porque ela em Coimbra já não estava com a mãe, não é!?, já não estava com a família, estava, estava num colégio, uma espécie de casa de raparigas…   …tipo com freiras ou qualquer coisa assim parecida. Mas, acho que a vinda para Lisboa é que foi de facto a Fernanda encontrar-se com o mundo e com uma certa liberdade.
(F.B.) «Eu cheguei a Lisboa num dia de sol. Parece o primeiro verso de um poema, mas cheguei por acaso a Lisboa num dia de sol. E ao sair do Rossio, da estação do Rossio, olhei para a luz, olhei para aquilo e senti-me no paraíso.»
(Urbano.) «Eu lembro-me na Faculdade de Letras, quer dizer, ela estava ligada assim a um grupo onde havia mais homens que mulheres e, bom… e as mulheres, quer dizer, tinham uma certa inveja da Fernanda, também, algumas, não digo todas, não é?»
(F.B.) «Encontrávamo-nos em cafés. Aaaa…, podia ser na Orquídea, podia ser na Paraíso, podia ser no Chave de Ouro. Muito. Aaaa… E ali é que se resolviam os grandes problemas da nação.» [Riso breve.]
(U.T.R.) «A Fernanda era sempre a... atraente, porque tinha muito humor, tinha, às vezes, tinha aquela pequena maledicência, que não chega a ser acintosa, mas que, as mulheres gostam imenso disso.»
…………………………………………………………………………………….
(Voz de AMCV.) «Ela já era casada… isso foi… e já tinha até o filho; mas tinha disponibilidade para conviver connosco.»
(U.T.R.) «Quando nós começámos a assinar documentos a favor da liberdade de imprensa, para a libertação dos presos políticos, para a abolição da censura, aaa… a Fernanda Botelho alinhou sempre connosco. E a maior…., muitas das raparigas, eu, por exemplo, eu lembro-me que nessa altura da greve, muitas das raparigas iam às aulas.»
(J.V.) «Eu acho que a Fernanda também nunca teve problema nenhum em frequentar os meios que os homens frequentavam, não é?»
«Em Lisboa encontrei realmente um ambiente muito diferente. E depois relacionei-me, isto foi o factor principal, com o David Mourão-Ferreira, que era aluno na mesma, mas que tinha as mesmas veleidades literárias. Ele também queria ser escritor. Queria ser poeta. Eu queria ser escritora. E ele queria ser poeta.»
(A.M.C.V.) «É ele que a apresenta ao seu grupo, ao seu grupo literário; é ele que insiste em que ela apareça como poetisa e depois como prosadora.»
(J.V.) «Embora a Fernanda diga que toda a vida, o que gostou de fazer foi, desde miúda que ler e escrever, mas suponho que o contacto com o David que foi absolutamente determinante para ela perceber que tinha a vocação de escritor.»
(U.T.R.) «O David foi um pouco o mentor espiritual da Fernanda Botelho. Era um homem com uma grande cultura, com… muito inteligente, um grande poeta…, foi uma pessoa encantadora, simpática, desejosa de ajudar os outros. Foram dois grandes amigos.»
(A.M.C.V.) Creio que as relações entre a Fernanda Botelho e o David Mourão-Ferreira foram sempre extraordinárias, quase de uma adoração um pelo outro, pela sua obra…
[Folha de rosto ou ante-rosto.]
                                                               ESTA NOITE
                                                     SONHEI COM BRUEGHEL
                                               

                                                                  Para o David Mourão-Ferreira (x),
                                                                         grande amigo, grande escritor
                                                                         (e que grande romancista!),
                                                                         com o grande afecto e um
                                                                         grande abraço — e gratidão —
                                                                                      da
                                                                                           Fernanda Botelho
                                                                                             Lx. Nov. 87
                                                                         (x) extensivo à minha querida

               [Não se consegue ver o resto da página.]

(F.B.) «O António Manuel Couto Viana, o David Mourão-Ferreira e o Luís de Macedo resolveram, à conta deles, aaa… criar umas folhas de poesia porque todos eles eram poetas e saiu a Távola Redonda
(A.M.C.V.) «Ela participou, logo no primeiro número, portanto, veja a admiração que nós já tínhamos pela sua poesia. Era uma poesia muito diferente da das poetisas da época.»
(Voz de J.V.) E, portanto, a Fernanda surge como poeta e tem uma colaboração muito assídua nessas folhas.»
(Voz feminina lê poesia de F.B.)
DESVIOU-SE o paralelo um quase nada
                                                       E tudo escureceu:
                                                       Era luz disfarçada em madrugada
                                                       A luz que me envolveu.

                                                       A geométrica forma de meus passos
                                                       Procura um mar redondo.
                                                       Levo comigo, dentro dos meus braços,
                                                       Oculto, todo o mundo.

                                                       Sòzinha já não vou. Apenas fujo
                                                      Às negras emboscadas.
 Em cada esfera desenho o meu refúgio
                                                      — as minhas coordenadas.
[Esta poesia, com o título AS COORDENADAS LÍRICAS, vem publicada na TÁVOLA REDONDA, fascículo 10, com outras duas de Fernanda Botelho, ocupando toda a primeira página.]
(A.M.C.V.) «Era singular. E eu sei a reacção que teve o público, quando a leu. Foi uma surpresa, como tinha sido para mim, como tinha sido para o David e para os outros nossos colegas.»
(F.B.) «Aaaa…, a Joana Marques de Almeida, que está… aí, não sei onde, ai, está aqui!, …    …    … veio falar sobre a minha obra, não é? …, em que ela é perita…, sabe mais da minha obra que eu.»
(J.M.A.) «Na História da Literatura, do Óscar Lopes [imagem da História da Literatura Portuguesa / António José Saraiva / Óscar Lopes], até havia lá uma parte que tinha um grande elogio, dizia que a Fernanda Botelho era uma voz única na poesia e… só que foi uma voz, na poesia, muito efémera, não é?, porque foi só ali naqueles vinte e oito poemas que constituem As Coordenadas Líricas
(A.M.C.V.) «Uma poesia mais austera, quase agressiva, quase viril.»
(F.B.) «E este é um poema de amor.
Tem rimas tal feitio e destino
Que é para ti, somente.
Se hei-de escrever camélia, escrevo fósseis.
Quando vires abutre, pomba entende.
Que o meu sinistro verbo não te iluda.
Se queres um bom conselho, que te preste.
Monta, solene, um cavalo de lousa.
Chama-lhe Pégaso e alea jacta est.
Existes, porventura? Eu te consagro, porém,
Este mistério de sinónimos.
Decifra-o, se puderes.
Eu nele embarco, nele os náufragos.
Lê sonhos, sempre anónimos.
Salvou-os uma tábua em pleno mar,
Lugar que foi de todos o mais íntimo.
Vês como é fácil? Fácil como achar
Um belo e tenebroso logaritmo.
Não obstante, não era na poesia que eu queria singrar, Era, realmente, na prosa, na ficção.»
(A.M.C.V.) «Na revista Graal a Fernanda, logo no primeiro número, revela-se como prosadora, como novelista. Há uma coisa curiosa, porque a revista tinha um mecenas. Ele chamou-me, logo no segundo, logo no…    …, que é que apareceu o primeiro número e disse-me: — Sr. Director, se o senhor continua a publicar coisas como essas da Fernanda Botelho…, bom, isto acaba-se a revista, já. Porque aquilo é uma imprudência, é um disparate. — Imagine-se! Ele já faleceu, mas ele nessa altura proibiu-me de publicar mais novelas da Fernanda Botelho.»
(J.V.) «E ela já congeminaria, por essa altura, o primeiro romance, O Ângulo Raso…»
(F.B.) «E foi assim que a história começou, a história da minha vida, foi assim que a história começou, relativamente ao romance.»
(Voz.)
— Ah! O Ângulo Raso!? Que nome tão teorizante! — E, astucioso, pediu: — Monte um teorema e demonstre-o.
Samuel suspirou: — Os teoremas nunca foram o meu forte. Mas vou tentar… grosso modo, está claro. — Numa outra folha da agenda desenhou uma semicircunferência. Num dos extremos do diâmetro, marcou zero, no outro, 180 graus. No pólo, 90 graus.
(U.T.R.) «O Ângulo Raso é que foi a grande revelação duma escritora; e creio que n’O Ângulo Raso estão contidas todas as direcções, as grandes direcções da escrita da Fernanda Botelho, todo o imaginário, o universo dela…»
(Voz.) «É uma obra em que, para já, na maior parte dos casos, as personagens principais são mulheres.»
(J.M.A.) «E a Fernanda Botelho trata-as realmente de outra forma, portanto, de uma forma diferente em relação ao que vemos nos romances anteriores, e diferente também em relação ao que vemos nos romances daquela época…»
(Graça Abreu.) «Essas mulheres são mulheres com dificuldade em encontrar o seu lugar no mundo.»
(J.M.A.) «Todas essas personagens femininas inovam, por, pelo protagonismo que têm, pela maneira como são apresentadas ao leitor, não temos aquela descrição física…»
(G.A.) «São mulheres isoladas e são mulheres que rejeitam qualquer arregimentação, mesmo que seja uma arregimentação contra o instituído.»
(U.T.R.) «Sem tomar posição frontal, na rua ou nas revistas, por uma emancipação da mulher, a Fernanda Botelho deve ter sido uma das escritoras portuguesas que, por um lado, melhor revelaram o que era a condição feminina nos anos 50, ela publica O Ângulo Raso, salvo erro em 1957, através da interioridade das mulheres, dos seus comportamentos, das suas conversas, tudo isso está n’O Ângulo Raso, está n’A Gata e a Fábula, está em Xerazade e os Outros…»
(G.A.) «Logo que não encontram um partido, uma ideologia, uma religião que funcione como um ideal de grupo, ou que lhes proporcione um ideal de grupo. São de facto diferentes e reivindicam dessa mesma diferença.»
(U.T.R.) «A leitura que ela fez do filme de Simone de Beauvoir frutificou muito e talvez seja ela, de todas as escritoras portuguesas, que denunciaram a humilhação da mulher e a sua aspiração à liberdade em todos os planos, no trabalho, na vida da relação, na vida erótica, até como mãe, … … está em toda a obra de Fernanda Botelho, duma maneira que é talvez, de todas, a mais importante.»
(F. Branco.) «Isto é único ou… se não é único é raro, entre os autores que conheço. Obviamente que propor figuras de mulher, propor heroínas femininas, nos anos 50, em plena ditadura, com o movimento das mulheres, com as mulheres a fazerem os agradecimentos ao ditador…
Numa época de definição da mulher como a fada do lar, como a esposa, a mãe abençoada, essas tretas todas, não é?! E ela ser capaz de agarrar e mostrar mulheres que procuram fora do casamento, que desfazem o casamento, que procuram inclusivamente mais do que uma vez, ou seja, não só são situações de adultério e o adultério masculino também é corrente, embora as pessoas não olhem tanto para ele, estou a dizer: é corrente no romance, cá fora também!,  mulheres que não só cometem adultério, para já: que não cometem adultério pontualmente, por acaso, porque…, por uma desorbitação momentânea, mas conscientemente e repetidamente. E não só têm um amante fora do casamento, mas podem ter mais do que um amante fora do casamento, há várias heroínas que em momentos diferenciados ou na mesma época têm mais do que um amante fora do casamento, não é?! Eu acho que é preciso muita coragem, realmente…»
(U.T.R.) «Porque são vários tipos de mulher que ela analisa, a mulher submissa, a mulher que só tem como horizonte da vida o casamento, porque é economicamente dependente, não tem uma profissão e depois se sujeita a todas as imposições do marido, a mulher que salta o fosso e que se liberta, ou pelo adultério ou pela ruptura com o casamento e pela experiência duma… duma vida de mulher só. É muito interessante, de livro para livro, ela inclusivamente põe essas mulheres a contracenarem umas com as outras e a dialogarem umas com as outras, o que é extremamente interessante.»
Voz lê e vê-se a página que é lida.
— Não sejas parvinha, Lili!
— Queres que embandeire em arco e comece a cantar o hino? De qualquer forma, para quê, tantos segredinhos? — exclama Lili. — quando a tua amiga chegou, bem podias ter-lhe claramente dito aqui está a Lili, que andou metida com o teu marido há anos atrás, quando todos nós éramos mais novos. A tua amiga não seria certamente tão tacanha que se melindrasse por tão pouco, coisa tão antiga! Ou a tua amiga é dessas que pensam que os maridos lhes caíram nos braços, castos e com medo das mulheres, por não saberem como aquilo funciona por dentro e terem medo de escangalhar a máquina? Não é, pois não? (Esta Noite Sonhei com Brueghel, p. 190, ed. Contexto, 1988.)
(G.A.) «Em alguns livros da Fernanda Botelho, há, de facto, personagens que podem ser consideradas arrojadas, nomeadamente para a época em que foram escritas, mas, mesmo hoje em dia se podem assim considerar. Os ménage à trois, que aparecem nalgumas delas, em qualquer caso o adultério é recorrente em vários dos livros.»
(Voz de J.V.) «O terceiro livro da Fernanda, que é A Gata e a Fábula, é um livro muito giro, muito…, muito interessante. Tem uma personagem absolutamente fora das regras e das normas que é a chamada Gata e essa personagem, que anda sempre suja, que anda, que é amiga dos cães e dos gatos e protege uma rapariguinha toda porca em casa e que faz e que se põe nua à frente dos… e é uma rapariguinha com dezasseis, dezassete anos, põe-se nua à frente dos primos e que se vai meter na cama dum, também, dum amigo, também muito…    …, rebenta completamente com as, com o meio e é…, com um meio conservador onde é, isto passa-se no Minho.»
(U.T.R.) «Estou-me a lembrar, uma mulher, no romance dela Lourenço É Nome de Jogral, que a certa altura se apaixona por um homem que é justamente o Lourenço, que é um sedutor que tem uma espécie, que tem, que é muito, que é quase feminino de aparência, o que lhe dá uma certa cumplicidade com as mulheres e, então, ele tem ao mesmo tempo três casos, um, com essa personagem, que é praticamente a figura central do romance, um, com uma outra, talvez seja mulher dum amigo, e uma outra, com uma catraia de dezoito anos ou coisa assim. É, e então, ela, e é uma mulher, que se diz uma mulher livre; ela, para não o perder, aceita, inclusivamente, que ele a leve para a cama com outra ou… e ela sente-se muito, no fundo, sente um grande desconforto nessa situação e faz isso, para não perder o homem de quem gosta.»
(F.B.) «A título de curiosidade, Lourenço é, das minhas personagens, aquela com quem eu mais me identifico. Parecendo muito estranho, acho que os problemas que ele apresenta no livro, que eles…, que ele tem, que há, são muito meus. Eu não me identifico muito com a maior parte das minhas personagens, elas são elas e eu sou eu, não é?!, mas… à personagem Lourenço, acho que dei tudo, … que me transformei nele ou ele transformou-se em mim. Eu sinto, sinto, sinto isso.»
(U.T.R.) «Entre os grandes amigos da Fernanda, por exemplo, eu estou-me a lembrar de dois homens, que tinham essa, esse poder de sedução e, ao mesmo tempo, uma delicadeza quase feminina, que eram o David Mourão-Ferreira e o António Ramos. Dois grandes amigos da Fernanda, que coincidem com esse, … com essa figura masculina, que é uma figura donjuanesca.»
(J.M.A.) «O romance, que eu acho que é dos melhores, que é Esta Noite Sonhei com Brueghel, é a própria personagem feminina, não é?!, a tentar descobrir o que é que correu mal no casamento, portanto, aquilo é uma busca, ela, ao mesmo tempo, quer dizer, tenta compreender o casamento e tenta compreender-se a si própria, e tenta compreender o marido, tudo muito bem, muito bem articulado, muito bem narrado e entretanto sabemos que a personagem, que essa Luísa tem um amante, mas isso não, quer dizer, não parece ter assim muita importância, não é?! E parece-me que o leitor não fica contra ela, por isso, o leitor fica do lado dela e no fim vimos a descobrir que o problema tinha sido ela ter engravidado, quando o marido não podia ter filhos, portanto, ela própria não sabia qual é que tinha sido o problema.»
(J.V.) «Neste último livro, dos Gritos da Minha Dança…, a Fernanda, aí, acho que perdeu completamente …, quer dizer, não há qualquer sentido de verosimilhança nas histórias que ela conta, mas, portanto, são um bocado anedotas, digamos assim, anedotas, histórias exemplares, muito curtas; como, também há uma história de duas gémeas que também são trocadas ou se trocam para, para se casarem lá com um senhor rico ou não sei quê…»
(F.B.) « Acha isso irreverente? Não sei, claro…, acho que é uma história, apenas, com uma determinada dinâmica, mais nada. Irreverente, não! Elas até são bem comportadinhas, as duas gémeas.»
(J.V.) «A Fernanda, de facto, é uma pessoa, é uma mulher sem preconceitos e que fala das coisas com a maior das naturalidades.
(Voz.)
Roberto e Norberto deram as mãos ainda andavam na Pré-Escolaridade. Descobriram em simultâneo e em unanimidade os encantos da Matemática e as afrontas da História. Foi-lhes revelado ao mesmo tempo os inefáveis mistérios do sexo. Um com o outro e vice-versa. Eram felizes, jovens, bonitos. E ambos economistas. O Boss não gostou de os ver de mãos dadas, vinham eles dos lavabos, para onde ele, o Boss, se dirigia, já a desabotoar a braguilha. Perante as aleivosias decorrentes deste confronto, nos labirínticos corredores entre os lavabos e os gabinetes, Roberto e Norberto tiveram de assumir as medidas drásticas que se impunham, seja, arranjar esposa, uma por cabeça. E, para tanto, partiram uma noite, à aventura, dispostos a descer às alfurjas. Acabaram numa discoteca heterossexual. Roberto vê o barman encher dois copos altos com laranjada saída de um jarro. Quer que a ajude a levar?, perguntou à mocinha. Não é nada pesado, disse ela, obrigada. Mas se quiser vir, eu e a minha amiga estamos naquela mesa lá ao fundo. Óptimo, sai-se Roberto, vou buscar o meu amigo que está ali junto da charanga, assim fazemos uma mesa de quatro. Casam no mesmo dia e na mesma igreja. Passam a lua-de-mel em conjunto, uma parte nas Berlengas, o restante em Madrid. Quartos contíguos. Norberto e Roberto comentam os tálamos: ambas as noivas eram virgens, mas surpreendentemente dotadas de apreciáveis aptidões periciais. Óptimo. Hoje vamos às compras, anunciam as jovens esposas. Óptimo. Os esposos entreolham-se, sairão para um breve passeio e voltarão depressa. Quer dizer, enquanto as esposas se consagravam à pechincha das baboseiras, eles dedicar-se-iam a outros jogos de corpo-a-corpo, a nostalgia era avassaladora. Troca por troca. Óptimo. Voltaram, sorrateiramente ao hotel. Quando entraram num dos quartos, confrontam-se com as duas jovens esposas, Branca e Clara, nuas, enrodilhadas uma na outra, cabeça para um lado, pernas para o outro, em confusão e alternativa. Elas erguem-se, assarapantadas, enroladas nos lençóis arrancados á cama. Enfrentam os maridos com temor, mas também com desafio. Acabaram por confessar que andavam naquilo desde o nono ano do Secundário. Norberto e Roberto desatam a rir, que maravilha, que oiro sobre azul! Viver em partie-carrée, com coreografias pas-de-quatre — tão ortodoxo! O amor sorriu-lhes em quadruplicado e a cada uma das senhoras foi dada a benesse de um filho e de uma filha. Viveram felizes para sempre. [Gritos da Minha Dança, Pas-de-quatre / Conto breve, pp. 77-79, com supressão de alguns períodos.]
(F. Branco.) «É muito engraçado, porque, quando eu estava a fazer esse trabalho, um amigo meu, bastante mais jovem do que eu, dizia: “Ah, vais trabalhar a Fernanda Botelho, ah, é assim um bocadinho de pornografia soft.” É engraçado, porque, tantos anos depois, um indivíduo que neste momento está nos quarenta e tal anos, ainda acha e eu pergunto: e o sexo na obra de Fernanda Botelho tem uma intensidade maior que na obra de muitos outros autores masculinos? Não tem. O problema é que ela não é um autor masculino. E, portanto, as pessoas perguntam: como é que…, agora uma mulher põe-se a falar destas coisas?»
(J.V.) «Eu acho que os livros da Fernanda eram de uma pessoa lúcida e que relatava com verdade aquilo que, a que assistia, não é!? E, portanto, como se sabe, sempre existiu desde tempos imemoriais a homossexualidade, tanto feminina, como masculina, mas é muito raro no livro de uma outra portuguesa, e eu não me lembro de outro caso, aparecer como é no segundo livro da Fernanda, no Calendário Privado, aparecer de facto a revelação da homossexualidade de um amigo, também, duma das, da personagem feminina principal.»
(F.B.) «Eu crio as personagens e depois as personagens, depois, eu gosto ou não gosto. E as personagens impõem-se-me. Algumas delas, de que eu tencionava…    …, às quais eu tencionava dar um caminho dentro do romance, dentro da história, numa determinada altura, desviam-se. E eu deixo-as; elas é que se impõem. Elas é que me indicam o caminho que querem seguir. E eu aceito. Isto parece um bocado complicado.»
(J.M.A.) «E as personagens dela são realmente personagens que se impõem e que ficam, não é!?, não são daquelas personagens que morrem quando se fecha o livro.»
(F.B.) «Há uma personagem masculina de que eu queria fazer uma espécie de malandro, em que o… ele era um conquistador e eu queria, como não gosto muito de conquistadores…, também não tenho que gostar, não é!? Cada um é como é. E eu queria fazer dele uma personagem um bocado caricata sob esse aspecto, aaaa… e a partir de uma certa altura, deixei de o governar… e não consegui que ele se me tornasse antipático, nem a mim, nem aos leitores e ele por lá anda muito feliz da vida, a personagem, porque eu não consegui desfigurá-lo.
(U.T.R.) «Todos os escritores têm muito de autobiográfico, o que é é que o autobiográfico, através do processo narrativo transforma-se, quer dizer, nós pensamos, nós vamos reproduzir uma vivência nossa e transformamo-la. Pensámos numa determinada personagem, que viveu connosco ou com que nós observámos de muito perto e ao escrever transformámo-la e criámos uma outra figura. Quer dizer: a literatura acaba por ser uma forma de transformação do vivido e do observado, mas que os livros da Fernanda estão carregados disso, estão.»
(F.B.) «Nos meus livros há muita cosa que é…, muita coisa que é…muita coisa!..., se não são tantos…, mas algumas situações que são reais ou que eu conheço e transformo um bocadinho, evidentemente, mas a maior parte delas são deduzíveis, quer dizer: eu, a partir de comportamentos que eu conheço deduzo certas circunstâncias e… pode acreditar que muitas vezes a realidade ultrapassa a fantasia.»
(J.V.) «Conviveu muito com a Natália, com a Natália Correria e com as tertúlias da Natália…
[No ecrã, quadro com Natália Correia, Fernanda Botelho e Maria João Pires, retratadas por Nikias Skapinakis, Colecção Fundação Calouste Gulbenkian.]
(F.B.) «Posso mesmo dizer que éramos amigas. E a casa dela estava sempre aberta para receber os amigos. Um dia, foi lá até um escritor norte-americano, o Henry Miller, aaaa… Quer dizer: calhou ser convidado a ir a uma dessas noites, soirées, em casa da Natália…, e ele estava um bocado embasbacado e aaa… perguntaram-lhe, ele explicou: “Eu julgo-me transportado para o século XVIII.”»
(Urbano) «Lembro-me muito bem disso, quer dizer, porque então em casa da Natália falava-se muito, falava-se muito, falava-se de tudo. E o Henry Miller, que estava a ouvir aquilo tudo, depois, acho que chegou-se ao pé do David e disse-lhe: “Ouça lá, mas aqui fala-se tanto de sexo e quando é que se passa à prática?” [Para alguém, atrás da câmara:] Já conhecia isto ou não? “Quando é que se passa à prática?” E não se passou à prática.» [Mais do que rir, vemos de Urbano o fácies iluminado de prazer contido, riso dificilmente represado.]
(J.V.) «Foi durante muitos anos, porque ela divorciou-se relativamente poucos anos depois de se ter casado, portanto, foi durante muitos anos uma mulher sozinha e com… e livre.»
(U.T.R.) «Teve um grande amor(es) ………, quer dizer, e te(ve)…, separou-se do marido, como sabe. E teve vários casos na vida dela.»
(J.V.) «Eu tenho impressão, porque ela casou-se cedo demais, não é?, quer dizer, ela deve ter casado com, por volta dos vinte anos e o marido também era muito novo e, depois a vida que teve em Lisboa, fê-la descobrir outras pessoas e o casamento, suponho que se tornou uma amarra para ela e não durou muitos anos.
(F.B.) «Ai, o casamento é uma coisa respeitabilíssima…    …, para toda a gente, menos para mim.» [Abre os braços e sai um som, como a raiz de duas ou três palavras que não chegam a formar-se.]
(Voz de A.M.C.V.) «Eu também tive a sensação de um certo desencanto, que haveria naquela família, não é!?, de maneira que… ela era muito independente.»
(Voz de U.T.R.) «É uma escolha, é uma mulher que aceita ficar sozinha. Ela trabalhava, ela foi durante muitos anos, trabalhou no turismo belga.»
(F.B.) «Mas, continuar a escrever foi realmente e prosseguir na escrita, eu achava que era a minha missão, mas evidentemente que não podia viver disso, portanto, tive de realmente de correr… de arranjar um trabalho, outro trabalho com que me valesse na vida para sobreviver. E, dentro da sobrevivência, eu arranjava um tempo, mesmo à noite, já antes de adormecer, para escrever livros um bocadinho.
(J.V.) «Antes do 25 de Abril, a ideia que eu tenho é que a Fernanda era juntamente com a Maria Judite de Carvalho era considerada uma das escritoras mais importantes, a Natália Correia, também, da literatura portuguesa. E a Fernanda estava digamos também muito na vanguarda da própria forma, da Fernanda escrever… e depois há um interregno de facto muito grande, com estes anos que se seguem ao 25 de Abril.
(U.T.R.) —O Lourenço É Nome de Jogral, salvo erro, é de 71 e, a partir daí, há um salto até 87, enorme, portanto, há um período que eu nunca compreendi muito bem em que ela se cala.»
(F.B.) «Tinha cinquenta folhas A4 escritas à mão de um livro a que eu iria chamar Esta Noite Sonhei com Brueghel. Aconteceu que entretanto surge o 25 de Abril. Claro que há um grande entusiasmo, mas com esse grande entusiasmo há uma quebra na produção literária.
[Durante dez segundos, imagem do rosto de Fernanda Botelho, actual; sobre ela, a legenda: Fernanda Botelho deixou de publicar durante 16 anos.]
[F.B.] Eu achei que, e isto é sincerissimamente…, o 25 de Abril surge, o entusiamo é grande e eu penso: não vale a pena eu escrever, porque isto é muito melhor do que a escrita. Escrever para quê? Eu não posso escrever nada mais interessante do que isto. Eu acho que não vale a pena, acho que não vale a pena. E, então, parei de escrever. Até que um dia me surgiu uma proposta para um livro novo, portanto, agarrei nas cinquenta páginas que eu tinha deixado para trás de Esta Noite Sonhei com Brueghel e de que eu já não me lembrava como era, achei que aquilo estava tudo errado, modifiquei aquilo tudo e escrevi um livro novo…, chamado Esta Noite Sonhei com Brueghel, que iniciou uma outra fase.»
(J.V.) «A partir de Brueghel ela também publicou com regularidade. Depois, publicou a Festa em Casa de Flores, publicou Dramaticamente Vestida de Negro, publicou As Contadoras de Histórias.
(F.B.) «É importante, porque é provável que seja o último livro que eu publico. Talvez não seja, mas a hipótese não pode ser posta de lado.
(J.V.) «Portanto, ela retomou o ritmo, quer dizer, é quase uma separação de águas, o antes e o depois do 25 de Abril, em número de romances. O(s) Gritos da Minha Dança não sei se é o livro preferido da Fernanda. A Fernanda diz sempre que é o último, mas este livro é de facto um livro aonde ela põe muitas das, quer dizer, o talento imenso que ela tem de efabular está ali todo à mostra, depois uma ironia também muito corrosiva não se esconde e depois a Fernanda tentou em vários livros conjugar géneros literários diferentes como é, por exemplo, o Brueghel tem várias poesias, o Lourenço É Nome de Jogral, também, tem capítulos que são poesias e, portanto, aqui, descaradamente, junta peças de teatro, histórias tradicionais e estes, estes contos burlescos:
– Tenho a certeza de que o almoço se vai atrasar. A malvada põe-se à conversa com o carteiro e é cá uma conversa! Ela nem sabe que ele está amigado com a Rosa do Fagundes e olha que o Fagundes não é para graças. O pai dele baixava as calças, fazia cocó na estrada e depois mostrava o rabo a quem passasse por lá. O rabo dele era um pandeiro. Quem quisesse, servia-se. A mulher dele, quando lhe cheirava, fechava-lhe a porta e deixava-o ao frio, debaixo do alpendre. Com um penico. Não se sabe bem para quê, o penico. Mas ela não era lá muito certa, caiu do telhado em pequena, rachou a cabeça e ficou estrábica. O Fagundes até berrava que não era dele, não podia, tão feia, tão fedorenta, de olhos tortos…
– Não era assim tão feia, só muito magra. E até se parecia com o pai.
– Então o Agapito que já então andava no contrabando tentou acalmá-lo, que sim, que sim, então chegaram a vias de facto. O Agapito agarrou num sarrafo, foi-se a ele e furou-lhe um olho. Agora, já é tua filha, meu sacana, também tens os olhos tortos. E vai o outro, agarra num canivete e furou-lhe as tripas.
– Foram só uns golpes, nada de tão grave.
– Isso foi o que disseram. Aquilo foi tudo combinado com o médico, para se safarem todos. O médico não queria sarilhos, o homem morreu.
– Foi um ataque, sofria do coração.
– O médico até fechou os olhos, quando aquele safado…, lembras-te dele?, matou o pai, só para lhe ficar com uma horta de couve galega com um limoeiro no meio.
– É um belo pomar e uma bela horta.
– Qual quê? O que lhe vale é o que a irmã lhe manda, do que ganha no bordel em França.
– Ela trabalha num hotel.
– O pai deles é que era cá uma besta. Morreu de um arroto tinha comido e bebido como um animal. Arrotou tão forte que lhe ficou a alma pelos gargomilos.
– Foi de uma peritonite.
– Isso foi o que o médico disse. Quanta gente terá morrido por causa de ele não ter chegado a tempo! E a mulher dele…
– A mulher dele era a nossa mãe, e ele, o nosso pai.
– Olha agora a bastarda que és a levantar a garimpa!
– Serei assim tanto!?
[Gritos da Minha Dança, Bailarico Saloio, pp. 53-59, com supressões e sem a nota inicial.]

(J.V.) «A obra da Fernanda Botelho é maioritariamente constituída por romances, que são, por um lado, de um ponto de vista formal, muito bem pensados e urdidos, trazendo cada um a sua novidade…»
[Voz de G.A.] «Enfim, a Fernanda Botelho insere poemas, insere diário, insere guiões de cinema; na sua obra insere o happy end
(J.V.) «Muitos dos truques do policial ela utiliza-os em romances que não são policiais, não é!?, portanto os livros têm sempre um desfecho mais ou menos inesperado, há sempre uma revelação no fio, ela esconde do leitor dados, que só são revelados, a partir de certa altura e doseadamente.
(F. Branco.) «A Fernanda Botelho começou por ser apenas um nome e começou com Xerazade e os Outros. Foi o primeiro romance que eu li dela. E foi assim um deslumbramento. Eu nunca tinha lido nada naquele género e fiquei absolutamente deslumbrada, aquela, aquele desdobramento de vozes, aquela, aquela solicitação constante, não é?!, um leitor, que tem que estar muito atento a ver o que tudo se passa.»
(J.M. A.) «Quando ela surgiu, quando ela começou a escrever, eu acho que foi esse um dos motivos que originou aquele, o sucesso que foram os seus primeiros romances, era a complexidade da escrita dela, as inovações, aquela escrita tão trabalhada…»
[Rodando sobre linhas brancas, curvas, formando meridianos e paralelos, o texto a seguir transcrito sobre as páginas de caderno manuscrito de Fernanda Botelho; vão sendo folheadas…; frases impressas em rotação à volta deste globo, umas num sentido, outras noutro. Ao mesmo tempo, a autora fala dos livros que não torna a ler.]
[…] escrevem a voz e eu vozeio a réplica. [G.M:D:, p. 24.] Seja como for, as vozes deles, esses amados ruídos continuarão a ser para mim uma noite fechada em trevas sem jamais se fazer dia […]. [G.M.D., p. 24.] E sem o Wagner, o meu ribombante Wagner que me enche o coração de cristalizado empolgamento? [G.M.D., p. 23.] Vou pôr ao pescoço, enfiado num fio de prata, um livrinho de notas com lapiseira acoplada. Eles escrevem a voz e eu vozeio a réplica. [G.M.D., p. 23.]

 (F.B.) «Eu não volto a ler os meus livros…, por medo, por medo de ter vergonha, por medo… de nunca…   … se eu…, de pensar assim: ai, se fosse hoje, eu não escrevia assim, eu escrevi este disparate. Escreveria muito melhor; não era assim que eu daria andamento ao romance. Eu tenho medo disso; já está feito, está feito. Portanto, eu não quero saber. O que está feito, está feito, fica lá e eu fico na ignorância de se está bem ou mal feito.»
(J.M.A.) «A obra dela não é realmente muito extensa. E isso, talvez, esse talvez seja um dos motivos porque ela não é hoje em dia tão conhecida quanto poderia ser ou até diria que deveria…»
(F. Branco.) «Eu não sei, se tem realmente o peso que poderia ter… e que seria se calhar vantajoso para a literatura portuguesa se ela conseguisse se ela tivesse... As Contadoras de Histórias, por exemplo, não é?, é fresquíssimo, é um livro fresquíssimo,  é um livro, realmente, que baralha de novo todos os dados do tempo, da narração, dos narradores, duma forma agora de novo diferente. E de novo com uma genica, com uma frescura, com uma apetência pela escrita, que eu acho que se calhar é pena se não tem o impacto que poderia ter.»
(F.B.) «Eu deveria, precisava realmente de voltar a ler os meus livros para ter uma ideia, para ver e até sobretudo, para ver se gosto da autora.
[Na imagem, com Jorge Sampaio e o presidente da APE, a legenda: 1998 — Fernanda Botelho recebe Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores.]
(Voz masculina, de locutor.) «A consagração de Fernanda Botelho chegou com a atribuição dos mais importantes prémios nacionais. Publicou ao todo quinze volumes, mas nem só de escrita se fazem as linhas de Fernanda Botelho. Traduziu alguns textos importantes, como o Inferno de Dante; e ainda hoje faz crítica literária, para a Fundação Calouste Gulbenkian. Passado mais de meio século da sua estreia literária, Fernanda Botelho continua a ser uma livre pensadora, sem amarras a condicionalismos ou imposições, com a mesma dignidade com que sempre encarou a vida e a literatura, a escritora portuguesa mais vanguardista dos anos 50 é hoje uma defensora da eutanásia, mas não esconde a importância crescente da família nas suas coordenadas. Tal como a obra, também a sua vida se divide em dois universos.»
(J.M.A.) «Dividindo a obra dela em dois, em dois universos diferentes, temos o universo que alguns críticos dizem não existir, não é?, dos sentimentos, do amor, da esperança, e temos o outro, o da diferença, o da angústia e da geometria, em que o universo, onde não há lugar para os sentimentos, porque tudo é geometricamente perfeito.»
(Urbano.) «Ela escreve um pouco a compasso e esquadro, não é!?, mas se alguma coisa vem sobressaltar essa escrita geométrica é sobretudo a ironia mais do que os impulsos líricos.»
(G.A.) «A geometria é aquilo de que mais se em falado, se calhar, na crítica literária, a propósito das obras de Fernanda Botelho. E eu diria que a geometria está presente na arquitectura rigorosa dos romances, mas está presente está presente explicitamente e não só a geometria, a matemática.»
(F. Branco.) «Os manjares são muito geométricos, muito bem, muito bem desenhados, a frase muito bem desenhada, exactamente a poesia dela também é. E eu não considero uma perda, considero um ganho, porque o que se consegue dizer de afectivo por uma escrita, rigorosa, por uma escrita aparentemente nua, é levíssimo.»
(F.B.) «Portanto, a acção vai-se dilatando e se partiu de uma recta, de zero graus, vai subindo até ao máximo, porque todos os livros têm mais ou menos um máximo em que a acção está exacerbada, digamos assim, que são os noventa graus. E a partir desses noventa graus as coisas começam a ser solucionadas e atingem então o outro lado, ao mesmo nível do zero, mas já são cento e oitenta graus.»
[Acompanhando a menção de «zero», «noventa», «cento e oitenta» vai aparecendo, à vez, no ecrã, [0º], [90], [180º].]

(J.M.A.) «Uma imagem que sobressai da obra de Fernanda Botelho, na minha opinião, é a imagem dum círculo, porque temos o primeiro romance, O Ângulo Raso, que forma um círculo quase perfeito, eu digo sempre quase perfeito, porque pode haver outras interpretações, porque uma vez que começa e termina da mesma maneira, com frases quase idênticas, com ligeiras diferenças, e com uma personagem que diz vive uma situação também muito idêntica. E depois, o próprio conjunto da obra volta a traçar essa circunferência, mais uma vez, quase perfeita, uma vez que o ângulo raso do primeiro romance surge de novo ou é invocado no último texto do último livro da autora, os Gritos da Minha Dança

(Voz.)

Ai balancé, balancé, como eu ia alto no meu balancé! Como eu voava, voava…! Tinha cinco anos e acabara de descobrir (por ouvir dizer) que era estúpida ou, pelo menos, pouco inteligente. Mas no balancé ninguém me batia, eu subia mais alto, mais alto, mais alto…

Um ângulo raso desenhado pelas cordas!

Cento e oitenta graus de metafísica!

E até mais ler. [G.M.D., Dança de São Vito, p. 134.] 



(F.B.)

O interlúdio que me resta, a mediania ainda vesperal, o espaço ainda matinal, quero aproveitar tudo ao máximo, no claro-escuro, entre noite-e-dia, no confuso esbatido de cores e de seus contrastes — as vozes dos meus netos, esse quase-tudo que vou perder! É evidente que posso um dia ligar para eles e lhes dizer ao telefone: morri. Mas não lhes ouvirei as lágrimas.
 [G:M:D:, Dança quase macabra, p.24.]

           [Acaba a leitura e olha-nos directamente nos olhos.]



[Imagem: um ramo de árvore atravessa o ecrã, quase deitado, sobre a relva, em fundo verde de árvores. Volta a criança no balancé; o rosto de Fernanda enche agora o ecrã, olha para o alto; depois roda lentamente para a esquerda, dando-nos o perfil do lado direito. Na face, em letras brancas:

Fernanda Botelho

       Escritora]



(FB)

«Olha, agora estou a recordar (?), a …?…?….do céu, está lindo, já viu?»

***
2: Director de Programas                                             Anotação
                                                                                     Marta Marques
Manuel Falcão                                                             Cândida Cancelinha
                                                                                     Sara Pereira
2: Subdirector de Conteúdos                                      Paula Gonzalez
Carlos Vargas
                                                                                     Assistente de Fotografia
2: Subdirector de Programação                                  Miguel Rodrigues
Bruno Santos
                                                                                     Assistentes de Imagem
2: Director de Produção                                               Bruno Pesqueira
Alice Malheiro                                                             João Pedro Protásio
                                                                                     Vasco Silva
2: Produção Delegada
Olga Toscano                                                               Assistente de Som
                                                                                     João Miguel Marques
Fontes Documentais
Arquivos e Documentação RTP                                 Pós-produção Áudio
                                                                                     Samuel Rebelo
Documentalista
Pedro Duarte                                                                Animação 3D
                                                                                     Ricardo Pires Guerra
Direcção Geral Panavideo
Telma Teixeira da Silva                                               Ilustrações
                                                                                      Miguel Lopes
Consultoria / Entrevista a Fernanda Botelho
Joana Morais Varela                                                    Colorista
                                                                                     Pedro Clérigo
Pré-Guião
Jorge Nunes                                                                  Imagem / Direcção de Fotografia
                                                                                      Jorge Afonso
Actriz
Cecília Guimarães                                                         Pós-Produção HD
                                                                                      Miguel Lopes
Voz-off
Sofia Morais                                                                  Jornalista / Guião
Paulo Rocha                                                                   Anabela Almeida
                                                                                      
Figuração                                                                       Realização
Natacha Viana                                                               António José de Almeida
Bernardo Carqueijo
Catarina Carqueijo                                                         Agradecimentos
João Almeida                                                                 Revista Colóquio/Letras – Fundação C. Gulbenkian
Telma Almeida                                                              Gabinete de Estudos Olisiponenses
Rita Gaspar                                                                    Editorial Presença
Luís Relógio
Marco Mercier

Produção                                                                        
Rita Gaspar
Maria de Jesus Carvalho
Maria José Dias


Gravado em
HDCAM
SONY


Panavideo



Uma parceria

       
               2 :


Instituto Português do
Livro e das Bibliotecas

           M/C

 Ministério da Cultura

Produção
Para
2 : 005


2 :

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A fatiação
Divide-se a sociedade em fatias. Hostiliza-se uma das fatias, para o restante aglomerado ficar calmo. A fatia hostilizada pode ainda ser dividida em nova fatia, porque cada fatia é um universo, sempre em cisão.

O bombo da festa
O povo todo, mas a equipa escolhida para mais destaque é constituída por «reformados» e funcionalismo público.

Contratos e compromissos assumidos pelo Estado
O Estado cumpre, cumpre se puder, não cumpre. Neste último caso, impõe-se uma razão forte, o Estado de necessidade a que chegámos e a que não há que fugir. Aplicável a todos, sem excepções, tirando aqueles a quem já se aplica, por defeito, os que já vivem em estado de necessidade. Senão... e com a reforma do Estado só prometida...
P. - Por que razão os contratos com grandes empresas e consórcios são invioláveis?
R. - A lei protege, há tribunais, mercados, deixa de vir dinheiro da troika para pagarmos os juros da dívida que já não conseguimos pagar, acrescendo juros novos das tranches que vamos recebendo, que a seu tempo também não conseguiremos pagar.

***
Tinha mais perguntas, mas ficam por fazer. Pode ver-se nos endereços abaixo opiniões interessantes, para reflexão: guionismo de Estado; não há alternativas...; -  Acho muito bem...; O Governo quântico.

Pro bono
702€x2 (x4) = 5616€


 Do Correio da Manhã, hoje.

Voo da TAP entre Paris e Lisboa
Sócrates e Passos juntos no mesmo avião
. Paulo Pinto Mascarenhas/Rui Pando Gomes

     Passos Coelho e José Sócrates viajaram ontem de Paris para Lisboa no mesmo voo da TAP. Mas enquanto o primeiro-ministro viajou em classe Económica, o ex-líder do PS sentou-se na Executiva. Ficaram separados por três filas. Segundo o site da transportadora aérea, um bilhete da TAP comprado hoje para a mesma ligação (Paris-Lisboa) custaria 165 euros na classe Económica e 702 euros na classe Executiva. O CM apurou que os dois políticos cumprimentaram-se e que Carlos Moedas, secretário de estado adjunto que acompanhou Passos à capital francesa, ofereceu a Sócrates uma cópia do relatório da OCDE. Passos, recorde-se, esteve ontem em Paris na apresentação do documento, ao lado do secretário-geral da OCDE, Angel Gurria (ver pág. 26). Alguns passageiros que seguiam no avião ficaram espantados ao verem o Chefe de escala da TAP ir de propósito despedir-se de Sócrates, “aproveitando depois para cumprimentar também o primeiro-ministro”.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Mais um estudo encomendado a uma alta instância internacional. Ainda há pouco tempo, houve uma encomenda ao FMI.

Duas recomendações faz o relatório da OCDE: acabar com as reformas antecipadas e acelerar a convergência do sistema de pensões público ao do privado, abrangendo nos cortes os actuais pensionistas.

Do Público: «As recomendações constam do relatório Portugal: Reforming the State to promote growth [...] (Portugal: Reformar o estado para promover o crescimento), que o Governo pediu no quadro da reforma do Estado. O relatório é apresentado nesta terça-feira em Bruxelas, na presença do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.»
http://www.publico.pt/economia/noticia/ocde-defende-fim-da-reformas-antecipadas-1594344

domingo, 12 de maio de 2013

      No Público de hoje

      Pensionistas e pensões
        I -- Rosário Gama, a presidente da Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados — APRe! — dá uma entrevista que vale a pena ler: «O Presidente da República devia ter demitido o Governo».

       II --  E a sugestão de Valadares Tavares para cortar despesas no Estado, em valores superiores aos dos anunciados para os «reformados».

I
Maria do Rosário Gama
“O Presidente da República devia ter demitido o Governo”

Rosário Gama, presidente da Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados (APRe!), diz que, neste momento, a esperança dos mais velhos reside em Paulo Portas, ou seja, num desentendimento entre os membros da coligação PSD/PP que faça cair o Governo. 
Por Graça Barbosa Ribeiro (texto) e Adriano Miranda (foto)

Militante do PS, Maria do Rosário Gama ganhou Protagonismo quando, em 2008, se tornou a mais improvável dor de cabeça da então ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues. Procurada pelos jornalistas a propósito do 1.º lugar no ranking da Escola Secundária D. Maria, de que era directora, fez verdadeiros comícios contra o modelo de avaliação dos professores que o Governo socialista estava a impor. Nessa altura, esteve entre os que puseram mais cem mil manifestantes nas ruas. Hoje, a movimento de defesa dos aposentados, pensionistas e reformados. Agora é dirigente da APRe!, uma associação reivindicativa que esteve para se chamar “IRRA” — de “IRRA, que estamos fartos!”

Na última semana surgiram diariamente notícias contraditórias sobre a forma como as novas medidas de austeridade vão afectar os reformados e pensionistas…
Tem sido uma loucura. Matam-nos. Matam-nos mesmo. Preferia pensar que os membros do Governo estão apenas completamente desorientados, que não sabem o que andam a fazer, que esqueceram as pessoas, por só verem números. Isso é gravíssimo, inconcebível. Mas é mais grave, ainda, se para além disso também agirem por estratégia, atacando pessoas já fragilizadas e que estão a viver o quotidiano num insuportável clima de medo, de incerteza e de insegurança em relação ao futuro. Isto é terrorismo social. Não tem outro nome.
Qual seria o interesse do Governo?
Atirar o barro à parede a ver se estamos distraídos? Propor soluções gravosas e, depois, tentar fazer passar outras, dando a ideia de que generosamente cederam? Anular as pessoas, paralisá-las, pelo medo, pelo sentimento de desconfiança em relação ao Estado? Não sei. Se o que aconteceu nos últimos meses é inaceitável, o que se verificou esta semana, desde a intervenção do primeiro-ministro, é inacreditável. Pelo clima que gera mas, principalmente, claro, pelo absurdo das propostas: não temos a mínima dúvida de que a retroactividade aplicada ao corte das pensões dos funcionários públicos é inconstitucional.
Como é que entendeu a postura de Paulo Portas, que, dois dias depois de o primeiro-ministro anunciar a possibilidade de avançar com a contribuição de sustentabilidade sobre as pensões, veio dizer que aquela era uma fronteira que não podia “deixar passar”?
Entender, entendi como uma encenação. Não acredito que o primeiro-ministro não soubesse o que um ministro do seu Governo ia dizer. Mas, para o que interessa, não tenho de entender mais do que isto: perante o que disse o Dr. Paulo Portas, das duas uma: ou caem os cortes (todos os cortes, retroactivos ou não) ou cai o Governo. Qualquer solução nos agrada e, sinceramente, já é a nossa única esperança, não resta a quem apelar.
Está a referir-se ao Presidente da República?
Também. O Presidente da República foi uma profunda desilusão. Depois de o Governo ter tentado, pela segunda vez, fazer passar medidas inconstitucionais, devia ter tomado uma posição política forte. Ele é o garante da Constituição.
Devia ter demitido o Governo?
Devia. Devia ter demitido o Governo. Em vez disso, nas comemorações do 25 de Abril, ainda desvalorizou o acto eleitoral. É uma desilusão. Não há mais nada a esperar deste Presidente da República. Resta-nos que um desentendimento entre os membros da coligação faça cair o Governo.
Nesse cenário, a APRe! aconselharia o voto em quem?
Não aconselharia. A APRe! É uma associação apartidária. Na direcção temos simpatizantes do CDS e militantes do PSD, do PS e do Bloco de Esquerda. Aconteceu por acaso, mas ainda bem que aconteceu.
Tem dito que o poder da APRe! é o poder do voto, que os reformados pensionistas e aposentados são quase três milhões de pessoas, um terço da população, e que gostam de votar. Se não aconselha o voto, como é que esse poder se manifesta?
É um constrangimento, de facto, mas não pode ser de outra maneira. Vamos esclarecer as pessoas. Vamos pressionar os partidos para que assumam compromissos e vamos dar a conhecer os programas aos aposentados, reformados e pensionistas. Depois, cada um vota como entende, de acordo com a sua consciência.
Confia, então, que os partidos cumprirão os compromissos assumidos…
(silêncio)
Não confia?
Não. Sinceramente, neste momento e de uma forma geral, não. Custa-me dizer isto. Sou democrata e não há democracia sem os partidos. Mas as promessas não cumpridas, os sacrifícios impostos e não justificados, o afastamento em relação aos cidadãos, tudo isso tem contribuído para a perda de credibilidade dos partidos e mesmo dos sindicatos, muito conotados com os partidos. Aliás, a isso não será alheio o aparecimento e a capacidade de mobilização dos movimentos cívicos. A APRe! juntou pessoas de todos os partidos, mas também pessoas que nunca se juntariam a uma organização partidária ou a uma organização sindical.
De que valem, então, os compromissos que vão exigir?
Temos de agir como se valessem, não podemos desistir, isso seria pôr em causa a democracia. Os partidos é que têm de se renovar, de se credibilizar.
Há alguma possibilidade de a APRe! evoluir para um partido político?
Não. Isso não. Não, com toda a convicção — seria o desmoronar da APRe!, uma associação apartidária.
Está satisfeita com a oposição?
Naturalmente que sim, em relação ao PCP, ao Bloco de Esquerda, aos Verdes, à CGTP e, mais recentemente, esta semana, e em particular, com a posição assertiva dos dirigentes do PS e da UGT.
Estará na altura de acabar com a alternância dos chamados partidos do “arco do poder”?
(silêncio) Não devo pronunciar-me sobre isso.
Por ser militante do PS?
Não, por ser dirigente da APRe! E porque é muito mais importante o que na APRe! nos une do que aquilo que eventualmente nos possa desunir.
Já houve quem sugerisse que o facto de ser militante do PS descredibiliza a associação…
A situação não podia ser mais transparente. Sou militante do PS, sim, e do ponto de vista ideológico sou socialista. Mas já dei provas de que nem me deixo instrumentalizar nem me deixo tolher pelo partido. Penso pela minha cabeça e digo o que penso.
Está a falar da oposição ao Ministério de Educação de José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues?
Sim. Na qualidade de directora da Escola Secundária Infanta D. Maria fui uma das dinamizadoras da contestação às medidas da ministra. Luto por convicções — todos os que fazem parte da APRe!, aliás, o fazem.
Quantos são e quem são os associados da APRe!?
Somos uma associação muito recente. A primeira reunião, convocada por e-mail, foi em 22 de Outubro. Neste momento já temos mais de 4000 associados pagantes (cobramos 12 euros de quota anual) e a tendência é de crescimento. Quem somos? Somos a geração dos que que lutaram contra o fascismo, a dos que fizeram a Guerra Colonial, a que tem mais formação académica, a primeira em que as mulheres tiveram uma carreira contributiva completa. Pessoas que assumiram compromissos adequados àquilo que tinham descontado para as reformas e aos quais agora não conseguem responder; pessoas que têm os filhos, desempregados, a regressar a casa dos pais, com as respectivas famílias; pessoas, nalguns casos, sobreendividadas, pessoas aterrorizadas face à perspectiva de mais cortes.
Está a falar de uma franja de uma geração.
Sim, pode dizer-se que é uma franja. Mas é uma franja com capacidade e vontade de lutar pelos direitos de todos os pensionistas e reformados.
Esse desejo de abrangência aplica-se aos membros do Movimento dos Reformados Indignados?
Estou a falar das pessoas com reformas baixas, as que não têm Internet, as que vamos contactar através das associações recreativas e das juntas de freguesia. Esse grupo de que está a falar é o das reformas milionárias, que são uma afronta a quem vive numa situação de miséria.
As pessoas desse grupo não têm direito às suas reformas?
Têm, o problema está a montante. Mas a questão é outra. Olhe, gosto muito de siglas, deixe-me pôr a coisa assim: esse movimento foi muito conveniente ao Governo para, demagogicamente, fazer crer que, ao dar-nos razão, o Tribunal Constitucional estaria a proteger reformas elevadíssimas. Chamo ao MRI o Movimento que o Relvas Inventou. Gosto muito de siglas.
Tanto quanto sei a sigla da APRe! nasceu antes do movimento…
Sim. Na verdade, preferia IRRA! Mas depois ficava Indignados Reformados Revoltados Aposentados, era uma grande confusão. Lembrei-me de APRe — Aposentados, Pensionistas e Reformados — com o ponto de exclamação, que é essencial. Diz o que interessa, que é “basta!”. Dizemos basta nos tribunais e dizemos basta na rua.
Onde andavam os membros da APRE! que agora vemos nas manifestações?
A sofrer em silêncio. Recebemos mensagens e pedidos de ajuda emocionantes e impressionantes. E damos resposta. Apesar de não termos um cariz assistencialista, temos voluntários — juristas, médicos, psiquiatras, assistentes sociais — que tentam responder às necessidades dos outros associados. Respondendo à pergunta, andávamos todos por aí, mas ninguém nos via.
Disse, há dias, que estavam dispostos a vir para a rua. Que tipo de acções vão organizar?
Não posso dizer, para não perderem o impacto.
A Grândola, na Assembleia da República, teve impacto…
Devia ter tido mais. Não percebo por que é que não foi noticiado o que aconteceu, contei aos jornalistas a humilhação que tínhamos sofrido e nada foi noticiado.
Está a referir-se a quê?
À humilhação a que fomos sujeitos antes de entrar na Assembleia da República. Um escândalo. Tínhamos decidido levar vestidas as nossas T-shirts, que têm escrito “APRe Não somos descartáveis”. A ideia era, à saída das galerias, tirarmos os casacos ou as camisas e mostrarmos as T-shirts, como forma de protesto. Mas terei sido ingénua quando fiz a sugestão por email para todos os associados. Os seguranças fizeram-nos entrar quatro a quatro: aos homens mandaram tirar as camisas, às mulheres levantar as camisolas ou os casacos. E obrigaram-nos a tirar as T-shirts — disseram que não seríamos autorizados a entrar se não o fizéssemos.
E aceitaram isso?
Protestámos. Uma pessoa recusou-se a tirá-la e levou-a. Eu fui à casa de banho e enrolei- a na cinta, por baixo das calças, por isso consegui mostrá-la. Mas não há direito. Foi uma humilhação brutal. Estamos a falar de idosos: imagina como se sentiram as senhoras a levantar a roupa e a mostrar o corpo? E entrarem com um casaquito por cima do soutien? Estávamos a ferver de raiva. Aliás, nem sequer tínhamos planeado cantar a Grândola. Foi um grito de revolta que um de nós soltou e os outros seguiram-no.
Percebeu quem deu a ordem para que vos revistassem?
Não. Sei que tivemos de deixar as carteiras, os telemóveis, tudo. E ao mesmo tempo entraram grupos de alunos, de estudantes, de mochilas às costas. Depois, ainda tivemos de ouvir a senhora presidente da Assembleia da República expulsar-nos e dizer que o que estávamos a fazer não ajudava à democracia. Cantar a Grândola não ajuda à democracia? Humilharem-nos à entrada na nossa casa — que aquela casa é a casa do povo — é que não ajuda à democracia.
Dirigiu uma carta à presidente da Assembleia da República a protestar contra essa afirmação e contra a expulsão. Por que é que não referiu o episódio das T-shirts?
Não tenho uma boa razão para isso. Era o que devia ter feito. Aconteceram muitas coisas e o facto de termos sido expulsos acabou por se sobrepor ao episódio anterior. Mas devia tê-lo feito.
Chegou a receber resposta ao protesto pela expulsão?
A senhora presidente da Assembleia da República respondeu, sim, mas não disse nada que justifique a sua atitude e terminou a carta com um incompreensível “conto convosco”. Conta connosco para quê? Não percebo. Nós não contamos com ela.

II
          Como evitar
       o corte nas pensões
       Opinião
       L. Valadares Tavares
      O Orçamento do Estado é, em qualquer Estado moderno, o seu principal instrumento de governação, pelo que deve ser preparado, verificado, negociado e aprovado antes do início do ano para que possa estruturar as políticas e actuações governativas, inspirar confiança nos mercados e nos agentes económicos, ajudando estes a planear os seus investimentos e a programar as suas acções.
      Portugal viveu nos primeiros tempos de democracia dificuldades graves de aprovação orçamental, vivendo-se no “regime dos duodécimos” com custos acrescidos para todos, mas nas últimas décadas passou a dispor de orçamentos aprovados atempadamente, embora não executados correctamente, pois em quase todos os exercícios foi necessário aprovar rectificações orçamentais, a partir do 2.º semestre, e ainda não se concluiu qualquer ano com saldo positivo!
      Infelizmente, no ano de 2013, Portugal regressa às dificuldades passadas, estando-se já em Maio sem saber qual o orçamento que vigora em 2013, o que resulta, não de dificuldades de aprovação na AR, mas sim da dificuldade de construção pelo Governo de propostas orçamentais que respeitem a Constituição
      Com efeito, as recentes declarações governamentais sobre eventuais propostas de alterações orçamentais, frisando-se que “está tudo em cima da mesa”, parecem indiciar um clima de brain storm, talvez útil numa fase muito preliminar de preparação do orçamento — a qual deveria ter ocorrido no Verão passado, mas certamente nunca em Maio do próprio ano. Este experimentalismo orçamental, ainda por cima, novamente, baseado em opções com elevada probabilidade de virem a ser consideradas inconstitucionais por quem tem competência para tal juízo – o Tribunal Constitucional –, lança o país em acrescida incerteza, aumentando a sensação de insegurança em todos os agentes económicos, especialmente consumidores e, por consequência, também nos investidores já que estes planeiam os seus desenvolvimentos em função da procura.
      Como exemplo, cenarizar novos cortes nas pensões, neste caso do sistema público, e com efeitos retroactivos (!), agudiza o pânico em centenas de milhares de consumidores que dispendem a quase totalidade do seu baixo rendimento disponível médio e gera imediata retracção no seu consumo. Ou seja, é a melhor forma que o Governo podia encontrar para acelerar a espiral recessiva, aumentar o crescimento do desemprego e retrair possíveis investimentos futuros.
      Importa agora compreender que a aflição orçamental que vem sendo vivida pelo Governo e pelo país se relaciona, principalmente, com a necessidade real de reduzir a despesa pública, o que exige, como é evidente, que os decisores conheçam muito bem a complexa máquina geradora de despesa mas, infelizmente, as evidências indiciam o oposto, pois, se assim não fosse, como compreender a convicção, rapidamente malograda, de que seria pela fusão de algumas entidades que se faria a reforma do Estado (2011e 2012)?
      Ora todas as análises comparativas feitas mostram que o nosso sistema público é dos mais complexos, pois inclui cinco administrações públicas com histórias, lógicas e quadros legais e regulamentares bem distintos: a Administração Directa (direcções-gerais), desenhada pela Reforma de 1935, as Administrações Regionais e Autárquicas, surgidas nos anos 1970, a dos Institutos Públicos (serviços e fundos autónomos), muito expandida nos anos 1980, a das Empresas Públicas (década de 1090) e a das parcerias público-privadas, já deste século.
      Eis por que quem nunca viveu a experiência de administração pública ou não a estudou tende a formar percepções erradas e a não conseguir controlar a própria despesa tal com os factos evidenciam. Talvez o melhor exemplo deste desconhecimento seja pensar que o principal problema da despesa pública seja o montante pago em salários e em pensões quando aqueles já estão aquém da média europeia e abaixo dos 10%. Pelo contrário, toda a soma das despesas contratualizadas com outras entidades (investimentos, bens, serviços e consumos intermédios) totaliza cerca de 17% do PIB, pelo que gerar aí uma poupança de 10% significa poupar quase 2% do PIB.
      Infelizmente, esta componente da despesa pública não tem vindo a ser analisada ou controlada pois, senão, como compreender que a despesa com aquisições de bens e serviços dos institutos públicos tivesse aumentado mais de 10% em 2012, no ano de todos os cortes em salários e pensões, segundo os próprios dados do Ministério das Finanças? Ou compreender o aumento de mais de 50% desta rubrica na Administração Regional da Madeira? Quais os esclarecimentos do Governo sobre este descontrole?
      Na verdade, urge não só rever toda a fundamentação desta vasta gama de despesas como também aumentar a sua transparência e eficiência. Para tal, uma das medidas mais evidentes consistirá em substituir a esmagadora maioria actual de ajustes directos, opacos, e evitando a competitividade e transparência, por procedimentos electrónicos, abertos a todos os potenciais fornecedores, o que, segundo dados recentes, permitirá reduzir a sua despesa em mais de 10%.
      Atendendo a que o primeiro-ministro convidou à apresentação de propostas alternativas ao corte das pensões, aqui fica a primeira sugestão: reduzir a despesa nas aquisições de bens e serviços dos institutos públicos, das regiões, das empresas públicas em 10%, o que irá gerar uma poupança superior à necessária, potenciando a contratação electrónica e compensando os aumentos inacreditáveis que ocorreram em 2011 e 2012.
     Professor catedrático emérito do IST, ex-presidente do INA e presidente da APMEP



«De», «da» e coisas do género. Ou Valentim Loureiro a correr os 100 metros livres e a Justiça a correr os 100 metros barreiras.

Todos estamos lembrados do lapso ocorrido no Diário da República, com a correcção para «da» de um «de» que lhe tinha sido enviado pela Assembleia da República. E de como à proposta para aclarar as preposições, feita àquele órgão de soberania, não foi dada importância, como se não houvesse tempo para insignificâncias?... O «de» parece que impedia os presidentes de Câmara que atingiram o número limite de mandatos de se candidatarem, de novo. O «da» permitia-lhes continuar, se ganhassem, a presidir noutra edilidade. Se não era o «de», era o «da» e se não era o «da», era o «de».
A substância da questão vertida na lei – ser bom para a comunidade o limite de mandatos – ficou reduzida a zero. E nós todos ficamos a olhar.
Outra redução a zero vem noticiada na edição de hoje do Público. Faz lembrar a célebre aporia de Zenão de Eleia, filósofo da antuiguidade grega. Dizia ele que o movimento era impossível. A tartaruga jamais seria alcançada por Aquiles, porque quando ele chegasse ao lugar de onde ela tinha partido, já ela estaria mais à frente e chegado ele a esse mais à frente, a tararuga teria avançado. O espaço entre ambos ia-se dividindo. Antes de percorrer metade da distância que os separava, a tartaruga avançaria. Antes de Aquiles percorrer nova metade, a metade que houvesse em cada momento, a tartaruga avançaria. Vemos Aquiles a ficar paralisado. E a tartaruga?
No caso que nos trouxe a esta história, Valentim Loureiro é a tartaruga e a Justiça é Aquiles.


Valentim Loureiro perdeu mandato autárquico anterior



Justiça
A Relação do Porto decidiu que o
mandato autárquico perdido por Valentim
Loureiro na Câmara de Gondomar,
no âmbito do processo Apito
Dourado, é o da data do acórdão de
primeira instância e não o actual.
A defesa do autarca confirmou a informação
à agência Lusa, mas acrescentou
desconhecer pormenores,
por não ter sido ainda notificada.
O caso Apito Dourado foi julgado
no tribunal da comarca de Gondomar
em 18 de Julho de 2008. Embora
o processo se centrasse em corrupção
associada ao futebol, Valentim
Loureiro foi condenado também por
um crime de prevaricação, que lhe
valeu uma pena suspensa — entretanto
convertida em multa pela Relação
do Porto — e uma pena acessória de
perda de mandato.
Depois de o Tribunal Constitucio-

nal ter negado qualquer inconstitucionalidade
nas condenações do
Apito Dourado, o Ministério Público
veio confirmar, através de uma
informação da Procuradoria-Geral
da República de 20 de Setembro de
2012, que o acórdão que decretou a
perda de mandato de Valentim Loureiro
na Câmara de Gondomar iria
ser executado “brevemente”, ainda
que realçasse que estavam pendentes
questões suscitadas por este e outros
arguidos.
O Ministério Público entendia que
o mandato a declarar perdido seria o
da altura de trânsito em julgado do
acórdão, ou seja, o actual mandato. A
defesa de Valentim Loureiro acabou
por recorrer para a Relação, sustentando
o entendimento de que, a ser
confirmada a declaração de mandato
do autarca, esta deveria incidir no da
data do acórdão de primeira instância,
o que anularia o efeito prático
da decisão.
 Público, 12-5-2013

       E todos nós ficamos a olhar.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

      Federalismo ou talvez não

      Federalismo não queria eu, aí por 1990, quando ouvi a um colega de profissão opinião favorável a essa maneira de organização política. Federalismo é coisa para povos com território constituído por estados, governadores, uma capital federal e governo superintendendo em todo o país, com competências legislativas definidas.
      Não espero ver um estado federal europeu, em que os povos se diluam, mas qualquer coisa parecida fazia sentido. Quer dizer que o caminho (se não sairmos do euro e outros ses) está em estruturas que mais parecem de estado federal, como o Mecanismo Europeu de Estabilidade, uma política de defesa comum... Ia continuar, mas vejo que tudo se complica.
      É estranha, de facto, a presença do FMI no seio de um problema (o nosso programa de assistência financeira) da União Europeia.
      Isto tudo para dizer que dos seis destaques que o Público, hoje,  apresenta aos que o lêem electronicamente escolhi «Modelo da troika tem de ser alterado mas não já, diz BCE». Traz umas verdades que parecem óbvias:

            O modelo de socorro aos países em crise tem de ser mudado;
            a União Europeia tem de ser posta no centro do processo (saindo o FMI);
            o Mecanismo Europeu de Estabilidade terá de se tornar uma instituição plena.

      Menos se percebe, quando Jörg Assmussen diz do actual modelo: «a longo prazo temos de o mudar». 

       Respondia a uma pergunta da eurodeputada socialista portuguesa, Elisa Ferreira.
      http://www.publico.pt/economia/noticia/modelo-da-troika-tem-de-ser-alterado-mas-nao-ja-diz-bce-1593715

segunda-feira, 6 de maio de 2013

      Gostei de ler

      Gostei de ler. É também preciso haver estadistas, o que no geral não se vê, a começar por cá; desses que conseguem convencer, fazer acreditar...

http://www.publico.pt/economia/noticia/fundador-do-euro-pede-fim-da-moeda-unica-para-deixar-o-sul-recuperar-1593476

domingo, 5 de maio de 2013


      Sugestão

      Uma boa sugestão de MEC, onde se compara Louis Armstrong e Picasso.
       Para ler, seleccionar o endereço, abaixo. Clicar no botão direito do rato; escolher: go to http:    …    …    …

       http://www.publico.pt/opiniao/jornal/o-genio-da-musica-26478386

         Para reflexão

      Hoje, domingo, um belo dia de sol. No café da aldeia, cheio de gente, estou um bocado a ler o jornal do dia, invariavelmente o Correio da Manhã, que ocupa hoje o lugar em tempos preenchido pelo Século

      Em casa, selecciono do Público: «A ditadura do medo», de Frei Bento DominguesUm ir mais além, numa igreja com todos, perdido o medo, libertada a energia criativa do amor. Da Doutrina Social dos Papas, se chegará, mais consistentemente, à Doutrina Social da Igreja, aproveitando um leque mais alargado de contributos da investigação.
             PARA LER: seleccionar o endereço, abaixo; com o botão direito do rato, clicar e escolher: «go to http:    ...    ....»

          http://www.publico.pt/opiniao/jornal/a-ditadura-do-medo-26478382