sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Évora, recentemente - Nossa Senhora de Machede

25-12-2014
Íamos para ir ao Pompeu, passe a redundância, ao fim da tarde. O Pompeu estava fechado. A gerência deve ser outra de há quarenta anos. Há quarenta anos, o senhor também já não se devia chamar Pompeu. Adiante. Certo é que houve um dia um Pompeu, que deu o nome ao agradável restaurante-cafezinho, a poucos quilómetros de Évora, no caminho de Redondo. Já vai ficando distante, mas não é preciso recuar até Roma, ao adversário de César na guerra civil; para os que conheceram o Pompeu (restaurante), com ou sem Pompeu (o senhor Pompeu), o Pompeu será sempre o Pompeu.
Íamos para ir ao Pompeu, estava fechado. Continuamos… «Vamos a N. Sr.ª de Machede!» E assim foi. Na altura própria, vira-se à direita, o condutor leva-nos calmamente, fartura de campo à volta, a uma destas freguesias aonde só vai quem quer ou precisa de lá ir. Não é terra de passagem. Ali, está-se ali. N. Sr.ª de Machede tem um motivo que atrai algumas pessoas, ao menos, uma vez; a especialização no fabrico de capotes. Quem quiser capote feito por medida, desloque-se a esta aldeia do concelho de Évora.
Se for íntimo de Évora, certamente encontrará alguém conhecido em Machede (N. Sr.ª). Ao fundo da Rua Eng.º Sebastião José Perdigão, entramos e ficamos algum tempo no café da esquerda. Há outro, na faceira oposta da rua e, ainda, um terceiro na Rua 25 de Abril. É só contornar pela esquerda o largo da Casa do Povo e avançar alguns metros.
Ao passar, à direita, vamos lendo: Travessa dos Banhas, Travessa do Lavadouro, Travessa Catarina Eufémia.
A artéria principal, possa embora ter vários nomes, leva-nos até à igreja, daí ao Largo da Casa do Povo. Depois de alguma pesquisa, vim a conhecer nomes atribuídos a ruas e largos, que, no seu conjunto, sem esquecer D. Gertrudes d’Almeida Marghiochi, lembrada em monumento, são uma amostra da sensibilidade social, política, humana da gente de Machede (N. Sr.ª) nas últimas décadas:

Rua de Évora, Rua da Tenda, Rua Soldado Joaquim Luís, Rua Engenheiro Sebastião José Perdigão, Largo da Casa do Povo, Travessa dos Banhas e Travessa do Lavadouro, Largo Doutor Bento de Jesus Caraça, Rua 5 de Outubro, Rua 1.º de Maio, Rua do Depósito, Travessa da Cooperativa, Rua da República, Travessa do Rosário, Rua Luís de Camões, Rua da Fábrica das Peles, Travessa das Figueiras, Travessa 31 de Janeiro, Travessa da Igreja, Travessa do Morgado, Rua Barbosa du Bocage, Travessa 2 de Abril, Travessa do Sargaço, Travessa das Pedras, Beco do Saraiva, Travessa das Ladeiras, Travessa do Olímpio, Rua Empresário Joaquim Pedras Maximino, Rua Manuel Josefo, Travessa das Parreiras, Rua Norton de Matos, Rua Zeca Afonso, Rua José Joaquim Isidro Tanganho, Travessa Francisco Furtado, Travessa dos Amores, Travessa Catarina Eufémia, Travessa do Peixe.

Simplificando: a estrada municipal n.º 526, a certa altura, transmuta-se em Rua de Évora, que entra pela povoação até à igreja de Santa Maria de Machede, no Largo Doutor Bento de Jesus Caraça. A via continua, com o nome do Eng. Sebastião José Perdigão, até ao Largo da Casa do Povo. Daqui derivam, à esquerda, a Rua 25 de Abril; à direita, a Rua Soldado Joaquim Luís.

*
A D. Gertrudes d'Almeida Margiochi e ao Engenheiro Sebastião José Perdigão
Machede presta homenagem, com monumento,  no Largo de Bento de Jesus Caraça e no Largo da Casa do Povo, respectivamente

1. Gertrudes d'Almeida Margiochi
Comecemos por ler a inscrição no mármore da placa afixada no monumento que foi erigido à sua memória: 
A D. GERTRUDES
D'ALMEIDA MARGHIOCHI
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 MACHEDE,
RECONHECIDA PELA OBTENÇÃO
DAS COURELAS,

DEDICA ESTE MONUMENTO.

Para conhecer um pouco desta senhora, ver, aqui, algo da sua ligação familiar. Quanto ao processo de «obtenção das courelas», podemos aprender nas páginas disponibilizadas desta edição do Ministério da Agricultura / Junta de Colonização Interna, 1938: PARCELAMENTO DAS HERDADES DO MONTINHO E GRAMACHA, particularmente as páginas 7 e 8, sobre «um caso de divisão e subsequente arrendamento das glebas», que é justamente o caso de Machede.

2. Sebastião José Perdigão
Grande proprietário rural, teve lugar na administração do Grémio da Lavoura, como se pode ver em estudo na Revista Análise Social* Algumas reflexões sobre a liquidação dos grémios da lavoura do Alentejo e Algarve e respectivas federações, p. 539 e 541; pertencia à élite dirigente. A sua importância social foi-me primeiro revelada, através do que li, há uns anos, sobre a Missão Internacional de Arte, que levou a Évora durante quarenta dias artistas nacionais e estrangeiros. Deviam ir conhecendo a realidade alentejana e foram organizadas visitas e convívios, para os ajudar nesse objectivo. Os trabalhos, entretanto realizados e inspirados na experiência alentejana, foram expostos no MUSEU REGIONAL DE ÉVORA. Houve polémica, escândalo ou pessoas escandalizadas, «Escândalo no Museu?...»**, titulava o «dom QUIXOTE» — SUPLEMENTO LITERÁRIO DO «JORNAL DE ÉVORA». O articulista (artigo não assinado) informava das duas apreciações em confronto: arte mais ou menos compreendida, mais ou menos convencional e uns mamarrachos inacessíveis ao gosto de muita gente, arte dita moderna, abstracta. Apresentava, a seguir, as três perguntas de um inquérito e as respostas que lhe foram dadas por: Eng.º Júlio dos Reis Pereira, P.e Alves Gomes, Túlio Espanca, Dr. Vergílio Ferreira e Dr Alberto Miranda. Vergílio Ferreira teve uma polémica famosa, substancial, servida pelo seu génio literário, com Carlos da Maia (pseudónimo), este nas páginas de A Defesa, e o autor de Aparição, no Jornal de Évora.
Fique para outra ocasião a Missão Internacional de Arte, promovida por Júlio Resende e organizada pelo Grupo Pró-Évora. Teve grande eco nos vários jornais da cidade. Aqui, queremos apenas referir a pessoa do Engenheiro Perdigão (e o filho) e Machede, o seu povo e cantadores, na relação com o importante evento.
O Eng. Sebastião Perdigão pertenceu ao grupo organizador da Missão Internacional de Arte (Dr. António Bartolomeu Gromicho, Arq. Raul David, Eng. Sebastião Perdigão, Dr. Leitão da Silva e Dr. Carvalho Moniz).
___________
*Análise Social, vol. XV (59), 1979-3.º, 525-609.
** A exposição foi inaugurada, no dia 4 de Outubro de 1958.

*
FESTA TÍPICA NUMA ADEGA REGIONAL EM ÉVORA
[…]
Dirigiu a visita o activo e dedicado director do Grupo Pro-Evora, sr. arquitecto Raul David. O sr. eng. Sebastião Perdigão e seu filho sr. dr. Armando Perdigão, sempre na vanguarda e prontos a colaborarem e auxiliarem todas as boas iniciativas em prol da cidade de Évora e seu termo, ali estavam, acompanhados de um grupo de quatro cantadores do Coral de Machede, que deliciaram a assistência com a sua exibição impecável e magnífica.
[…]
Parabéns, parabéns ao Grupo Pro-Evora e louvores àqueles que, como os nossos amigos eng.º Perdigão e filhos, Francisco Caeiro, capitão Infante, dr. Alberto Silva e outros que marcam com distinção nas suas profissões, mas que ao mesmo tempo têm o sentido da verdadeira vida, cultivando o amor pela Arte com o amor e e dedicação pela terra alentejana, que procuram engrandecer colaborando em todas as boas iniciativas tendentes a valorizá-la e a propagandeá-la.
(NE, Domingo, 14-09-1958) [A descrição merece ser dada a conhecer na íntegra, incluída num tratamento mais abrangente do que foi a M. I. A.]
Missão Internacional de Arte
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Ontem, os componentes da Missão Internacional de Arte que se encontra entre nós, foram a convite do Grupo Pró-Évora, visitar Vila Viçosa, passando por Reguengos, Terena e Nossa Senhora da Boa Nova.
No próximo domingo, 21, o lavrador sr. dr. Armando Perdigão oferece na sua propriedade no Monte do Bussalfão, em Machede, uma festa regional dedicada aos nossos visitantes.
Pata todas estas realizações o Notícias d’Évora tem sido convidado o que registamos e agradecemos.
(NE, Sexta-Feira, 19-09-1958)
FESTAS
Em N. Sr.ª de Machede
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Realizam-se, nos próximos dias 21 e 22, as tradicionais festas de N.ª Sr.ª de Machede. Do programa fazem parte, além das habituais solenidades religiosas com missa cantada e procissão, duas touradas à vara larga, arraial com quermesses, bailes populares, concertos de música pela Banda da Casa do Povo desta freguesia e um deslumbrante fogo de artifício.
A receita destas festas destina-se a obras de assistência da Freguesia e ao Hospital do Cancro a construir em Évora. Deste modo, Machede vai marcar a sua presença ao lado dos corações bons da nossa terra.
A Comissão Organizadora dos Festejos não se tem poupado a esforços para que tudo resulte bem e conta já com algumas ajudas importantes.
Os ilustres artistas da Missão Internacional de Arte, hóspedes do Grupo Pró-Évora, visitam estas festas para melhor apreciarem o colorido, a beleza e o asseio duma das mais lindas aldeias do nosso Alentejo. Durante esta visita os simpáticos artistas estrangeiros e nacionais vão conhecer melhor o Povo trabalhador, a herdade e o «Monte» alentejanos porque a convite do lavrador sr. dr. Armando Perdigão, grande amigo de Machede, deslocam-se ao Monte do Bussalfão, onde lhes será servido um almoço regional e onde tomarão contacto com a vida e as dependências deste importante Monte Alentejano.
Por tudo isto, é de esperar que as Festas de Machede tomem este ano um vulto nunca igualado.
Ajudemos portanto a Comissão Organizadora destas simpáticas Festas para que a embaixada de Arte que vai visitar Machede aprecie as belezas da nossa Província e a generosidade dos corações alentejanos.
«Todos os que podem em favor dos que precisam» continua a ser a divisa que temos de viver neste nosso Cortejo de Oferendas, de Alegria e de Arte para bem do nosso querido Alentejo que querermos cada vez mais progressivo e mais rico.
***
Da nossa cidade partem várias automotoras para os eborenses que desejarem assistir a estas festas, com a certeza de que em Machede são sempre bem recebidos como já é tradicional.
(NE, Sexta-Feira, 19-09-1958)
 *


Igreja de Santa Maria de Machede
O orago é N. Sr.ª da Natividade


Na parede do barracão ao fundo lê-se «Travessa dos Banhas»







A D. GERTRUDES
D'ALMEIDA MARGHIOCHI
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 MACHEDE,
RECONHECIDA PELA OBTENÇÃO
DAS COURELAS,
DEDICA ESTE MONUMENTO.


À direita, na placa, Travessa do Lavadouro

JUNTA DE FREGUESIA DE N.ª Sra. DE MACHEDE
Parece servir, também, de posto de correio




Na casa da direita: «Travessa 31 de Janeiro»




AO ENG.
SEBASTIÃO JOSÉ PERDIGÃO
HOMENAGEM DO POVO DE N. SRA. DE MACHEDE
1969


Na imagem, assinalado o Monte de Bussalfão, propriedade do Eng. Perdigão

HISTÓRIA ADMINISTRATIVA/BIOGRÁFICA/FAMILIAR
Também foi denominada Santa Maria de Machede e, mais tarde, Nossa Senhora da Natividade de Machede.
Sabe-se que a sua origem vem de épocas remotas, existindo já no tempo dos Godos, pois diz-se que foi erigida em Paróquia no ano de 672, em que governava o Rei Godo Wanda.
A sua área englobava as actuais Freguesias de S. Miguel de Machede e de S. Bento do Mato, formando uma só Freguesia. Não se sabe ao certo o ano em que se desmembrou de ambas, formando uma Paróquia independente (possivelmente no séc. XVI).
A Freguesia era curado da apresentação do Arcebispo de Évora, no termo da mesma Cidade, passando depois a Priorado.
Foi antiga Comenda da Ordem de São Pedro.
Integra-se nesta Freguesia a extinta de São Vicente de Valongo.
O orago é Nossa Senhora da Natividade.
[...] (Daqui.)

2 comentários:

  1. São tantas as bonitas aldeias que podemos encontrar por esse Alentejo...!!!
    Gostei de conhecer Nossa Senhora de Machede..., aqui, em fotografia...!!!
    Mas hei-de lá ir.....!!!
    AG

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  2. Depois de tudo, tinha, ainda, uma fotografia fora de ordem e logo a primeira.
    Como estará agora a Herdade do Bussalfão? Mais ou menos industrializada, uma sociedade por quotas... Também não a conheci, antes. De qualquer modo, há muitas aldeias bonitas. Quanto a Bussalfão, desde que li este nome, fiquei encantado. É como Itapuã. Gostava de saber a etimologia, mas não tenho meio de saber ao certo.
    Agora que vou mais vezes a Évora, gostava de ir conhecendo também as freguesias rurais.
    JL

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