sábado, 25 de abril de 2015

O Santuário de Nossa Senhora d'Aires

2 de Abril de 2015, Quinta-Feira Santa
Viana do Alentejo
Chegámos mais ou menos à hora do almoço. Almoçámos no café-restaurante Rotunda, no largo do chafariz, com os edifícios da Misericórdia, em frente. O nome do largo: Rossio das Hortas. É dali que parte a Rua António José de Almeida.
Almoço – sopa de feijão com abóbora muganga, meia dose de iscas com batatas cozidas, para os dois; meia dose de filetes de pescada, para os dois; sobremesa (manga) e café. No final, licor de poejo, oferta da casa, bom para limpar – diz o responsável que nos serviu, com simpatia natural. No café, têm pastel de feijão e folar (padinha).
Depois da visita ao castelo, descemos calmamente a Rua Cândido de Oliveira, passámos pela Praça da República e dirigimo-nos ao santuário de Nossa Senhora d'Aires.
No caminho para lá, passamos por duas hortas, à nossa esquerda: a Horta da Mourranzina e a Horta das Caixinhas. A primeira tem um forte muro branco, portão que deixa ver um largo espaço de entrada. Casa grande, boa construção moderna. A horta seguinte, também com habitação, confina com a Alameda dos Romeiros, em volta do santuário. É uma área desafogada de terreno verde, antes de se chegar à horta propriamente dita. Estas duas hortas recebem o nome de tempos mais antigos. Impressiona a retina e o ouvido do visitante a vista da palavra «hortas», lida em vários lugares e ouvida por leitura mental. Deve ser terra de muitos aquíferos. Nesta altura primaveril, a natureza veste-se de verde. É no Alentejo, pois então. apetece dizer: Viana do Alentejo, terra de hortas...
À volta da igreja, no raso do campo, predomina o arroxeado dos lírios silvestres.
A entrada na nave foi muito breve, sem entrar no altar-mor nem ver os ex-votos deste santuário de Nossa Senhora d’Aires, a uns 2000 metros da vila.
Vim a saber, em Montargil (o meu destino do dia), que o Coro da Academia de Amadores de Música cantava
A Senhora d’Aires
De ao pé de Viana
Tem o seu altar
Tem o seu altar
Feito à romana

com arranjo de Fernando Lopes Graça.


Na interpretação do Coro Sinfónico Lisboa Cantat, ouçamos a beleza e como primazia das vozes femininas e a limpidez, precisa, em tom suave, mas audível das vozes masculinas. Perfeita harmonia.
Repetindo as audições:

A Senhora d'Aires
De ao pé de Viana
Tem o seu altar
Feito à romana

A Senhora d'Aires
De ao pé de Viana
Tem o seu altar
Feito à romana

Tem o seu altar
Feito à romana
A Senhora d’Aires
De ao pé de Viana

Tem o seu altar
Feito à romana
A Senhora d’Aires
De ao pé de Viana



Duas vozes femininas



Todos (mal se percebe os baixos)




Duas vozes masculinas




Todos (melhor se percebe os baixos. Na sílaba final do quarto verso, «na», no remate da canção, os baixos afirmam-se um pouco mais).

 O que disse supõe um ouvido um pouco desatento. Sendo «todo ouvidos», percebe-se e isola-se todas as vozes. Todavia, a impressão inicial, talvez por lhes caber a entrada, digo, mas não estou convencido disso, a voz feminina, em geral, e, especialmente, a soprano, parece ser a guia, a que mais nos leva e enleva. Ao cabo de tudo, todos cantam e contam. É a perfeita harmonia.










(Clique na pauta, para melhor definição.)
Não deixe de ver mais duas versões de A Senhora d'Aires, especialmente o texto e o cante do Grupo Coral Os Almocreves, da Amieira, Portel. De uma religiosidade sincera, límpida, respeito pela natureza (e sentido da vida, da mocidade), como nos tempos de fé. Túlio Espanca, aqui? A evocação da mãe é comovente. Já há a saudade futura da mãe que se vai perder. É pressentida a saudade, pela falta. A Virgem como toma o lugar. As duas mães confundem-se. Estão as duas no céu, estiveram as duas na terra. Continuam na terra, confundem-se.
Sente-se o sagrado da natureza, nesta interpretação. De noite, no Alentejo, vê-se o céu estrelado, com nitidez. Recolhimento da noite. Os pais olham a lua e contam aos filhos a lenda do homem que foi castigado e caminha, carregando um fardo. De dia, o sol. E a mocidade chega e canta, dissipando a tristeza da saudade. É em Setembro. Mês que olha para trás, o Verão, a Primavera que já foi, e para a frente, o Outono já aí, o Inverno que lá vem... E a mocidade traz um céu aberto, a Virgem, até ali metida num deserto, parece um céu aberto.
A rapariga diz: «Vim solteira, vou casada, foi milagre da Santinha.» O rapaz diz: «Vim solteiro, vou casado. Foi milagre da Santinha. Foi milagre da Santinha, foi milagre do Senhor. (E) ó Virgem, Senhora d'Aires, Tão linda..., vai no seu andor.»
O tempo de fé volta nestes minutos que dura o cante. «Cante», para se perceber bem que ali está esta maneira de cantar, na pronúncia, na alma alentejana. Os tempos de hoje talvez não consigam produzir a maravilha do cante alentejano. Resultou de uma vivência, dura sem dúvida, que hoje não existe. Por uns minutos, no entanto, estes homens e mulheres pegam no fogo puro da tradição, vestem-se à antiga, com fatos que foram muito verdade, aprenderam a cantar com medida, ritmo; as palavras são pronunciadas com cuidado e respeito, num esforço de as dizer bem, de as tratar como merecem. As nossas palavras.
          Veja Os Almocreves, VÍDEO E TEXTO,  e a letra e a transcrição musical da versão de A NOSSA SENHORA D'AIRES, de A. Marvão, Vidigueira / Beja, 1920 - 1942.
*


Casa da primeira horta

Olhamos à direita, começamos a ver...

... ainda não sabemos o nome da ermida. Dialoga com o santuário de N.ª Sr.ª de Aires


Ermida do Senhor Jesus do Cruzeiro
É dos alvores do reinado de D. João V. «Esteve, até c.ª de 1950, envolvida por muretes do passal e pequena habitação rústica do presbítero, na face do ocidente, a qual desmoronou ulteriormente mas continua terreno do património da paróquia de Viana.» (Túlio Espanca, no Inventário Artístico de Portugal, Distrito de Évora, I Volume, IX, academia Nacional de Belas Artes, Lisboa,1978.) Valiosos a descrição e mais elementos fornecidos por T. E., na obra referida, p. 456, cols. 1 e 2.  Ver sobre o processo de classificação e mais, o  SIPA; informações e as imagens que documentam o estado actual do monumento em ruinarte, com a devida vénia.

A Alameda dos Romeiros veste-se de lírios roxos
«[...] esteve nos antigos tempos de fé, ensombrada por seis ruas de choupos em linha» (T. E., na obra citada, p. 455, col.1.) 


Santuário de Nossa Senhora d'Aires
Começou a ser construído no ano de 1753, precedendo a demolição, iniciada em 29 de Abril de 1743, do anterior templete quinhentista, por se ter tornado de modestas dimensões para o crescente número de visitantes. Bênção e inauguração solene da igreja, em 15 de Março de 1760, mas as obras só vieram a ficar concluídas em 1804, tendo na segunda sagração, dia 13 de Maio, estado presente o grande arcebispo de Évora, D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas.


No adro, em frente do templo, o obelisco da sagração de 1804



Lírio silvestre


Que veio este lírio fazer à igreja? 
A brisa exterior não permitia uma completa imobilidade; foi precisa a serenidade do templo, para tentar melhor fotografia

A nave e o altar-mor


O santuário
Está dentro de baldaquino de talha dourada e tem quatro altares. «Em delicada maquineta envidraçada», a imagem de N.ª Sr.ª de Aires (Piedade) «peça gótica de pedra de ançã, policromada e de características de fins do séc. XV [...] mede de alt. 35 cm». (T. E., na obra citada, p. 453, col.2.) 



Encimando o arco redondo, na abóbada, atributos marianos, na imagem e nas palavras. O da esquerda está praticamente apagado. Na imagem seguinte consegue ver-se parte das letras e perceber-se o círculo do Sol.

 Electa ut sol                  Speculum sine macula           Pulchra ut luna   
                                       Eleita como o Sol                   Espelho sem mácula             Bela como a Lua

(Editado, em 28-04-2015)

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