domingo, 31 de janeiro de 2016

Festas na Coutada, em honra de Nossa Senhora da Esperança

Programa de sábado, 30 de Janeiro
09:00 — Alvorada
14:30 — Missa
15:30 — Procissão da Capelinha para a Capela
Visitei a capela de Nossa Senhora da Esperança em meados de Dezembro, p. p., em dia chuvoso e muita humidade no ar, que retirava visibilidade às médias e longas distâncias. Só hoje me foi dado entrar nesta capelinha e na capela de Nossa Senhora da Saúde, na Coutada, a quem se pede na bandeira «Curai as nossas doenças».
A missa na capelinha, no meio do campo e olhando de frente para S. Pedro da Cadeira, ali perto, começou às 15 horas. Foi uma bonita cerimónia em que o senhor padre teve ocasião de celebrar o santo ofício da missa perante uma assistência que gostava de estar ali e participava. A bandeira de Nossa Senhora da Saúde e as duas imagens, a da Senhora da Saúde e a pequena, da Senhora da Nazaré, a «Senhora da Berlinda», davam um ar de gala e alegria à simplicidade do espaço.
Na homilia, o sacerdote, entre outras coisas, explicou que a Senhora é sempre a mesma, tendo embora variados nomes, que foram nascendo da necessidade de responder aos desejos e pedidos que os fiéis lhe fazem, nas situações da vida em que se encontraram. Por exemplo, e como estávamos na casa dela, da Senhora da Esperança, falou das dificuldades da vida dos nossos dias, quando se apresentam às pessoas carências materiais, mas que não são tudo, havendo também as espirituais, pois não vivemos só o corpo. Sem a força do preenchimento espiritual o homem não conseguiria sustentar-se na vida. Neste ponto, a esperança ajuda a sobreviver e a viver. Que seria de nós, sem a esperança? Falou nas virtudes teologais — Fé, Esperança e Caridade — e ouvimos ler, a propósito, o capítulo 13 da I Epístola de S. Paulo aos Coríntios.
Penso que nestas festas com parte religiosa e profana, esta última é participada com tanto entusiasmo por muitos, que chega a parecer ficar a outra esquecida. Mas não é assim. Há sempre qualquer coisa que vai levedando da mensagem, do valor, para crentes e não-crentes. A festa vem primeiro. A festa está envolvida pelo espiritual, como uma atmosfera. É ter visto o interesse e alegria nas pessoas que estiveram presentes nas cerimónias do Círio da Prata Grande, este Verão. Os foguetes fazem parte da festa, mas vêm depois. Sem os valores espirituais a cimentarem a comunidade no seu gosto do encontro, não chegaria bem a ser festa, era só foguetório. Foguetes, sem verdadeira festa. Talvez não esteja a trair o que ouvi na homilia, com estas minhas palavras.
Chegados à capela da Coutada, a celebração continuou, com orações, incluindo a salve-rainha, terminando, guiados pela voz do mestre-de-cerimónias, com três «Viva a Nossa Senhora!».
O programa religioso continua no Domingo, 31 de Janeiro, às 12:00, com missa na Capela; Segunda-Feira, 1 de Fevereiro, às 20:30, com procissão das velas (e reza do terço) na Capela; Terça-Feira, 2 de Fevereiro, 19:00, missa em honra de Nossa Senhora da Esperança, na Capela.
***
Uma placa comemorativa em pedra, numa parede do átrio antes da entrada na capela, relata a colocação da primeira pedra em 1981 e a consagração em 1984, com a presença de dois bispos auxiliares de Lisboa, um em cada cerimónia e recordados na inscrição. Já dentro do templo, em antecâmara do salão de culto, de frente para quem entra, quadros emoldurados com as fotografias do papa Francisco, do papa emérito, Bento XVI, do papa João Paulo II; do cardeal-patriarca, D. Manuel Clemente, do cardeal-patriarca, D. José Policarpo, e do cardeal-patriarca, D. António Ribeiro. Na parede oposta, a mais próxima da entrada, estão expostas em quadros de menores dimensões as fotografias dos padres que passaram por esta capela, o padre António Marques Crispim e vários outros, em número já razoável, para uma capela aberta ao culto desde 1984. Destes, por não ter fixado o nome dos restantes, registo apenas o do padre Sebastião Sabino Crisóstomo, por se dar o caso de ser irmão do estimado e conhecido padre Sabino, varatojano com a «cura de almas», como antigamente se dizia, da gente do Carvalhal e do Turcifal.

14-12-2015

Ao fundo, a capelinha de Nossa Senhora da Esperança





 Regressando à povoação, Rua de Nossa Senhora da Esperança

***

30-01-2016

Chafariz
J. P  1915 - Restauro em 1987




 Fotografia tirada do Largo da Sede - Largo Prof. Eduardo Albuquerque
Ao longo do percurso, podia-se observar motivos decorativos e alguns estandartes da Senhora de Nazaré

 Este portão costuma estar fechado
14:49

14:49

No tecto do pequeno coro, bela figuração em gesso da Santíssima Trindade
16:16

 Depois da missa e saída da procissão com destino à capela de Nossa Senhora da Saúde, este templo ficou sem os fiéis, a bandeira e a imagem da Senhora da Saúde, e ainda a pequena imagem da Senhora de Nazaré
16:16

16:17

16:17

Procissão no caminho da capela de Nossa Senhora da Saúde
16:18

 Na Rua de José Francisco Roque
16:29

16:32

 Capela de Nossa Senhora da Saúde
Fotografia tirada em 28-09-2015

A capela, na Rua de José Francisco Roque
Fotografia tirada em 28-09-2015
Junto à porta, na parede da esquerda, lê-se:

RECORDANDO
LANÇAMENTO DA 1ª PEDRA
EM 1-1-1981
PRESIDINDO D. ANTÓNIO B. MARCELINO
INAUGURAÇÃO E BÊNÇÃO DA CAPELA
EM 23-9-1984
PRESIDINDO D. SERAFIM DE SF.ª E SILVA
A ESTA CAPELA CONSAGROU O POVO DA COUTADA
O SEU CORAÇÃO E A SUA FÉ
     (Acrescentado  o texto da placa comemorativa, em 07-02-2015.)

sábado, 30 de janeiro de 2016

Vergílio Ferreira

Ontem foi inaugurado, descerrado o busto de Vergílio Ferreira em Gouveia, da autoria do escultor Fernando Fonseca.
O ciclo de actividades comemorativas começou a 28 de Janeiro
Um dia destes tenho de completar a Conta-Corrente, que agora tem nova edição, completa. Como sei?
Um amigo telefonou-me, hoje de manhã, a hora relativamente matutina (!), para ligar a TSF, estava a dar um programa sobre Vergílio Ferreira, o que fiz. Dantes, não conseguia apanhar a TSF. Procurei e consegui descobrir onde se faz a procura dos postos. Em tempos, pré-sintonizei alguns. Homem de um posto só. A TSF, sintonizada uns minutos depois.
Fui ouvindo até ao pequeno intervalo. Continuei, só desligando o rádio pelas onze horas. Tinha acabado a conversa dos vários intervenientes de que registo apenas, de que lembro apenas os nomes de Helder Godinho e Francisco José Viegas e a intervenção da responsável pela biblioteca municipal de Gouveia. Deixo dois ou três episódios.
Vergílio em Évora. Ao princípio da sua estadia, saiu à noite em pequeno passeio e encontra o reitor, que lhe pergunta se está a gostar de Évora. Diz qualquer coisa, provavelmente, sim, gosta, e o reitor respondendo, mais ou menos, assim: -- O pior são os primeiros quinze anos... -- Vergílio começou a pensar no momento em que se havia de ir embora. E agora digo eu: esteve lá catorze anos, pouco faltou para os quinze... Queria Lisboa, mas levou Évora consigo.
Falou-se dos livros muito anotados por Vergílio na sua letra miudinha, Sartre, Malraux, Camus; muito, das aulas no Camões, de um episódio que levou o muito duro reitor Sérvulo Correia a expulsar cinco alunos, o que não veio a acontecer por cinco professores, entre eles o nosso homenageado destes dias, se terem oposto. De Melo. Ouvimos declarações de uma senhora que servia na casa de Melo e ainda hoje tem o cuidado da sua guarda, sobretudo com a inspecção do telhado; tratada como igual, explica-se com toda a clareza e fluidez.
Os livros anotados são de autores que lia, Camus, Sartre, Malraux, Gide... Há estudiosos a preparar teses de mestrado e doutoramento, com base nestas numerosas anotações.
E tanto mais se disse. A amizade e a troca dos respectivos livros de Eduardo Lourenço e Vergílio Ferreira. Talvez seja possível aceder a este programa na net.
*

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Morte e Vida Severina

7 de Janeiro de 2015
No comboio para Lisboa...
Falávamos...
A língua portuguesa, na expressão brasileira e lusitana... A minha preocupação pelo facto de, quando se acede à internet, sermos guiados em aspectos básicos, técnicos, de ficheiros, escrevendo palavras como download, upload, access, na fala do lado de lá do mar, parecendo-me que o governo português devia poder impor a daqui, no nível em que o pode e deve fazer. Fora disso, gostaria de ver as línguas portuguesas da chamada lusofonia seguirem os seus caminhos, sem a preocupação imperial. E sem medo nenhum de contactos no universo da língua portuguesa e de todos os povos com quem ela se enriquece. É um grande logro o dos números, em que caem — na nossa opinião — grandes espíritos.
Dito isto, admiro a par os textos dos melhores escritores, sem distinção de país.
Neste ponto, apresentei à minha companheira de viagem João Cabral de Melo Neto.
Em 1966, no cinema Império, em Lisboa, tive a felicidade de assistir à representação de Morte e Vida Severina. Morava ali perto, na Abade de Faria.
Recordo as coisas assim: um jovem cantava certos passos, com diferenças de pronúncia, abertura, fonemas, doçura, inebriante... Durante muito tempo, fui cantarolando essas partes, sobretudo quando com um grande amigo — até hoje —, que também teve o privilégio de ver e ouvir Morte e Vida Severina - Auto de Natal Pernambucano.

Na série Duas Águas, Editora TUCA (Teatro da Universidade Católica de S. Paulo), 1968
i
— Finado Severino, quando passares em Jordão e os demônios te atalharem perguntando o que é que levas...
— Dize que levas cera, capuz e cordão mais a Virgem da Conceição. ......      …...      …..      ……      ......
— Uma excelência dizendo que a hora é hora.
— Ajunta os carregadores que o corpo quer ir embora.
— Duas excelências...      ….      ....
ii
«Essa cova em que estás / com palmos medida, / é a conta menor / que tiraste em vida.» ......    ......    ......
Estas, as partes que cantávamos.
Agora, às vezes, lembro Morte e Vida Severina, mas eu e o tal amigo, quando nos encontramos, temo-nos esquecido de cantar. «Uma excelência dizendo que a hora é hora»... Duvido que na altura da representação soubesse quem era Chico Buarque, mas a voz que imitava mentalmente, quando cantava, era a dele.
O retirante resolve migrar ao longo do rio Capibaribe até ao Recife, fugindo à seca do interior do Nordeste, procurando melhor vida no litoral. Acompanhamo-lo nessa migração.
Ver, no fim, ligação para uma muito boa evocação da Lisboa de 66, o café Vavá e a passagem de Chico Buarque pela capital portuguesa. Morte e Vida Severina foi, ainda, representada em Coimbra e no Porto.
*
— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

Esta parte pode ser ouvida, através do primeiro endereço que damos, abaixo, na voz de Chico Buarque. No texto está escrito «cota» (1), mas é «conta» que o cantor pronuncia, com o mesmo significado de porção, quantia. O que falta pode ler-se em SELECÇÃO 2. A identificação com a terra é completa, na nudez total. Nela, que lhe bebeu o suor vendido, viverá para sempre, livre do sol e da chuva. A terra o abriga e o veste, com um fato feito à medida. «[...] deixa-te semear ao comprido». «Não levas semente na mão: // és o próprio grão.» «Se abre o chão e te envolve, // como mulher com quem se dorme.»
A parte à volta do nascimento do menino (SELECÇÃO 3) é banhada de religiosidade, do carácter sagrado com que é sentida a vida. A vida é salva pelo menino. Não é um acaso o subtítulo da obra de João Cabral de Melo Neto: Auto de Natal Pernambucano.     
________________ 
(1) Tenho, entretanto, nas minhas mãos o livro Morte e Vida Severina e outros poemas para vozes, na 59.ª reimpressão da 34.ª edição (1994), da EDITORA NOVA FRONTEIRA, Rio de Janeiro. Este belíssimo livro inclui, ainda, O rio; Dois parlamentos; Auto do Frade. «é a conta menor / que tiraste em vida»: assim se pode ali ler, sendo certamente gralha a grafia «cota» do texto da internet, aqui reproduzido.  [Nota acrescentada em 18-01-2015, às 19 horas.]

SELECÇÃO
1
NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA,VAI PARODIANDO AS PALAVRAS DOS CANTADORES

— Finado Severino, quando passares em Jordão e os demônios te atalharem perguntando o que é que levas...
— Dize que levas cera, capuz e cordão mais a Virgem da Conceição.

— Finado Severino, etc. ...

Dize que levas somente coisas de não: fome, sede, privação.

— Finado Severino, etc. ...

— Dize que coisas de não, ocas, leves: como o caixão, que ainda deves.

— Uma excelência dizendo que a hora é hora.

— Ajunta os carregadores que o corpo quer ir embora.

— Duas excelências...

— ... dizendo é a hora da plantação.

— Ajunta os carregadores...

— ... que a terra vai colher a mão.


SELECÇÃO
2
ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO
— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

— Viverás, e para sempre,
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
— Será de terra tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
— Será de terra e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
— Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.

— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos).
— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).

— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.

— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.

— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
— Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha.
— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.

— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito a viração.
— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com quem se dorme.

SELECÇÃO
3
O nascimento do menino; o caderno que se inicia

UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ

— Compadre José compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.

APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM VIZINHOS, AMIGOS, DUAS CIGANAS ETC.

— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor.
[...]

COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO

— Minha pobreza tal é que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues;
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
— Minha pobreza tal é que coisa não posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar;
aqui são todos irmãos,
de leite, de lama, de ar.

 FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES ETC.
[A formosura do menino]

— De sua formosura
já venho dizer:
[...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[...]
— Sua formosura
deixai-me que cante:
[...]
— Sua formosura
eis aqui descrita:

 [...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[…]

— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
[...]
Na internet
https://www.youtube.com/watch?v=IZnXIWIyDq4 (Filme, 1977; especialmente, de 30:56 a 33:35.)
https://www.youtube.com/watch?v=MthmmdJgQXY (Teleteatro musical, 1981, com parte do elenco do filme de 1977; especialmente, de 52:02 a 54:51.)
http://www.releituras.com/joaocabral_bio.aspPublica em Lisboa seu livro Quaderna, em 1960.»; «Como ministro conselheiro, em 1966, muda-se para Berna. O Teatro da Universidade Católica de São Paulo produz o auto Morte e Vida Severina, com música de Chico Buarque de Holanda, primeiro encenado em várias cidades brasileiras e depois no Festival de Nancy, no Théatre des Nations, em Paris e, posteriormente, em Lisboa, Coimbra e Porto.» «1982 [...] Vai para a cidade do Porto, em Portugal, como cônsul geral.»)
http://cvc.instituto-camoes.pt/oceanoculturas/11.html (Breve nota biográfica, referindo a colocação de João Cabral de Melo Neto no Porto, no decurso da sua carreira diplomática.Transcreve um poema de Pedra do Sono.)
http://www.releituras.com/joaocabral_morte.asp (O texto integral de Morte e Vida Severina.)
Chico Buarque em Lisboa
(«[...] CHICO BUARQUE E AS VALQUÍRIAS
Helena Carneiro ainda se recorda de uma peça de teatro que foram todos ver ao cinema Império, em 1966, e que marcou aquela geração: Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, representada por um grupo universitário brasileiro que integrava no elenco três músicos para acompanharem as canções. Um deles fez grande furor no Vavá. Era Chico Buarque de Holanda, autor da música da peça, então um ilustre desconhecido, que por cá andou durante um mês, segundo consta, em permanente bebedeira.»)
Bibliografia
A Imprensa Nacional — Casa da Moeda editou a Poesia Completa 1940-1980, de João Cabral de Melo Neto, em 1986.
Há várias edições brasileiras de Morte e Vida Severina.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

No caminho da Fonte Grada

Casal Broeira, Casal do Outeiro. A seguir à placa Casal do Outeiro, vou muito devagar a olhar a paisagem. Alguém quer passar. Uns metros adiante, faço sinal com o pisca direito, espero que a pessoa avance, pois bem o pode fazer e nada. A via alarga um pouco, mais à frente, encosto à berma em zona que o permite com maior largueza. Só então, a minha seguidora, com um temor reverencial da ultrapassagem, se permite passar por mim, na sua lambreta ou vespa dos correios.
No percurso, lembro-me de comparar esta artéria com a segunda circular, onde se prevê que a Câmara de Lisboa faça construir uma zona verde, envolvendo-a. E penso também em «esquerda» e «direita» e as respectivas vocações mais visíveis, numa polaridade que vamos vivendo, em todo o tempo e por ciclos. Esta, uma aproximação, porque a realidade é mais complexa.
Rua Lugar d'Além (dois caminhos de acesso para a Fonte Grada, sigo o da direita).
À volta da praça, três cafés, Olhar Azul, bar Tass e A. M. C. R. (Associação de Moradores). No edifício do Tass [(Es)tá-se (bem!?)], um elevador adossado à parede serve um dos moradores, sendo propriedade particular. Dá um ar moderno, na transparência das suas faces, lembrando os que em maior dimensão vemos nos filmes.
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Dia de atribuição do prémio Bola de Ouro 2015. Ballon d'Or ou como diz na TV uma locutora: BALÃO DE OURO.
Às 17 h. 30 min., na Suíça.
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No regresso, em percurso circular, desço pela estrada que leva à EN n.º 9. A seguir à Fonte Grada é (ou era) o Lugar d'Além. Há dias, parei diante deste aglomerado e perguntei a um homem, atencioso, o nome.
— Lugar d'Além.
— Lugar d'Além — repito.
— Não. Agora, é Fonte Grada...
— Mas é Lugar d'Além, nem que seja parte ou bairro de Fonte Grada.
— Não... ... Definitivamente! É Fonte Grada. Tem nome de rua, código postal — diz o senhor, ainda novo,
Este nome de Além encontra-se às vezes na nossa região, como nome de quinta, de rua ou de casal.

Continuando na Rua Principal (a estrada), umas boas centenas de metros à frente, a via alcatroada inflecte à esquerda e desse lado uma capela abandonada vê-nos passar. Um pouco mais, a placa indicando Casal do Outeiro; a seguir, a Rua dos Valentes. E o Varatojo, sempre presente.

À nossa esquerda, Fonte Grada. Entre Fonte Grada e Paul, Lugar d'Álém

domingo, 10 de janeiro de 2016

Filme ao serão

Sábado, 9 de Janeiro


     Depois do DDT (Donos disto tudo), no Canal 1, com Luís Monchique e outros, segui um excelente filme, tal como, igualmente por acaso, tinha acontecido na semana atrás. Desta vez, Minhas Tardes com Margueritte (LA TÊTE en friche), 2010, com Gérard Depardieu, Gisèle Casadesus e outros.
A cabeça em pousio, por desbravar, de Germain vai começar a ser cultivada e a cultivar-se, graças ao encontro num banco de jardim, com Margueritte, senhora de 95 anos. O banco era o lugar onde se sentava ao pé dos pombos que conhecia pelos nomes, um por um. Pela leitura em voz alta de Margueritte, «lê» A Peste, de Camus. De Luís Sepúlveda, O velho que lia romances de amor. Quando Margueritte, com perda progressiva da visão por degenerescência macular, deixa de poder ler, é a vez de Germain retribuir; começa a ler-lhe páginas de um romance que a erudita senhora, fazendo lembrar Jorge Luís Borges, logo identifica. A cena passa-se, de  novo, no banco do jardim.
     -- Feche os olhos, tenho uma surpresa para si.
     Lê.
     «Que marinheiros, com ajuda de que arquitectos, a ergueram no meio do Atlântico sobre um abismo de seis mil metros?
     -- É de O Filho do Mar   ..., de Jules Supervielle.

Da informação sobre o filme contida no endereço anterior, damos a tradução da SINOPSE.
É a história de um destes encontros improváveis que podem mudar o curso de uma vida: o encontro entre Germain, cinquentão, quase analfabeto, uma senhora erudita muito idosa.
Germain leva uma vida tranquila entre os seus amigos, a sua companheira Annette e a sua caravana, instalada ao fundo do jardim da mãe. Nunca conheceu o pai, a mãe ficou grávida dele sem o querer e fez-lho bem sentir. E na escola primária era a cabeça-de-turco do professor. Os seus companheiros de botequim gostam muito dele, mas troçam-no frequentemente. Todavia, Germano, longe de ser um imbecil, é um filósofo cândido, um diamante em bruto que nunca ninguém sonhou lapidar.
Se a cabeça dele ficou «em pousio», é que não a cultivaram.
Um dia, encontra Margueritte que lhe vai ler em voz alta excertos de romances. Germano vai descobrir a magia dos livros, de que se cria excluído para sempre. Mas Margarida perde a visão e, por amor desta pequena avòzinha maliciosa e atenta, chegará a ponto de ler-lhe, em voz alta, quando ela já não o puder fazer.
É uma história que fala de pessoas simples e verdadeiras, por vezes tocantes, divertidas e frequentemente com muita graça. Uma história terna, cheia de esperança, que prova que é sempre possível aprender e nunca demasiado tarde para ser feliz.