sexta-feira, 31 de maio de 2013

A minha selecção de hoje
       A seguir, texto de JMF, no Público on line.

Era tão bom que todos os nossos problemas se resolvessem demitindo o Governo...
       A ideia de Sampaio de que a oposição "tem de encorpar" lembra o intervencionismo dos nossos monarcas liberais no tempo do "rotativismo"
       Uma boa parte dos portugueses parece ter uma irresistível atracção por soluções mágicas. Sobretudo quando os problemas se revelam muito difíceis de resolver. A mais recente dessas ilusões é a de que bastaria demitir o Governo, dissolver a Assembleia e convocar eleições para boa parte das nossas dores de cabeça desaparecerem. O Inferno actual seria substituído por uma espécie de Paraíso onde um delicodoce Seguro apascentaria um país de repente capaz de refazer consensos e, claro, de viver sem austeridade. Nada nesta visão idílica resiste a cinco minutos de análise fria. Pior: tudo, ou quase tudo, nesta proposta deriva de uma visão autoritária da democracia e da ideia de que há, em Portugal, uns que são donos do regime e outros os seus eternos enjeitados.
       Dois dos principais advogados deste passe de mágica são - o que é muito significativo - ex-Presidentes da República: Mário Soares, de forma assumida e tonitruante; Jorge Sampaio, de forma sibilina e melíflua. O primeiro, contrariando o que defendeu uma vida inteira, vê em cada manifestação de rua uma prova de que o Governo deixou de ser legítimo e deve ir embora, o que só não fará por "teimosia", como esta semana voltou a escrever. O segundo só hesita sobre o tempo que se deve esperar para que a oposição "encorpe".
       Há contradições insanáveis nos raciocínios que suportam este passe de mágica. A começar pelo facto de defenderem, às vezes na mesma frase, que é preciso tratar do problema nacional demitindo um Governo que detestam, isto apesar de nenhum dos nossos problemas ter solução nacional, antes uma solução europeia. Ou seja, ao mesmo tempo que defendem que só mudando as políticas europeias é possível mudar as políticas nacionais, acham que outro Governo em Portugal, sem que nada mude na Europa, era suficiente para acabar com a austeridade. Faz sentido? Não. Mas isso parece não contar no seu entusiasmo revolucionário.
       A questão de fundo é simples: será que Portugal, como país, tem margem de manobra para escolher entre políticas de austeridade e políticas não se sabe bem de quê? Não tem, e não apenas por causa do memorando de entendimento. Portugal está como todos os endividados: à mercê dos credores. Não apenas porque tem dívidas, mas porque continua a contrair mais dívidas. Na verdade, como notou esta semana Daniel Bessa - uma voz sozinha no deserto - saudar um eventual alívio das metas do défice é saudar ainda mais endividamento. Ora para termos quem nos empreste dinheiro - coisa que não tínhamos antes de a troika chegar - temos de cumprir as condições que nos impõem. A margem de manobra das nossas oposições é ainda menor do que a do senhor Hollande ou mesmo do senhor Rajoy: mal chegaram ao poder, tiveram de se submeter à realidade dos números, com os resultados que se conhecem.
       O segundo erro do raciocínio é a convicção de que outros negociariam melhor. É uma convicção extraordinária, já que foram esses "outros" - neste caso, o PS - que negociaram o primeiro memorando, o pior de todos, o que tinha metas mais apertadas e o que mais se enganou nas previsões. Não se vê como um PS com quem a troika nem queria falar da última vez que esteve em Portugal - foi ao Largo do Rato a pedido expresso do Governo, e não o contrário - poderia, depois de eventuais eleições, fazer a negociação que antes não fez e que nem outros países mais poderosos conseguiram. O mais certo seria António José Seguro esborrachar o nariz contra a parede imensa das nossas dívidas e dos nossos irrestritos gastos públicos.
       É bom ser claro e não alimentar ilusões: este Governo tem pouca margem de manobra porque o país não tem margem de manobra e nenhuma eleição mudará esse estado de coisas. Pelo contrário: o risco maior é que possa agravar tudo, pois paralisaria todas as reformas, atiraria para as calendas de 2014 a aprovação do Orçamento desse ano, aumentaria ainda mais a acrimónia política e, sobretudo, tornaria ainda mais imprevisível o futuro, tornando ainda mais improvável qualquer investimento produtivo e mais impossível o desejado regresso aos mercados. Iríamos directamente para um segundo resgate, "à grega". Ou seja, se estamos mal, ficaríamos pior.
       Gostemos ou não, temos de beber até ao fim o cálice do memorando da troika e esperar que ele não dure para lá de 2014. E não se duvide de que, politicamente, quem mais sofre com esse processo é o Governo e os partidos que o apoiam.
       Podemos discutir se o país ficava melhor se fôssemos para eleições antecipadas, mas não devíamos defender a dissolução da Assembleia com argumentos que violam os princípios da democracia representativa. É bom não esquecer que a legitimidade de um Governo não deriva das sondagens, das manifestações de rua ou das flash mobs da Grândola - a legitimidade de um Governo, no nosso regime constitucional, deriva do apoio parlamentar que tem. Achar que se pode remover, por razões políticas, um Governo que dispõe de apoio maioritário no Parlamento - como já sucedeu uma vez -, corresponde a uma entorse grave às regras da democracia e ao princípio da representação.
       Isso é tanto mais verdade quanto, desde a revisão constitucional de 1983, o Governo não responde politicamente ao Presidente da República. Por isso só em situações onde não é possível encontrar no Parlamento coligações maioritárias ou, em alternativa, benevolência face a executivos minoritários, se deve violar o princípio de que os ciclos eleitorais de quatro anos são para cumprir, não para interromper de acordo com uma qualquer interpretação do que será a vontade popular. Ninguém, nas democracias avançadas da Europa ou dos Estados Unidos, imaginaria sequer o contrário, mas em Portugal há quem o defenda abertamente.
       É aqui que entra Jorge Sampaio, autor de uma das mais lamentáveis intervenções em todo este debate. Na sua óptica, o Presidente derrubar ou não o Governo não decorre de esse ter ou não apoio maioritário no Parlamento, mas de a oposição ter "encorpado" o suficiente para ser alternativa. É uma maneira de olhar para os poderes constitucionais do Presidente que me fez lembrar os tempos finais da monarquia, quando o rei dissolvia o Parlamento e só convocava eleições quando entendia que a alternativa política que preferia já tinha "encorpado" o suficiente. Na época, chamava-se a esse período governar em ditadura (com o Parlamento fechado) e a diferença é que quem o Rei chamava para primeiro-ministro era quem governava no intervalo e organizava as eleições. Na altura, o tempo até à ida às urnas era utilizado para organizar a cacicagem eleitoral (não por acaso, nunca um primeiro-ministro em funções perdeu eleições em Portugal até à derrota de Santana Lopes em 2005); hoje, esse tempo de espera deve antes ser gerido até a oposição "encorpar" (sabendo-se, como se sabe, que em países sob intervenção é a oposição que ganha as eleições, como se tem visto por essa Europa fora).
       Haverá um tempo em que este Governo será julgado pelos eleitores - e será, quase inevitavelmente, um julgamento severo. Mas deve ser o tempo certo, a não ser que a actual maioria se autodestrua antes. É essa a regra constitucional, em Portugal e na maioria das democracias europeias. Uma regra que não depende de leituras subjectivas sobre o que os Governos estão a fazer e ainda menos das preferências presidenciais ou da consistência das oposições. Já não é fácil governar Portugal, ainda é mais difícil, em Portugal ou noutro lugar qualquer, seguir políticas impopulares, mesmo quando necessárias. Imagine-se agora que todo e qualquer Governo, com ou sem maioria, ficava nas mãos da leitura que o Presidente fizesse das sondagens, das manifestações e do "encorpamento" das oposições, podendo ser demitido a qualquer momento. Nessa altura, teria triunfado de vez a demagogia sobre a democracia, o populismo sobre o sentido de Estado, a instabilidade sobre a governabilidade.
       P.S.: Alguns leitores entenderam que, no artigo da semana passada, se sugeria que Medina Carreira seria um dos responsáveis pela situação actual, quando era o contrário que aí se defendia. Aqui fica o esclarecimento, para afastar quaisquer dúvidas.
Público on line, 31-5-2013


quinta-feira, 30 de maio de 2013

Quase a fechar

       O dia está quase a fechar. Em princípio, amanhã haverá outro, o sol nascerá de novo. De qualquer modo, ainda vamos a tempo de falar de hoje. Do feito, nada há a dizer, aqui. Do espelho do dia de toda a gente, o jornal, lido num café, revejo-me mais uma vez em Paulo Morais, contra a corrupção, e a pergunta que não me sai da boca é: no caso dos submarinos, na Alemanha há condenados e cá, não.

       Não partilho da visão, actuação de Mário Soares, que respeito. Os governos saídos das eleições são para ir até ao fim das legislaturas, salvo em caso de cataclismo, e para interpretar esse estado temos instituições que se deve minimamente respeitar e não só quando lá estão os nossos. Isto não quer dizer que não tenha apreciado, há minutos, o que foi mostrado na televisão das palavras do antigo presidente. Faz muito bem em dizer as coisas que acha que não vão bem. É saudável.

       Pacheco Pereira. Gostei do que diz na MENSAGEM ENVIADA AO ENCONTRO DA AULA MAGNA.  Ir falando do que está mal, ir puxando pela decência, ajuda a melhorar as coisas.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Távola Redonda
As vinhetas da capa 



Tem a sua graça comparar as vinhetas das capas da Távola Redonda. Mas, antes de mais, alguma coisa sobre esta revista. Criada e dirigida por David Mourão-Ferreira, António Manuel Couto Viana e… — o melhor é apresentar a ficha técnica, na página 2 do fascículo 1 —,


no pós-guerra, pretendia «um lugar para a poesia». A seguir a 45, parecia só haver lugar para uma poesia mais empenhada, interventiva, menos intimista. A fidelidade ao encontro perante as coisas, a vida, o mistério inicial, depois desenvolvido com equilíbrio pelo poeta, é o que propõem no primeiro fascículo ou folha Alberto de Lacerda e David Mourão-Ferreira (o Davífen, das crónicas de Artur Portela Filho, no Jornal Novo). Temos uma conjugação de pessoas com qualidades diversas. No fascículo XX, em artigo não assinado (D. M.-Ferreira) sugere-se a união de todas as publicações de poesia numa só, o que não veio a conseguir-se.
«TÁVOLA REDONDA» OU DA (IM)POSSÍVEL HARMONIA
                          (Título do texto introdutório à edição fac-similada da T. R.,de João Bigotte Chorão)
Perguntar-se-á: as épocas não são outras, as preocupações diferentes? Sem dúvida, a poesia neste Janeiro de 1950 é com certeza diferente da poesia de 1930 ou 1940. Mas para explicitar essa mudança, para revelar é este um dos papéis da crítica) uma provável modificação nos processos e nos temas não é preciso negar a autonomia da arte, da poesia. Esse o grande erro, esse o nosso protesto. O seu lugar é único, insubstituível, in-comparável, embora em relação com a vida inteira. Cada poeta arrasta consigo, como um facto se encadeia noutros factos, todo um universo.     (Alberto de Lacerda, «Um lugar para a poesia», na p. 2, fascículo 1]
Lirismo, desenvolvimento de uma exclamação: atitude de quem se espanta, se admira ou repara — perante, ou em uma — qualquer circunstância, e tende logo a isolá-la, torná-la independente e memorável. É uma atitude feita de momentos que se tornam excepcionais; mas tal excepcionalidade, como é involuntária, não deve transformar-se, para o Poeta, nem em motivo de opróbrio nem de orgulho; muito simplesmente, urge não esquecê-la, na discussão do fenómeno lírico. Outro aspecto, necessário também de se tomar em linha de conta, é o da referida involuntariedade em que o momento se torna excepcional, exigindo um ulterior desenvolvimento. O que caracteriza o lirismo não é, portanto, a natureza do momento ou da circunstância, a natureza da emoção ou do motivo. O que o caracteriza é o aspecto involuntário, em que momentos, circunstâncias, emoções e motivos se apresentam ao Poeta, o aspecto de excepcionais que eles adquirem e, de maneira decisiva, o processo como eles ulteriormente se desenvolvem.     (David Mourão-Ferreira, «Lirismo – ou haverá outro caminho?», na p. 8, fascículo 1)

Em Janeiro de 1950, quando apareceu o primeiro fascículo de Távola Redonda, não existia em Portugal nenhuma publicação de Poesia. […] Pouco a pouco, começaram, depois, a surgir novas folhas de Poesia […]. De qualquer modo, para o público de poesia com que podemos contar, são elas excessivas – e o certo é que a existência de quase todas é tão precária que emudecem (extinguindo-se? Interrompendo-se?) ao fim de dois ou três números. Por isso, daqui lançamos o alvitre de um Encontro […]. E[…] talvez que desse Encontro viesse a surgir uma Revista de Poesia Portuguesa. – uma Revista única, onde cada grupo dos já existentes e dos que viessem a formar-se disporia de um número certo de páginas – para lá publicar o que muito bem entendesse     («Sugestão», pp. 8 e 6, não assinado, de D- M.-Ferreira)







































No cinquentenário da morte de Aquilino

Aquilino Ribeiro
Nasceu em 13 de Setembro de 1885                      
Faleceu em 27 de Maio de 1963                             
                                                                      

                                                                           De permeio desabrocharam cardos, que são a 
                                                                           flor da amargura, e a abrótea, e a diabelha, o
                                                                           esfondílio, flores humildes, por isso mesmo tro-
                                                                           féus de vitória. Vieram os lobos, os javalis, os
                                                                          zagais com os gados, a infinita criação rusti-
                                                                          cana. Faltava o senhor, meio fidalgo, meio pa-
                                                                          triarca, à moda do tempo.

                                                                                                 A Casa Grande de Romarigães







                                                                         Homenagem

      Hoje é dia aniversário da morte de Aquilino Ribeiro. Há 50 anos, estava quase a deixar a vida de aluno em Évora, lembro-me de ver um cartaz na montra da livraria Gaspar, entre o café Arcada e o Nazaré. Anunciava a presença na recente livraria do escritor Aquilino Ribeiro, que ali iria fazer uma palestra. A morte, entretanto, traçou outros planos e perdeu-se uma oportunidade única. O mais natural era o quase garoto que eu era não ter lá ido.

      Um dos textos que mais me impressionaram na obra deste grande beirão e português é o começo de A Casa Grande de Romarigães. Só ao fim de algum tempo e algumas linhas se começa a perceber que se trata do voo de um pinhão... É um ambiente de cosmogonia, é

A Criação da Floresta







Galheteiros de azeite, estevas, pão, pizzas e trocas de sementes

      Leis parvas ou de domínio tentado ou real do Norte sobre o Sul, de tudo um pouco se vê. Nos últimos dias e semanas tem-se falado da «guerra» da troca de sementes entre agricultores. O assunto, como é normal, tem vários ângulos de visão, mas não se pode impor coisas tão importantes só porque sim. Parece que já não se pode cozer o pão com esteva colhida no campo, e com as pizzas algo de semelhante se passa.
      Quanto à maneira como se serve o azeite nos nossos restaurantes, Miguel Esteves Cardoso merece ser lido, mais uma vez. É delicioso o azeite e a conversa dele.

domingo, 26 de maio de 2013

Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa
O que diz e o que dizem dele -- no Público

      Este «português suave» cativou o país. Natural de Torres Vedras, não admira que aqui o sigamos com especial atenção.  Pode, a seguir, ler-se o texto hoje saído no jornal Público.


PERFIL
D. Manuel Clemente
O intelectual estilo
“português suave”


Um homem “muito feliz”, preocupado em criar consensos (demasiado, até). Do novo patriarca de Lisboa diz-se que é culto, bondoso, sagaz. Que não é homem para se pôr a partir a loiça. O que pensa D. Manuel Clemente (e o que pensam dele)
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Natália Faria
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A maior qualidade que apontam ao novo patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, é, para alguns, também o seu pior defeito: homem de consensos, preocupado em criar pontes, mesmo quando seria preferível que as destruísse. “Não é homem para partir a loiça”, caracteriza o teólogo Anselmo Borges. “É manso, tranquilo. Há quem lhe aponte algumas dificuldades em tomar decisões, assim como se fosse uma espécie de António Guterres da Igreja”, ilustra o bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira.
Quem o conhece para lá da sotaina, diz que D. Manuel Clemente é “feliz”, “moderado”, “recatado”, “sensível”. Que, “tendo nascido em família rica, soube fazer-se pobre”. Ainda sobre o homem que, a partir de 7 de Julho vai sentar-se na cadeira de patriarca de Lisboa — e, a partir daí, provavelmente também na presidência da Conferência Episcopal Portuguesa, órgão máximo da Igreja Católica em Portugal — diz-se que é “culto”, “de espírito aberto”, de convicções vincadas pelo Concílio Vaticano II.
“Tem a paixão da ‘conversa’, uma vivacidade invulgar de pensamento, um lastro aturado de investigação e leituras, mas também a leveza divertida de humorista que desenha, com dois ou três episódios anedóticos, o traço mais fundo de um rosto ou o alarde de toda a época”, caracteriza José Tolentino Mendonça, no prefácio do livro Diálogo em Tempos de Escombros (edição Pedra da Luz, Sintra, 2011), em que D. Manuel discorre sobre Portugal, a Europa e a Igreja.
A urgência de discutir o papel do religioso, numa sociedade de prática católica cada vez mais rarefeita, vir-lhe-á do tempo em que era estudante de História, na Faculdade de Letras de Lisboa. “Sabe muito sobre o século XIX, da relação da Igreja com o liberalismo. Construiu uma obra original, com uma leitura muito significativa do papel do religioso na sociedade desde o século XIX para cá”, precisa o padre Adélio Abreu, professor de História da Igreja.
Enquanto estudante, D. Manuel Martins digeriu as faúlhas do Maio de 1968 no Colégio Pio XII, onde compartilhou alojamento com fi guras como o actor Mário Viegas, o embaixador António Monteiro, os políticos Carlos Borrego, José Magalhães, Luís Sá, Marçal Grilo. “Era uma comunidade que integrava gente com vários posicionamentos, nem todos católicos, muito menos praticantes”, recua o socialista José Magalhães. “Costumava encontrá-lo na biblioteca. Hiperestudioso, focado. Mas não era marrão do género que se limita a grunhir quatro palavras. Afável e de grande tolerância, tornava-se muito fácil conviver com ele”.
O ex-ministro do Ambiente Carlos Borrego confirma-lhe o pendor marialva da juventude. “Havia lares femininos à volta e saíamos para beber uns copos e dançar. Ele alinhava. Não se conseguia identificar nele qualquer tendência para o sacerdócio”. Para a discussão de ideias, sim. “O Manuel não era pessoa para se inflamar, mas sabia apresentar as suas razões de modo convincente e pragmático. Já na altura com um pensamento muito estruturado e aberto”.
Portugal, culturalmente, é uma teima, como, geograficamente, é uma praia, feita cais de partir e chegar, chegar e partir 
                                                                                            D. Manuel Clemente
Sempre em registo “português suave” — sem estardalhaços, portanto —, lá terá sabido dirimir o conflito entre fazer avançar o namoro (são-lhe conhecidos vários) ou envergar batina. Que o conflito o atazanava prova-o o facto de ter ingressado no Seminário Maior dos Olivais, logo após ter concluído a sua licenciatura, em 1973. Ao curso de História haveria de somar o de Teologia, em 1979, e ainda um doutoramento em Teologia Histórica. Mas isso foi depois. Quando se aventurou pelos corredores do seminário, Manuel Clemente já tinha passado a curva dos 20 anos de idade.
Mas a vocação acompanhava-o desde miúdo, em Torres Vedras, onde nasceu a 16 de Julho de 1948. “Teria sete ou oito anos e recordo-me, numa vez em que fui ajudar à missa, de ter chegado à sacristia e pensar: ‘Quero ser como o padre Joaquim’”, confi-denciou, em 2007, ao PÚBLICO. Mas na base da sua vocação religiosa estava também o exemplo da sua mãe, Maria Sofia.
Apesar de ter sido esta a travar-lhe o primeiro ímpeto para se fazer padre, teria uns 13 anos. “Pensa bem, forma-te e depois decides”, ter-lhe-á dito, segundo o retrato que a revista Visão lhe traçou esta semana.
Filho de um industrial, proprietário de uma fábrica de moagens, foi com a mãe que Manuel José Macário do Nascimento Clemente manteve uma relação de adoração, até que esta morreu, aos 95 anos. Expansiva, activista católica, Sofia “era medularmente patriota, sem ser minimamente chauvinista”, segundo o próprio D. Clemente, no livro O Tempo Pede Uma Nova Evangelização (Paulinas Editora, Prior Velho, Março de 2013). “Com que alegria — dela e minha — percorremos o país em curtas viagens de Verão, fi cando eu ainda mais intimamente conjugado entre mátria e pátria”, recorda, no mesmo livro em que desfere a sentença: “Portugal, culturalmente, é uma teima, como, geografi-camente, é uma praia, feita cais de partir e chegar, chegar e partir”.
A capacidade de sair do bafio claustrofóbico das sacristias para perscrutar o que é isto de ser português, de perspectivar o país e a Europa e de lhes descortinar as raízes da crise, foi um dos atributos a justificar a atribuição do Prémio Pessoa em 2009. Tido como “uma referência ética”, foi o primeiro homem da Igreja a ser distinguido, levava já aquele prémio 22 anos de existência.
No discurso de aceitação, todo ele parido com citações do padre António Vieira, o diagnóstico de D. Manuel: “Seremos problemáticos, os portugueses, mas por nos resumirmos de mais”. Neste discurso, como em tantos outros com que pontuou a sua intervenção pública, sobressai a preocupação em fazer desviar o olhar dos heróis ou anti-heróis nacionais para as pessoas comuns. “Os heróis – ou anti-heróis – revelam-se demasiadamente maleáveis ao que sucessivas ideologias deles queiram fazer. E é por isso que, não pondo em causa o real valor que tiveram tais pessoas, a sua utilização fantasmagórica mais nos distrai do presente e menos nos serve para o futuro”.
Muito para lá de Afonso Henriques, D. Sebastião, Vasco da Gama, Camões, Salazar ou outras fi guras descomunais, a marca distintiva dos portugueses é a sua “capacidade de resistência e adaptação criativa, que só requer mais autoconfiança e acompanhamento público para ir por diante”, insiste Manuel Clemente. “Ouvi-lhe esse discurso, inteligente e sensível, e achei que seria interessante fazer-lhe uma longa entrevista”, recorda o jornalista e ex-director do PÚBLICO José Manuel Fernandes, que já com ele se cruzara antes.
Da entrevista, depois transformada em troca epistolar que sairia publicada no livro Diálogo em Tempo de Escombros, ficou-lhe a confirmação de um homem cujo pensamento “não é marcado apenas pela conjuntura mas tem a profundidade própria de um historiador”. Para José Manuel Fernandes, o facto de o novo patriarca ter tido uma vida civil antes de entrar pelo seminário ajuda-o “a perceber, melhor do que muitos na Igreja, o país que o envolve”. O bispo emérito de Setúbal, D. Manuel Martins, confirma: “D. Manuel é muito culto, estudou a História como qualquer coisa de vital, mas nunca foi um rato de biblioteca: conhece as manifestações e transformações do mundo, sabe adivinhar os sinais dos tempos”.
 “É homem nada complicado, sincero, sem cera”, adjectiva D. Manuel Martins. “A maioria dos bispos, quando assume uma diocese”, reforça D. Januário, “recorre ao melhor retratista e faz-se fotografar com os vermelhos todos, quase fidalgos do tempo de Luís XIV. D. Manuel não. Fez-se retratar, sim, mas de casaco e calças, vestido à homem, e com uma cruz simplicíssima”. Ainda D. Januário: “Sempre foi de andar na rua. Vai a uma livraria, a um café, sempre a pé”. O bispo das Forças Armadas viveu dois anos com D. Manuel Clemente no Seminário dos Olivais. “Dormia no quarto por cima do dele e, enquanto ele se levantava e fazia a sua higiene diária, ouvia-o sempre com o rádio na Antena 2. Praticava o bom gosto da música, mas sem nunca se fazer notar por isso”.
Apesar de admirar o estilo low profile do novo patriarca, é D. Januário Torgal Ferreira quem veicula a mensagem dos que lhe criticam “alguma paralisia no que à decisão diz respeito e a tendência para deixar arrastar algumas questões”. “É uma leitura legítima”, admite D. Manuel Martins, “nós gostamos das pessoas que sabem conciliar mas depois zangamo-nos quando a pessoa se preocupa em fazer pontes quando sentimos que o que era preciso era deitar a ponte abaixo”.
Sobre a pedofilia, por exemplo: “Quando há dias lhe perguntaram sobre a pedofilia dentro da Igreja, falou das vítimas mas também da necessidade de haver alguma delicadeza relativamente aos culpados, da necessidade de decifrar as razões que os levaram a tal sem pôr em causa o processo de redenção que estas possam ter iniciado. É preciso coragem para dizer isto”, elogia D. Januário.
Decorrerá isto, segundo José Manuel Fernandes, do facto de D. Manuel Clemente se caracterizar por ser alguém “que foge ao dogma e procura perceber mais do que dar sentenças”. Em 1991, D. Manuel Clemente predispôs-se a debater com José Saramago o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo. E costuma entremear os seus discursos com citações de Eça de Queiroz. E de Sophia de Melo Breyner e de Eduardo Lourenço.
E mantém-se com um optimismo à prova de crise. “Há nele um optimismo histórico sobre o destino dos portugueses. Ele diz que Portugal vai resistir a esta crise, por muito grave que ela seja”, reforça José Manuel Fernandes.
Sendo muito atento à questão da dignidade das pessoas, D. Manuel não é homem de fazer terramotos
Não se confunda com falta de atenção às ameaças dos tempos. Discurso directo em Diálogo em Tempo de Escombros: “A democracia é o nosso regime geral e assente. Creio que não a dispensaremos por nada, nem por algum sebastianismo que sobre e em qualquer cor do nevoeiro. Mas a democracia ligase historicamente à afirmação das classes médias, com o que estas trouxeram de autodeterminação das vidas e dos percursos.
Quando isto mesmo se reduza por circunstâncias várias, ou as escolhas se privatizem sem sentido do conjunto, a vida política diminui e oscila entre grandes vazios e possíveis golpes de quem apareça”.
Se calhar por causa da complexidade do discurso, pouco condizente com soundbites, as posições de D. Manuel Clemente não garantem abertura de telejornais. Mesmo quando alude aos temas mais delicados. “Sou céptico em relação à viabilidade do país por si só. Portugal nunca a teve. Nunca foi auto-suficiente em coisa nenhuma”, disse numa entrevista ao PÚBLICO em Setembro de 2010. Sobre a Europa: “Os problemas com que a Europa hoje se confronta obrigam os europeus a encontrar bases mínimas para viverem em comum. Se não o fizerem, correm o risco de se tornarem muito insignificantes no conjunto geoestratégico”. E, a propósito da omnipresente sombra do celibato dos padres: “Creio que as realidades cristãs do matrimónio e do sacerdócio celibatário, cada uma na sua especificidade, se manterão, ainda que requeiram um redobrado acompanhamento na presente ‘cultura’ do efémero”.
Quanto ao que dele se espera enquanto patriarca de Lisboa, José Manuel Fernandes converge no diagnóstico: “Não procura rupturas nem revoluções. Procura aproximações”. “Não se espere dele nenhum pronunciamento estrondoso, à maneira de D. António Ferreira Gomes”, avisa também Anselmo Borges.
Dado “o absurdistão em que vivemos”, Anselmo Borges diz que gostaria de ter no Patriarcado de Lisboa alguém capaz de convocar “Igreja, universidades, patronato, sindicatos e partidos para os pôr a discutir e a comunicar ao país a situação real em que este se encontra”. “A laicidade é uma aquisição fundamental, a igreja não pode fazer política no sentido partidário da palavra, mas pode ajudar a estabelecer consensos mínimos e assumir-se como voz moral”, desafia. O bispo emérito de Setúbal também aponta à Igreja o pecado de andar demasiado calada e distraída. “Precisávamos de saltar mais para a rua, de estudar melhor as causas de toda a esta situação e de as denunciar”. Ora, D. Manuel Clemente, “sendo muito atento à questão da dignidade das pessoas, não é um homem de provocar terramotos”.
Não é que D. Manuel Clemente ricocheteie a actualidade. Em Novembro, aconselhou o Governo a desacelerar a austeridade para “deixar as pessoas respirar”. Predispôs-se a fazer-se ouvir junto da troika. Mas não é expectável que mude o registo “português suave”. Basta recuperar o que o próprio disse ao PÚBLICO, em Dezembro de 2011, quanto interpelado sobre o posicionamento da Igreja face ao agravamento da crise: “Tem de haver discrição, não se pode fazer gala nem pretexto para conquistar protagonismo político. De maneira nenhuma”.

 (Público, 26 de Maio de 2013, págs. 8 a 10)

sábado, 25 de maio de 2013

     Livrarias condenadas? Nós, condenados

      Ontem, passei com um amigo um pouco meteoricamente, por uma livraria de grandes tradições, no Campo Grande. Para mim, belíssima e grande.  Encontrei desolação no senhor livreiro, um perfeito senhor no seu ofício, ainda a lutar, na sua já avançada idade. Em reunião de uma associação de livreiros, um senhor duma dessas grandes cadeias-aglomerados de editoras diz claramente: as «pequenas» livrarias são para acabar. E o senhor da livraria de que começámos por falar queixou-se da renda que tem de pagar pelo espaço.
      Já me tinha chegado notícia de livrarias a fechar ali para o Largo da Misericórdia. Hoje, vejo neste artigo da revista Ípsilon que o mal já começou a alastrar, apesar de uma ou outra andorinha que não faz a Primavera, como a nova livraria na igreja de Óbidos.
      Isto está mal; esta liberdade de matar as livrarias deve ser regulada. Como pode o preço do arrendamento aumentar, por exemplo, seis vezes, a pretexto de remodelação profunda de um espaço que dela não precisa? É caso para dizer que o Estado não está a regular bem ou dito de maneira mais fácil de entender: o Estado não regula bem.
      Que cidades são estas?

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Albano Martins


      Vale a pena ler a muito interessante entrevista, concedida por Albano Martins a Alfredo Alencart, da Universidade de Salamanca e publicada pelo entrevistador em «Crear en Salamanca», no dia 16 do corrente mês de Maio. A mesma entrevista ingressou em Letras Uruguay, no dia 18, e sairá no Chile, no blogue do poeta Juan Camero, de Valparaíso, e na Venezuela, na revista do Círculo de Escritores de Venezuela. O poeta é também muito apreciado no Brasil, que seria o país escolhido para segunda pátria, se tivesse de escolher uma, e em Espanha, terra e gente a que dedica também grande afecto. 

    É tempo, para mim, de avançar um pouco pela poesia de Albano Martins e de ter acesso a algumas das suas traduções, para lá do pequeno livrinho O Essencial sobre Alceu e Safo. Em baixo, Coração de Bússola, publicado em Évora, 1967, de que pensamos poder apresentar aqui um poema, que nele figura a páginas 40 e 41.











HORA REDONDA, EXACTA







                                                    Esta hora pertence-nos.
                                                    Redonda, exacta
                                                    como um ovo
                                                    é nossa

                                                   Nos limos e no lodo
                                                   a colhemos, intacta,
                                                   Flor modelada ao sopro
                                                   da nossa intimidade.

                                                   Símbolo e sinal
                                                   de humana presença,
                                                   esta hora é nossa
                                                   inteira razão.




sábado, 18 de maio de 2013



Fernanda Botelho [180°]
                                                       

      Eu cheguei a Lisboa num dia de sol. Parece o primeiro verso de um poema, mas cheguei por acaso a Lisboa num dia de sol. E ao sair do Rossio, da estação do Rossio, olhei para a luz, olhei para aquilo e senti-me no paraíso.
                                                                       Fernanda Botelho




                                                                           


      
No passado dia 19 de Abril, a RTP 2 emitiu mais um de vários programas sobre escritores portugueses, desta vez, Fernanda Botelho.
Venho oferecer a transcrição do que foi dito e lido no decorrer do programa. Colegas da Faculdade e no ofício da escrita, estudiosas da sua obra, tiveram o privilégio de a acompanhar nesta peregrinação em que estamos. Todos con-viveram.
Da minha parte, ficou muito por anotar quanto a fotografias, documentos, partes de filme, que foram sendo apresentados em simultâneo, ilustrando as falas, ou em pequenos interlúdios. Foram mostrados, por exemplo, os cafés -- a Orquídea, a Paraíso, o Chave de Ouro. Digamos só que no diálogo tirado de «Bailarico Saloio» aparecem os rostos de duas mulheres [actriz Cecília Guimarães], irmãs (é o mesmo rosto, lado a lado), fala uma, responde a outra, parecem ter 50 anos, uma mais desenvolta/agressiva, a outra, mais compreensiva e humilde. No livro Gritos da Minha Dança, em breve nota explicativa a este «teatro sem acção», são apresentadas como personagem A e B; a personagem A é uma idosa de aproximadamente 70 anos e a personagem B, de meia-idade, com aproximadamente 50 anos.
E Henry Miller, na casa de Natália Correia, fazendo a felicidade de Urbano Tavares Rodrigues, que nos conta o caso.
*
F. B. -- Fernanda Botelho
A. M. C. V. -- António Manuel Couto Viana, poeta. Um dos directores da Távola Redonda, em que Fernanda Botelho colaborou.
U. T. R. -- Urbano Tavares Rodrigues, jornalista, professor universitário, escritor.
J. V. -- Joana Varela, directora da revista Colóquio / Letras -- Fundação Calouste Gulbenkian. Fernanda Botelho dedicou-lhe o seu último livro, Gritos da Minha Dança.
G. A. -- Graça Abreu, professora da Faculdade de Letras de Lisboa, escreveu Da Surdina ao Clamor: Arquitetura da Crise em Fernanda Botelho.
F. Branco -- Fernanda Branco, professora do ensino secundário; escreveu Orquestração Rigorosa para Uma Terra sem Música.
J. M. A. -- Joana Marques de Almeida, autora de A Figura Feminina em Fernanda Botelho.
*


           Fernanda Botelho [180°]

(Voz.) «Não sinto nostalgia do passado. Pois que fiz eu na minha vida, que mereça a sacralização das lágrimas fora de prazo? Escrevi uns livros que o tempo vai escorrer para a poeira das coisas esquecidas. Acumulei livros que não sei o que a posteridade vai fazer deles, quando o espaço que ocupam for utilitariamente reclamado e não havendo, aliás, quem os leia.»
(Pág. 65, de Gritos da Minha Dança.)
(Urbano Tavares Rodrigues, na sua casa.) «Conheci a Fernanda Botelho, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde andávamos em anos diferentes, mas…, e em curos diferentes; porque eu fiz Filologia Românica e ela fez Filologia Clássica; mas conheci-a, era uma rapariga baixa, muito bonita, com feições finas, com um sorriso levemente irónico e que o que aliás já deixava entrever a personalidade dela.»
(Joana Varela, nos jardins da Gulbenkian?) «Era uma mulher muito interessante, muito bonita e com um tipo muito pouco português, não é?, muito branca, com os olhos verdes…»
(António Manuel Couto Viana, em sua casa.) «Era singular, era diferente dos outros. Irreverente, e realmente, sem preconceitos, apesar de ser uma mulher do Norte.»
(Voz de Joana Varela.) «Uma das coisas que sobressai mais na imagem da Fernanda é o facto de ela ter o cabelo muito curto, que é uma coisa que, isso, isso não era vulgar.»
(Voz de UTR.) «Era uma pessoa nitidamente avançada para a época dela; em todos os comportamentos e isso está explícito nos livros dela, está muito marcado.»
(Voz de AMCV.) «Havia, talvez, um certo frisson com, com a mãe, não é, realmente, a mãe estaria em desacordo com certas atitudes dela e sobretudo, bom, com a sua literatura.»

[Aqui, a página de rosto de A Gata e a Fábula, com dedicatória:

                                                                   Lx. Setembro de 61
                                                      Para a minha mãe

 esta Ⱥ GATA
                      E A FÁBULA, numa
     dedicatória muito
     simples, porque é
     a mais sincera de
           todas as dedicatórias
           — ditada pelo grande
         amor que lhe tenho.
                                                                           Da sua

                   Nanda
                        (Fernanda Botelho)

(J. V.) «Conflitos com a mãe que terão sido sempre bastante surdos, quer dizer que a Fernanda tinha respeito pela mãe e portanto que acataria a ordem estabelecida. Sei, por exemplo, que a Fernanda queria fazer Direito, que não havia no Porto, não havia Faculdade de Direito no Porto, a mãe foi matriculá-la a Coimbra e ela veio de lá matriculada em Clássicas, porque Direito não era um curso para raparigas.»
(Fernanda Botelho.) «Mas admito que foi uma educação austera, de que eu consegui libertar-me e, nessa altura, deixei de ter preconceitos. Os preconceitos que eu tinha deixaram de existir.»
(Urbano.) «Ela é de família aristocrática, descendente do Camilo Castelo Branco e do Abel Botelho.»
(J.V.) «O Abel Botelho foi um escritor naturalista, que fez uma imensidão de romances, daqueles com muito adultério e muitos casos de mulheres perdidas e coisas assim parecidas e, portanto, dá a ideia que pelo menos corre ali, naquela família, corre um sangue qualquer, que tenha a ver com literatura.»
(Voz de FB.) «Nasci no Porto em 1926 e estudei no Porto, fiz a minha instrução primária no Porto…»
(Uma voz lê.) «Toda esta minha inépcia era um tanto ou de todo inexplicável.  É que aos quatro anos, sem saber explicar como, aprendi literalmente a ler sem mestre. Repito, não sei ou não me lembro de qualquer explicação para o facto ou de como o facto aconteceu. Seja como for, esta minha prematura capacidade é rigorosamente autêntica. E como será óbvio, a partir do momento em que meti o dente na suculência das letras e das palavras, passei a devorar livros
(Pág. 15, de Gritos da Minha Dança.)

[Vê-se, à medida que se ouve a voz, as páginas de O Livro da Primeira Classe, primeiro, de fugida, a 99, depois, vão sendo folheadas, a 103, a 105, a 107 e a 110.]
(Fernanda Botelho aparece na imagem, com O Livro da Primeira Classe na mão.)
[Ao mesmo tempo que se ouve FB, uma faixa transparente desliza na vertical, com quatro tiras brancas longitudinais, deixando um espaço maior ao meio. Sobre esta passadeira, começa a ler-se:
               d
               e
               s
               o
               b             f
               e             e
               d             i
                i             t
               ê             a
               n  
               c             a
               i   
               a             D
                                              e
                              u   
                       s
Uma pergunta começa a ler-se ao alto, e a atravessar esta resposta, da direita para a esquerda:
Sabes o que é um pecado, meu pequenino?
Entretanto, a resposta que vimos acima aparece completa: «É uma ofensa feita a Deus.» Mais abaixo, em letras maiores: «… que quer ser bom, um menino corajoso confessa as suas maldades.» Todos estes dizeres se encontram na pág. 110 de O Livro da Primeira Classe, sob o título Confissão.]
«Eu, isto tudo está guardado, não está em boas … este livro, O Livro da Primeira Classe, que até que me chamaram a atenção, tem as orações, orações de rezar, rezas, está em mau estado, mas não é porque tenha sido maltratado, é simplesmente porque é mais velho do que eu; foi nele que eu aprendi a ler aaa… a ler antes do tempo.»
(Voz.) «No meio de todas as águas mornas, evoco uma situação que, a princípio aflitiva, veio ter deslinde muito positivo. Deu-se o caso de eu cair à cama, lá ficando durante três semanas a canja de galinha. Nesse entretanto, a professora Dona Lucília havia ministrado aos seus discípulos os primórdios da análise lógica (sintaxe). Quando regresso aos bancos escolares, vejo a malta a alinhavar e a saltar frases, e aquilo era coisa para mim misteriosa, e não apenas misteriosa, também em absoluto o Mistério. E, mais ainda, um labirinto para minha perdição sem fio a que me agarrar. Não por muito tempo: uma semana depois, já eu o agarrara por mercê de uma Ariana-anjo-da-guarda e saía ilesa do labirinto e do mistério. E apaixonei-me — pelo mistério, pelo labirinto, pela sintaxe. Era tão giro!»
(Gritos da Minha Dança, págs. 15-16.)
«Fiz assim! Fui para Coimbra. Muito bem; porque é que eu depois… me… pedi a transferência para Lisboa? Isso também posso contar.»
(J.V.) Ela falou muito da pequenez, fala muito da pequenez do que era o meio coimbrão.
«Vim para Lisboa, porque me deixei de gostar de Coimbra. Estava um bocado enfastiada com o espírito provinciano de Coimbra. Era uma cidade, como digo, muito bonita, mas o espírito que reinava era provinciano.»
(J.V.) Suponho que vir para Lisboa foi para ela uma libertação, porque ela em Coimbra já não estava com a mãe, não é!?, já não estava com a família, estava, estava num colégio, uma espécie de casa de raparigas…   …tipo com freiras ou qualquer coisa assim parecida. Mas, acho que a vinda para Lisboa é que foi de facto a Fernanda encontrar-se com o mundo e com uma certa liberdade.
(F.B.) «Eu cheguei a Lisboa num dia de sol. Parece o primeiro verso de um poema, mas cheguei por acaso a Lisboa num dia de sol. E ao sair do Rossio, da estação do Rossio, olhei para a luz, olhei para aquilo e senti-me no paraíso.»
(Urbano.) «Eu lembro-me na Faculdade de Letras, quer dizer, ela estava ligada assim a um grupo onde havia mais homens que mulheres e, bom… e as mulheres, quer dizer, tinham uma certa inveja da Fernanda, também, algumas, não digo todas, não é?»
(F.B.) «Encontrávamo-nos em cafés. Aaaa…, podia ser na Orquídea, podia ser na Paraíso, podia ser no Chave de Ouro. Muito. Aaaa… E ali é que se resolviam os grandes problemas da nação.» [Riso breve.]
(U.T.R.) «A Fernanda era sempre a... atraente, porque tinha muito humor, tinha, às vezes, tinha aquela pequena maledicência, que não chega a ser acintosa, mas que, as mulheres gostam imenso disso.»
…………………………………………………………………………………….
(Voz de AMCV.) «Ela já era casada… isso foi… e já tinha até o filho; mas tinha disponibilidade para conviver connosco.»
(U.T.R.) «Quando nós começámos a assinar documentos a favor da liberdade de imprensa, para a libertação dos presos políticos, para a abolição da censura, aaa… a Fernanda Botelho alinhou sempre connosco. E a maior…., muitas das raparigas, eu, por exemplo, eu lembro-me que nessa altura da greve, muitas das raparigas iam às aulas.»
(J.V.) «Eu acho que a Fernanda também nunca teve problema nenhum em frequentar os meios que os homens frequentavam, não é?»
«Em Lisboa encontrei realmente um ambiente muito diferente. E depois relacionei-me, isto foi o factor principal, com o David Mourão-Ferreira, que era aluno na mesma, mas que tinha as mesmas veleidades literárias. Ele também queria ser escritor. Queria ser poeta. Eu queria ser escritora. E ele queria ser poeta.»
(A.M.C.V.) «É ele que a apresenta ao seu grupo, ao seu grupo literário; é ele que insiste em que ela apareça como poetisa e depois como prosadora.»
(J.V.) «Embora a Fernanda diga que toda a vida, o que gostou de fazer foi, desde miúda que ler e escrever, mas suponho que o contacto com o David que foi absolutamente determinante para ela perceber que tinha a vocação de escritor.»
(U.T.R.) «O David foi um pouco o mentor espiritual da Fernanda Botelho. Era um homem com uma grande cultura, com… muito inteligente, um grande poeta…, foi uma pessoa encantadora, simpática, desejosa de ajudar os outros. Foram dois grandes amigos.»
(A.M.C.V.) Creio que as relações entre a Fernanda Botelho e o David Mourão-Ferreira foram sempre extraordinárias, quase de uma adoração um pelo outro, pela sua obra…
[Folha de rosto ou ante-rosto.]
                                                               ESTA NOITE
                                                     SONHEI COM BRUEGHEL
                                               

                                                                  Para o David Mourão-Ferreira (x),
                                                                         grande amigo, grande escritor
                                                                         (e que grande romancista!),
                                                                         com o grande afecto e um
                                                                         grande abraço — e gratidão —
                                                                                      da
                                                                                           Fernanda Botelho
                                                                                             Lx. Nov. 87
                                                                         (x) extensivo à minha querida

               [Não se consegue ver o resto da página.]

(F.B.) «O António Manuel Couto Viana, o David Mourão-Ferreira e o Luís de Macedo resolveram, à conta deles, aaa… criar umas folhas de poesia porque todos eles eram poetas e saiu a Távola Redonda
(A.M.C.V.) «Ela participou, logo no primeiro número, portanto, veja a admiração que nós já tínhamos pela sua poesia. Era uma poesia muito diferente da das poetisas da época.»
(Voz de J.V.) E, portanto, a Fernanda surge como poeta e tem uma colaboração muito assídua nessas folhas.»
(Voz feminina lê poesia de F.B.)
DESVIOU-SE o paralelo um quase nada
                                                       E tudo escureceu:
                                                       Era luz disfarçada em madrugada
                                                       A luz que me envolveu.

                                                       A geométrica forma de meus passos
                                                       Procura um mar redondo.
                                                       Levo comigo, dentro dos meus braços,
                                                       Oculto, todo o mundo.

                                                       Sòzinha já não vou. Apenas fujo
                                                      Às negras emboscadas.
 Em cada esfera desenho o meu refúgio
                                                      — as minhas coordenadas.
[Esta poesia, com o título AS COORDENADAS LÍRICAS, vem publicada na TÁVOLA REDONDA, fascículo 10, com outras duas de Fernanda Botelho, ocupando toda a primeira página.]
(A.M.C.V.) «Era singular. E eu sei a reacção que teve o público, quando a leu. Foi uma surpresa, como tinha sido para mim, como tinha sido para o David e para os outros nossos colegas.»
(F.B.) «Aaaa…, a Joana Marques de Almeida, que está… aí, não sei onde, ai, está aqui!, …    …    … veio falar sobre a minha obra, não é? …, em que ela é perita…, sabe mais da minha obra que eu.»
(J.M.A.) «Na História da Literatura, do Óscar Lopes [imagem da História da Literatura Portuguesa / António José Saraiva / Óscar Lopes], até havia lá uma parte que tinha um grande elogio, dizia que a Fernanda Botelho era uma voz única na poesia e… só que foi uma voz, na poesia, muito efémera, não é?, porque foi só ali naqueles vinte e oito poemas que constituem As Coordenadas Líricas
(A.M.C.V.) «Uma poesia mais austera, quase agressiva, quase viril.»
(F.B.) «E este é um poema de amor.
Tem rimas tal feitio e destino
Que é para ti, somente.
Se hei-de escrever camélia, escrevo fósseis.
Quando vires abutre, pomba entende.
Que o meu sinistro verbo não te iluda.
Se queres um bom conselho, que te preste.
Monta, solene, um cavalo de lousa.
Chama-lhe Pégaso e alea jacta est.
Existes, porventura? Eu te consagro, porém,
Este mistério de sinónimos.
Decifra-o, se puderes.
Eu nele embarco, nele os náufragos.
Lê sonhos, sempre anónimos.
Salvou-os uma tábua em pleno mar,
Lugar que foi de todos o mais íntimo.
Vês como é fácil? Fácil como achar
Um belo e tenebroso logaritmo.
Não obstante, não era na poesia que eu queria singrar, Era, realmente, na prosa, na ficção.»
(A.M.C.V.) «Na revista Graal a Fernanda, logo no primeiro número, revela-se como prosadora, como novelista. Há uma coisa curiosa, porque a revista tinha um mecenas. Ele chamou-me, logo no segundo, logo no…    …, que é que apareceu o primeiro número e disse-me: — Sr. Director, se o senhor continua a publicar coisas como essas da Fernanda Botelho…, bom, isto acaba-se a revista, já. Porque aquilo é uma imprudência, é um disparate. — Imagine-se! Ele já faleceu, mas ele nessa altura proibiu-me de publicar mais novelas da Fernanda Botelho.»
(J.V.) «E ela já congeminaria, por essa altura, o primeiro romance, O Ângulo Raso…»
(F.B.) «E foi assim que a história começou, a história da minha vida, foi assim que a história começou, relativamente ao romance.»
(Voz.)
— Ah! O Ângulo Raso!? Que nome tão teorizante! — E, astucioso, pediu: — Monte um teorema e demonstre-o.
Samuel suspirou: — Os teoremas nunca foram o meu forte. Mas vou tentar… grosso modo, está claro. — Numa outra folha da agenda desenhou uma semicircunferência. Num dos extremos do diâmetro, marcou zero, no outro, 180 graus. No pólo, 90 graus.
(U.T.R.) «O Ângulo Raso é que foi a grande revelação duma escritora; e creio que n’O Ângulo Raso estão contidas todas as direcções, as grandes direcções da escrita da Fernanda Botelho, todo o imaginário, o universo dela…»
(Voz.) «É uma obra em que, para já, na maior parte dos casos, as personagens principais são mulheres.»
(J.M.A.) «E a Fernanda Botelho trata-as realmente de outra forma, portanto, de uma forma diferente em relação ao que vemos nos romances anteriores, e diferente também em relação ao que vemos nos romances daquela época…»
(Graça Abreu.) «Essas mulheres são mulheres com dificuldade em encontrar o seu lugar no mundo.»
(J.M.A.) «Todas essas personagens femininas inovam, por, pelo protagonismo que têm, pela maneira como são apresentadas ao leitor, não temos aquela descrição física…»
(G.A.) «São mulheres isoladas e são mulheres que rejeitam qualquer arregimentação, mesmo que seja uma arregimentação contra o instituído.»
(U.T.R.) «Sem tomar posição frontal, na rua ou nas revistas, por uma emancipação da mulher, a Fernanda Botelho deve ter sido uma das escritoras portuguesas que, por um lado, melhor revelaram o que era a condição feminina nos anos 50, ela publica O Ângulo Raso, salvo erro em 1957, através da interioridade das mulheres, dos seus comportamentos, das suas conversas, tudo isso está n’O Ângulo Raso, está n’A Gata e a Fábula, está em Xerazade e os Outros…»
(G.A.) «Logo que não encontram um partido, uma ideologia, uma religião que funcione como um ideal de grupo, ou que lhes proporcione um ideal de grupo. São de facto diferentes e reivindicam dessa mesma diferença.»
(U.T.R.) «A leitura que ela fez do filme de Simone de Beauvoir frutificou muito e talvez seja ela, de todas as escritoras portuguesas, que denunciaram a humilhação da mulher e a sua aspiração à liberdade em todos os planos, no trabalho, na vida da relação, na vida erótica, até como mãe, … … está em toda a obra de Fernanda Botelho, duma maneira que é talvez, de todas, a mais importante.»
(F. Branco.) «Isto é único ou… se não é único é raro, entre os autores que conheço. Obviamente que propor figuras de mulher, propor heroínas femininas, nos anos 50, em plena ditadura, com o movimento das mulheres, com as mulheres a fazerem os agradecimentos ao ditador…
Numa época de definição da mulher como a fada do lar, como a esposa, a mãe abençoada, essas tretas todas, não é?! E ela ser capaz de agarrar e mostrar mulheres que procuram fora do casamento, que desfazem o casamento, que procuram inclusivamente mais do que uma vez, ou seja, não só são situações de adultério e o adultério masculino também é corrente, embora as pessoas não olhem tanto para ele, estou a dizer: é corrente no romance, cá fora também!,  mulheres que não só cometem adultério, para já: que não cometem adultério pontualmente, por acaso, porque…, por uma desorbitação momentânea, mas conscientemente e repetidamente. E não só têm um amante fora do casamento, mas podem ter mais do que um amante fora do casamento, há várias heroínas que em momentos diferenciados ou na mesma época têm mais do que um amante fora do casamento, não é?! Eu acho que é preciso muita coragem, realmente…»
(U.T.R.) «Porque são vários tipos de mulher que ela analisa, a mulher submissa, a mulher que só tem como horizonte da vida o casamento, porque é economicamente dependente, não tem uma profissão e depois se sujeita a todas as imposições do marido, a mulher que salta o fosso e que se liberta, ou pelo adultério ou pela ruptura com o casamento e pela experiência duma… duma vida de mulher só. É muito interessante, de livro para livro, ela inclusivamente põe essas mulheres a contracenarem umas com as outras e a dialogarem umas com as outras, o que é extremamente interessante.»
Voz lê e vê-se a página que é lida.
— Não sejas parvinha, Lili!
— Queres que embandeire em arco e comece a cantar o hino? De qualquer forma, para quê, tantos segredinhos? — exclama Lili. — quando a tua amiga chegou, bem podias ter-lhe claramente dito aqui está a Lili, que andou metida com o teu marido há anos atrás, quando todos nós éramos mais novos. A tua amiga não seria certamente tão tacanha que se melindrasse por tão pouco, coisa tão antiga! Ou a tua amiga é dessas que pensam que os maridos lhes caíram nos braços, castos e com medo das mulheres, por não saberem como aquilo funciona por dentro e terem medo de escangalhar a máquina? Não é, pois não? (Esta Noite Sonhei com Brueghel, p. 190, ed. Contexto, 1988.)
(G.A.) «Em alguns livros da Fernanda Botelho, há, de facto, personagens que podem ser consideradas arrojadas, nomeadamente para a época em que foram escritas, mas, mesmo hoje em dia se podem assim considerar. Os ménage à trois, que aparecem nalgumas delas, em qualquer caso o adultério é recorrente em vários dos livros.»
(Voz de J.V.) «O terceiro livro da Fernanda, que é A Gata e a Fábula, é um livro muito giro, muito…, muito interessante. Tem uma personagem absolutamente fora das regras e das normas que é a chamada Gata e essa personagem, que anda sempre suja, que anda, que é amiga dos cães e dos gatos e protege uma rapariguinha toda porca em casa e que faz e que se põe nua à frente dos… e é uma rapariguinha com dezasseis, dezassete anos, põe-se nua à frente dos primos e que se vai meter na cama dum, também, dum amigo, também muito…    …, rebenta completamente com as, com o meio e é…, com um meio conservador onde é, isto passa-se no Minho.»
(U.T.R.) «Estou-me a lembrar, uma mulher, no romance dela Lourenço É Nome de Jogral, que a certa altura se apaixona por um homem que é justamente o Lourenço, que é um sedutor que tem uma espécie, que tem, que é muito, que é quase feminino de aparência, o que lhe dá uma certa cumplicidade com as mulheres e, então, ele tem ao mesmo tempo três casos, um, com essa personagem, que é praticamente a figura central do romance, um, com uma outra, talvez seja mulher dum amigo, e uma outra, com uma catraia de dezoito anos ou coisa assim. É, e então, ela, e é uma mulher, que se diz uma mulher livre; ela, para não o perder, aceita, inclusivamente, que ele a leve para a cama com outra ou… e ela sente-se muito, no fundo, sente um grande desconforto nessa situação e faz isso, para não perder o homem de quem gosta.»
(F.B.) «A título de curiosidade, Lourenço é, das minhas personagens, aquela com quem eu mais me identifico. Parecendo muito estranho, acho que os problemas que ele apresenta no livro, que eles…, que ele tem, que há, são muito meus. Eu não me identifico muito com a maior parte das minhas personagens, elas são elas e eu sou eu, não é?!, mas… à personagem Lourenço, acho que dei tudo, … que me transformei nele ou ele transformou-se em mim. Eu sinto, sinto, sinto isso.»
(U.T.R.) «Entre os grandes amigos da Fernanda, por exemplo, eu estou-me a lembrar de dois homens, que tinham essa, esse poder de sedução e, ao mesmo tempo, uma delicadeza quase feminina, que eram o David Mourão-Ferreira e o António Ramos. Dois grandes amigos da Fernanda, que coincidem com esse, … com essa figura masculina, que é uma figura donjuanesca.»
(J.M.A.) «O romance, que eu acho que é dos melhores, que é Esta Noite Sonhei com Brueghel, é a própria personagem feminina, não é?!, a tentar descobrir o que é que correu mal no casamento, portanto, aquilo é uma busca, ela, ao mesmo tempo, quer dizer, tenta compreender o casamento e tenta compreender-se a si própria, e tenta compreender o marido, tudo muito bem, muito bem articulado, muito bem narrado e entretanto sabemos que a personagem, que essa Luísa tem um amante, mas isso não, quer dizer, não parece ter assim muita importância, não é?! E parece-me que o leitor não fica contra ela, por isso, o leitor fica do lado dela e no fim vimos a descobrir que o problema tinha sido ela ter engravidado, quando o marido não podia ter filhos, portanto, ela própria não sabia qual é que tinha sido o problema.»
(J.V.) «Neste último livro, dos Gritos da Minha Dança…, a Fernanda, aí, acho que perdeu completamente …, quer dizer, não há qualquer sentido de verosimilhança nas histórias que ela conta, mas, portanto, são um bocado anedotas, digamos assim, anedotas, histórias exemplares, muito curtas; como, também há uma história de duas gémeas que também são trocadas ou se trocam para, para se casarem lá com um senhor rico ou não sei quê…»
(F.B.) « Acha isso irreverente? Não sei, claro…, acho que é uma história, apenas, com uma determinada dinâmica, mais nada. Irreverente, não! Elas até são bem comportadinhas, as duas gémeas.»
(J.V.) «A Fernanda, de facto, é uma pessoa, é uma mulher sem preconceitos e que fala das coisas com a maior das naturalidades.
(Voz.)
Roberto e Norberto deram as mãos ainda andavam na Pré-Escolaridade. Descobriram em simultâneo e em unanimidade os encantos da Matemática e as afrontas da História. Foi-lhes revelado ao mesmo tempo os inefáveis mistérios do sexo. Um com o outro e vice-versa. Eram felizes, jovens, bonitos. E ambos economistas. O Boss não gostou de os ver de mãos dadas, vinham eles dos lavabos, para onde ele, o Boss, se dirigia, já a desabotoar a braguilha. Perante as aleivosias decorrentes deste confronto, nos labirínticos corredores entre os lavabos e os gabinetes, Roberto e Norberto tiveram de assumir as medidas drásticas que se impunham, seja, arranjar esposa, uma por cabeça. E, para tanto, partiram uma noite, à aventura, dispostos a descer às alfurjas. Acabaram numa discoteca heterossexual. Roberto vê o barman encher dois copos altos com laranjada saída de um jarro. Quer que a ajude a levar?, perguntou à mocinha. Não é nada pesado, disse ela, obrigada. Mas se quiser vir, eu e a minha amiga estamos naquela mesa lá ao fundo. Óptimo, sai-se Roberto, vou buscar o meu amigo que está ali junto da charanga, assim fazemos uma mesa de quatro. Casam no mesmo dia e na mesma igreja. Passam a lua-de-mel em conjunto, uma parte nas Berlengas, o restante em Madrid. Quartos contíguos. Norberto e Roberto comentam os tálamos: ambas as noivas eram virgens, mas surpreendentemente dotadas de apreciáveis aptidões periciais. Óptimo. Hoje vamos às compras, anunciam as jovens esposas. Óptimo. Os esposos entreolham-se, sairão para um breve passeio e voltarão depressa. Quer dizer, enquanto as esposas se consagravam à pechincha das baboseiras, eles dedicar-se-iam a outros jogos de corpo-a-corpo, a nostalgia era avassaladora. Troca por troca. Óptimo. Voltaram, sorrateiramente ao hotel. Quando entraram num dos quartos, confrontam-se com as duas jovens esposas, Branca e Clara, nuas, enrodilhadas uma na outra, cabeça para um lado, pernas para o outro, em confusão e alternativa. Elas erguem-se, assarapantadas, enroladas nos lençóis arrancados á cama. Enfrentam os maridos com temor, mas também com desafio. Acabaram por confessar que andavam naquilo desde o nono ano do Secundário. Norberto e Roberto desatam a rir, que maravilha, que oiro sobre azul! Viver em partie-carrée, com coreografias pas-de-quatre — tão ortodoxo! O amor sorriu-lhes em quadruplicado e a cada uma das senhoras foi dada a benesse de um filho e de uma filha. Viveram felizes para sempre. [Gritos da Minha Dança, Pas-de-quatre / Conto breve, pp. 77-79, com supressão de alguns períodos.]
(F. Branco.) «É muito engraçado, porque, quando eu estava a fazer esse trabalho, um amigo meu, bastante mais jovem do que eu, dizia: “Ah, vais trabalhar a Fernanda Botelho, ah, é assim um bocadinho de pornografia soft.” É engraçado, porque, tantos anos depois, um indivíduo que neste momento está nos quarenta e tal anos, ainda acha e eu pergunto: e o sexo na obra de Fernanda Botelho tem uma intensidade maior que na obra de muitos outros autores masculinos? Não tem. O problema é que ela não é um autor masculino. E, portanto, as pessoas perguntam: como é que…, agora uma mulher põe-se a falar destas coisas?»
(J.V.) «Eu acho que os livros da Fernanda eram de uma pessoa lúcida e que relatava com verdade aquilo que, a que assistia, não é!? E, portanto, como se sabe, sempre existiu desde tempos imemoriais a homossexualidade, tanto feminina, como masculina, mas é muito raro no livro de uma outra portuguesa, e eu não me lembro de outro caso, aparecer como é no segundo livro da Fernanda, no Calendário Privado, aparecer de facto a revelação da homossexualidade de um amigo, também, duma das, da personagem feminina principal.»
(F.B.) «Eu crio as personagens e depois as personagens, depois, eu gosto ou não gosto. E as personagens impõem-se-me. Algumas delas, de que eu tencionava…    …, às quais eu tencionava dar um caminho dentro do romance, dentro da história, numa determinada altura, desviam-se. E eu deixo-as; elas é que se impõem. Elas é que me indicam o caminho que querem seguir. E eu aceito. Isto parece um bocado complicado.»
(J.M.A.) «E as personagens dela são realmente personagens que se impõem e que ficam, não é!?, não são daquelas personagens que morrem quando se fecha o livro.»
(F.B.) «Há uma personagem masculina de que eu queria fazer uma espécie de malandro, em que o… ele era um conquistador e eu queria, como não gosto muito de conquistadores…, também não tenho que gostar, não é!? Cada um é como é. E eu queria fazer dele uma personagem um bocado caricata sob esse aspecto, aaaa… e a partir de uma certa altura, deixei de o governar… e não consegui que ele se me tornasse antipático, nem a mim, nem aos leitores e ele por lá anda muito feliz da vida, a personagem, porque eu não consegui desfigurá-lo.
(U.T.R.) «Todos os escritores têm muito de autobiográfico, o que é é que o autobiográfico, através do processo narrativo transforma-se, quer dizer, nós pensamos, nós vamos reproduzir uma vivência nossa e transformamo-la. Pensámos numa determinada personagem, que viveu connosco ou com que nós observámos de muito perto e ao escrever transformámo-la e criámos uma outra figura. Quer dizer: a literatura acaba por ser uma forma de transformação do vivido e do observado, mas que os livros da Fernanda estão carregados disso, estão.»
(F.B.) «Nos meus livros há muita cosa que é…, muita coisa que é…muita coisa!..., se não são tantos…, mas algumas situações que são reais ou que eu conheço e transformo um bocadinho, evidentemente, mas a maior parte delas são deduzíveis, quer dizer: eu, a partir de comportamentos que eu conheço deduzo certas circunstâncias e… pode acreditar que muitas vezes a realidade ultrapassa a fantasia.»
(J.V.) «Conviveu muito com a Natália, com a Natália Correria e com as tertúlias da Natália…
[No ecrã, quadro com Natália Correia, Fernanda Botelho e Maria João Pires, retratadas por Nikias Skapinakis, Colecção Fundação Calouste Gulbenkian.]
(F.B.) «Posso mesmo dizer que éramos amigas. E a casa dela estava sempre aberta para receber os amigos. Um dia, foi lá até um escritor norte-americano, o Henry Miller, aaaa… Quer dizer: calhou ser convidado a ir a uma dessas noites, soirées, em casa da Natália…, e ele estava um bocado embasbacado e aaa… perguntaram-lhe, ele explicou: “Eu julgo-me transportado para o século XVIII.”»
(Urbano) «Lembro-me muito bem disso, quer dizer, porque então em casa da Natália falava-se muito, falava-se muito, falava-se de tudo. E o Henry Miller, que estava a ouvir aquilo tudo, depois, acho que chegou-se ao pé do David e disse-lhe: “Ouça lá, mas aqui fala-se tanto de sexo e quando é que se passa à prática?” [Para alguém, atrás da câmara:] Já conhecia isto ou não? “Quando é que se passa à prática?” E não se passou à prática.» [Mais do que rir, vemos de Urbano o fácies iluminado de prazer contido, riso dificilmente represado.]
(J.V.) «Foi durante muitos anos, porque ela divorciou-se relativamente poucos anos depois de se ter casado, portanto, foi durante muitos anos uma mulher sozinha e com… e livre.»
(U.T.R.) «Teve um grande amor(es) ………, quer dizer, e te(ve)…, separou-se do marido, como sabe. E teve vários casos na vida dela.»
(J.V.) «Eu tenho impressão, porque ela casou-se cedo demais, não é?, quer dizer, ela deve ter casado com, por volta dos vinte anos e o marido também era muito novo e, depois a vida que teve em Lisboa, fê-la descobrir outras pessoas e o casamento, suponho que se tornou uma amarra para ela e não durou muitos anos.
(F.B.) «Ai, o casamento é uma coisa respeitabilíssima…    …, para toda a gente, menos para mim.» [Abre os braços e sai um som, como a raiz de duas ou três palavras que não chegam a formar-se.]
(Voz de A.M.C.V.) «Eu também tive a sensação de um certo desencanto, que haveria naquela família, não é!?, de maneira que… ela era muito independente.»
(Voz de U.T.R.) «É uma escolha, é uma mulher que aceita ficar sozinha. Ela trabalhava, ela foi durante muitos anos, trabalhou no turismo belga.»
(F.B.) «Mas, continuar a escrever foi realmente e prosseguir na escrita, eu achava que era a minha missão, mas evidentemente que não podia viver disso, portanto, tive de realmente de correr… de arranjar um trabalho, outro trabalho com que me valesse na vida para sobreviver. E, dentro da sobrevivência, eu arranjava um tempo, mesmo à noite, já antes de adormecer, para escrever livros um bocadinho.
(J.V.) «Antes do 25 de Abril, a ideia que eu tenho é que a Fernanda era juntamente com a Maria Judite de Carvalho era considerada uma das escritoras mais importantes, a Natália Correia, também, da literatura portuguesa. E a Fernanda estava digamos também muito na vanguarda da própria forma, da Fernanda escrever… e depois há um interregno de facto muito grande, com estes anos que se seguem ao 25 de Abril.
(U.T.R.) —O Lourenço É Nome de Jogral, salvo erro, é de 71 e, a partir daí, há um salto até 87, enorme, portanto, há um período que eu nunca compreendi muito bem em que ela se cala.»
(F.B.) «Tinha cinquenta folhas A4 escritas à mão de um livro a que eu iria chamar Esta Noite Sonhei com Brueghel. Aconteceu que entretanto surge o 25 de Abril. Claro que há um grande entusiasmo, mas com esse grande entusiasmo há uma quebra na produção literária.
[Durante dez segundos, imagem do rosto de Fernanda Botelho, actual; sobre ela, a legenda: Fernanda Botelho deixou de publicar durante 16 anos.]
[F.B.] Eu achei que, e isto é sincerissimamente…, o 25 de Abril surge, o entusiamo é grande e eu penso: não vale a pena eu escrever, porque isto é muito melhor do que a escrita. Escrever para quê? Eu não posso escrever nada mais interessante do que isto. Eu acho que não vale a pena, acho que não vale a pena. E, então, parei de escrever. Até que um dia me surgiu uma proposta para um livro novo, portanto, agarrei nas cinquenta páginas que eu tinha deixado para trás de Esta Noite Sonhei com Brueghel e de que eu já não me lembrava como era, achei que aquilo estava tudo errado, modifiquei aquilo tudo e escrevi um livro novo…, chamado Esta Noite Sonhei com Brueghel, que iniciou uma outra fase.»
(J.V.) «A partir de Brueghel ela também publicou com regularidade. Depois, publicou a Festa em Casa de Flores, publicou Dramaticamente Vestida de Negro, publicou As Contadoras de Histórias.
(F.B.) «É importante, porque é provável que seja o último livro que eu publico. Talvez não seja, mas a hipótese não pode ser posta de lado.
(J.V.) «Portanto, ela retomou o ritmo, quer dizer, é quase uma separação de águas, o antes e o depois do 25 de Abril, em número de romances. O(s) Gritos da Minha Dança não sei se é o livro preferido da Fernanda. A Fernanda diz sempre que é o último, mas este livro é de facto um livro aonde ela põe muitas das, quer dizer, o talento imenso que ela tem de efabular está ali todo à mostra, depois uma ironia também muito corrosiva não se esconde e depois a Fernanda tentou em vários livros conjugar géneros literários diferentes como é, por exemplo, o Brueghel tem várias poesias, o Lourenço É Nome de Jogral, também, tem capítulos que são poesias e, portanto, aqui, descaradamente, junta peças de teatro, histórias tradicionais e estes, estes contos burlescos:
– Tenho a certeza de que o almoço se vai atrasar. A malvada põe-se à conversa com o carteiro e é cá uma conversa! Ela nem sabe que ele está amigado com a Rosa do Fagundes e olha que o Fagundes não é para graças. O pai dele baixava as calças, fazia cocó na estrada e depois mostrava o rabo a quem passasse por lá. O rabo dele era um pandeiro. Quem quisesse, servia-se. A mulher dele, quando lhe cheirava, fechava-lhe a porta e deixava-o ao frio, debaixo do alpendre. Com um penico. Não se sabe bem para quê, o penico. Mas ela não era lá muito certa, caiu do telhado em pequena, rachou a cabeça e ficou estrábica. O Fagundes até berrava que não era dele, não podia, tão feia, tão fedorenta, de olhos tortos…
– Não era assim tão feia, só muito magra. E até se parecia com o pai.
– Então o Agapito que já então andava no contrabando tentou acalmá-lo, que sim, que sim, então chegaram a vias de facto. O Agapito agarrou num sarrafo, foi-se a ele e furou-lhe um olho. Agora, já é tua filha, meu sacana, também tens os olhos tortos. E vai o outro, agarra num canivete e furou-lhe as tripas.
– Foram só uns golpes, nada de tão grave.
– Isso foi o que disseram. Aquilo foi tudo combinado com o médico, para se safarem todos. O médico não queria sarilhos, o homem morreu.
– Foi um ataque, sofria do coração.
– O médico até fechou os olhos, quando aquele safado…, lembras-te dele?, matou o pai, só para lhe ficar com uma horta de couve galega com um limoeiro no meio.
– É um belo pomar e uma bela horta.
– Qual quê? O que lhe vale é o que a irmã lhe manda, do que ganha no bordel em França.
– Ela trabalha num hotel.
– O pai deles é que era cá uma besta. Morreu de um arroto tinha comido e bebido como um animal. Arrotou tão forte que lhe ficou a alma pelos gargomilos.
– Foi de uma peritonite.
– Isso foi o que o médico disse. Quanta gente terá morrido por causa de ele não ter chegado a tempo! E a mulher dele…
– A mulher dele era a nossa mãe, e ele, o nosso pai.
– Olha agora a bastarda que és a levantar a garimpa!
– Serei assim tanto!?
[Gritos da Minha Dança, Bailarico Saloio, pp. 53-59, com supressões e sem a nota inicial.]

(J.V.) «A obra da Fernanda Botelho é maioritariamente constituída por romances, que são, por um lado, de um ponto de vista formal, muito bem pensados e urdidos, trazendo cada um a sua novidade…»
[Voz de G.A.] «Enfim, a Fernanda Botelho insere poemas, insere diário, insere guiões de cinema; na sua obra insere o happy end
(J.V.) «Muitos dos truques do policial ela utiliza-os em romances que não são policiais, não é!?, portanto os livros têm sempre um desfecho mais ou menos inesperado, há sempre uma revelação no fio, ela esconde do leitor dados, que só são revelados, a partir de certa altura e doseadamente.
(F. Branco.) «A Fernanda Botelho começou por ser apenas um nome e começou com Xerazade e os Outros. Foi o primeiro romance que eu li dela. E foi assim um deslumbramento. Eu nunca tinha lido nada naquele género e fiquei absolutamente deslumbrada, aquela, aquele desdobramento de vozes, aquela, aquela solicitação constante, não é?!, um leitor, que tem que estar muito atento a ver o que tudo se passa.»
(J.M. A.) «Quando ela surgiu, quando ela começou a escrever, eu acho que foi esse um dos motivos que originou aquele, o sucesso que foram os seus primeiros romances, era a complexidade da escrita dela, as inovações, aquela escrita tão trabalhada…»
[Rodando sobre linhas brancas, curvas, formando meridianos e paralelos, o texto a seguir transcrito sobre as páginas de caderno manuscrito de Fernanda Botelho; vão sendo folheadas…; frases impressas em rotação à volta deste globo, umas num sentido, outras noutro. Ao mesmo tempo, a autora fala dos livros que não torna a ler.]
[…] escrevem a voz e eu vozeio a réplica. [G.M:D:, p. 24.] Seja como for, as vozes deles, esses amados ruídos continuarão a ser para mim uma noite fechada em trevas sem jamais se fazer dia […]. [G.M.D., p. 24.] E sem o Wagner, o meu ribombante Wagner que me enche o coração de cristalizado empolgamento? [G.M.D., p. 23.] Vou pôr ao pescoço, enfiado num fio de prata, um livrinho de notas com lapiseira acoplada. Eles escrevem a voz e eu vozeio a réplica. [G.M.D., p. 23.]

 (F.B.) «Eu não volto a ler os meus livros…, por medo, por medo de ter vergonha, por medo… de nunca…   … se eu…, de pensar assim: ai, se fosse hoje, eu não escrevia assim, eu escrevi este disparate. Escreveria muito melhor; não era assim que eu daria andamento ao romance. Eu tenho medo disso; já está feito, está feito. Portanto, eu não quero saber. O que está feito, está feito, fica lá e eu fico na ignorância de se está bem ou mal feito.»
(J.M.A.) «A obra dela não é realmente muito extensa. E isso, talvez, esse talvez seja um dos motivos porque ela não é hoje em dia tão conhecida quanto poderia ser ou até diria que deveria…»
(F. Branco.) «Eu não sei, se tem realmente o peso que poderia ter… e que seria se calhar vantajoso para a literatura portuguesa se ela conseguisse se ela tivesse... As Contadoras de Histórias, por exemplo, não é?, é fresquíssimo, é um livro fresquíssimo,  é um livro, realmente, que baralha de novo todos os dados do tempo, da narração, dos narradores, duma forma agora de novo diferente. E de novo com uma genica, com uma frescura, com uma apetência pela escrita, que eu acho que se calhar é pena se não tem o impacto que poderia ter.»
(F.B.) «Eu deveria, precisava realmente de voltar a ler os meus livros para ter uma ideia, para ver e até sobretudo, para ver se gosto da autora.
[Na imagem, com Jorge Sampaio e o presidente da APE, a legenda: 1998 — Fernanda Botelho recebe Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores.]
(Voz masculina, de locutor.) «A consagração de Fernanda Botelho chegou com a atribuição dos mais importantes prémios nacionais. Publicou ao todo quinze volumes, mas nem só de escrita se fazem as linhas de Fernanda Botelho. Traduziu alguns textos importantes, como o Inferno de Dante; e ainda hoje faz crítica literária, para a Fundação Calouste Gulbenkian. Passado mais de meio século da sua estreia literária, Fernanda Botelho continua a ser uma livre pensadora, sem amarras a condicionalismos ou imposições, com a mesma dignidade com que sempre encarou a vida e a literatura, a escritora portuguesa mais vanguardista dos anos 50 é hoje uma defensora da eutanásia, mas não esconde a importância crescente da família nas suas coordenadas. Tal como a obra, também a sua vida se divide em dois universos.»
(J.M.A.) «Dividindo a obra dela em dois, em dois universos diferentes, temos o universo que alguns críticos dizem não existir, não é?, dos sentimentos, do amor, da esperança, e temos o outro, o da diferença, o da angústia e da geometria, em que o universo, onde não há lugar para os sentimentos, porque tudo é geometricamente perfeito.»
(Urbano.) «Ela escreve um pouco a compasso e esquadro, não é!?, mas se alguma coisa vem sobressaltar essa escrita geométrica é sobretudo a ironia mais do que os impulsos líricos.»
(G.A.) «A geometria é aquilo de que mais se em falado, se calhar, na crítica literária, a propósito das obras de Fernanda Botelho. E eu diria que a geometria está presente na arquitectura rigorosa dos romances, mas está presente está presente explicitamente e não só a geometria, a matemática.»
(F. Branco.) «Os manjares são muito geométricos, muito bem, muito bem desenhados, a frase muito bem desenhada, exactamente a poesia dela também é. E eu não considero uma perda, considero um ganho, porque o que se consegue dizer de afectivo por uma escrita, rigorosa, por uma escrita aparentemente nua, é levíssimo.»
(F.B.) «Portanto, a acção vai-se dilatando e se partiu de uma recta, de zero graus, vai subindo até ao máximo, porque todos os livros têm mais ou menos um máximo em que a acção está exacerbada, digamos assim, que são os noventa graus. E a partir desses noventa graus as coisas começam a ser solucionadas e atingem então o outro lado, ao mesmo nível do zero, mas já são cento e oitenta graus.»
[Acompanhando a menção de «zero», «noventa», «cento e oitenta» vai aparecendo, à vez, no ecrã, [0º], [90], [180º].]

(J.M.A.) «Uma imagem que sobressai da obra de Fernanda Botelho, na minha opinião, é a imagem dum círculo, porque temos o primeiro romance, O Ângulo Raso, que forma um círculo quase perfeito, eu digo sempre quase perfeito, porque pode haver outras interpretações, porque uma vez que começa e termina da mesma maneira, com frases quase idênticas, com ligeiras diferenças, e com uma personagem que diz vive uma situação também muito idêntica. E depois, o próprio conjunto da obra volta a traçar essa circunferência, mais uma vez, quase perfeita, uma vez que o ângulo raso do primeiro romance surge de novo ou é invocado no último texto do último livro da autora, os Gritos da Minha Dança

(Voz.)

Ai balancé, balancé, como eu ia alto no meu balancé! Como eu voava, voava…! Tinha cinco anos e acabara de descobrir (por ouvir dizer) que era estúpida ou, pelo menos, pouco inteligente. Mas no balancé ninguém me batia, eu subia mais alto, mais alto, mais alto…

Um ângulo raso desenhado pelas cordas!

Cento e oitenta graus de metafísica!

E até mais ler. [G.M.D., Dança de São Vito, p. 134.] 



(F.B.)

O interlúdio que me resta, a mediania ainda vesperal, o espaço ainda matinal, quero aproveitar tudo ao máximo, no claro-escuro, entre noite-e-dia, no confuso esbatido de cores e de seus contrastes — as vozes dos meus netos, esse quase-tudo que vou perder! É evidente que posso um dia ligar para eles e lhes dizer ao telefone: morri. Mas não lhes ouvirei as lágrimas.
 [G:M:D:, Dança quase macabra, p.24.]

           [Acaba a leitura e olha-nos directamente nos olhos.]



[Imagem: um ramo de árvore atravessa o ecrã, quase deitado, sobre a relva, em fundo verde de árvores. Volta a criança no balancé; o rosto de Fernanda enche agora o ecrã, olha para o alto; depois roda lentamente para a esquerda, dando-nos o perfil do lado direito. Na face, em letras brancas:

Fernanda Botelho

       Escritora]



(FB)

«Olha, agora estou a recordar (?), a …?…?….do céu, está lindo, já viu?»

***
2: Director de Programas                                             Anotação
                                                                                     Marta Marques
Manuel Falcão                                                             Cândida Cancelinha
                                                                                     Sara Pereira
2: Subdirector de Conteúdos                                      Paula Gonzalez
Carlos Vargas
                                                                                     Assistente de Fotografia
2: Subdirector de Programação                                  Miguel Rodrigues
Bruno Santos
                                                                                     Assistentes de Imagem
2: Director de Produção                                               Bruno Pesqueira
Alice Malheiro                                                             João Pedro Protásio
                                                                                     Vasco Silva
2: Produção Delegada
Olga Toscano                                                               Assistente de Som
                                                                                     João Miguel Marques
Fontes Documentais
Arquivos e Documentação RTP                                 Pós-produção Áudio
                                                                                     Samuel Rebelo
Documentalista
Pedro Duarte                                                                Animação 3D
                                                                                     Ricardo Pires Guerra
Direcção Geral Panavideo
Telma Teixeira da Silva                                               Ilustrações
                                                                                      Miguel Lopes
Consultoria / Entrevista a Fernanda Botelho
Joana Morais Varela                                                    Colorista
                                                                                     Pedro Clérigo
Pré-Guião
Jorge Nunes                                                                  Imagem / Direcção de Fotografia
                                                                                      Jorge Afonso
Actriz
Cecília Guimarães                                                         Pós-Produção HD
                                                                                      Miguel Lopes
Voz-off
Sofia Morais                                                                  Jornalista / Guião
Paulo Rocha                                                                   Anabela Almeida
                                                                                      
Figuração                                                                       Realização
Natacha Viana                                                               António José de Almeida
Bernardo Carqueijo
Catarina Carqueijo                                                         Agradecimentos
João Almeida                                                                 Revista Colóquio/Letras – Fundação C. Gulbenkian
Telma Almeida                                                              Gabinete de Estudos Olisiponenses
Rita Gaspar                                                                    Editorial Presença
Luís Relógio
Marco Mercier

Produção                                                                        
Rita Gaspar
Maria de Jesus Carvalho
Maria José Dias


Gravado em
HDCAM
SONY


Panavideo



Uma parceria

       
               2 :


Instituto Português do
Livro e das Bibliotecas

           M/C

 Ministério da Cultura

Produção
Para
2 : 005


2 :