terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Morte e Vida Severina

7 de Janeiro de 2015
No comboio para Lisboa...
Falávamos...
A língua portuguesa, na expressão brasileira e lusitana... A minha preocupação pelo facto de, quando se acede à internet, sermos guiados em aspectos básicos, técnicos, de ficheiros, escrevendo palavras como download, upload, access, na fala do lado de lá do mar, parecendo-me que o governo português devia poder impor a daqui, no nível em que o pode e deve fazer. Fora disso, gostaria de ver as línguas portuguesas da chamada lusofonia seguirem os seus caminhos, sem a preocupação imperial. E sem medo nenhum de contactos no universo da língua portuguesa e de todos os povos com quem ela se enriquece. É um grande logro o dos números, em que caem — na nossa opinião — grandes espíritos.
Dito isto, admiro a par os textos dos melhores escritores, sem distinção de país.
Neste ponto, apresentei à minha companheira de viagem João Cabral de Melo Neto.
Em 1966, no cinema Império, em Lisboa, tive a felicidade de assistir à representação de Morte e Vida Severina. Morava ali perto, na Abade de Faria.
Recordo as coisas assim: um jovem cantava certos passos, com diferenças de pronúncia, abertura, fonemas, doçura, inebriante... Durante muito tempo, fui cantarolando essas partes, sobretudo quando com um grande amigo — até hoje —, que também teve o privilégio de ver e ouvir Morte e Vida Severina - Auto de Natal Pernambucano.

Na série Duas Águas, Editora TUCA (Teatro da Universidade Católica de S. Paulo), 1968
i
— Finado Severino, quando passares em Jordão e os demônios te atalharem perguntando o que é que levas...
— Dize que levas cera, capuz e cordão mais a Virgem da Conceição. ......      …...      …..      ……      ......
— Uma excelência dizendo que a hora é hora.
— Ajunta os carregadores que o corpo quer ir embora.
— Duas excelências...      ….      ....
ii
«Essa cova em que estás / com palmos medida, / é a conta menor / que tiraste em vida.» ......    ......    ......
Estas, as partes que cantávamos.
Agora, às vezes, lembro Morte e Vida Severina, mas eu e o tal amigo, quando nos encontramos, temo-nos esquecido de cantar. «Uma excelência dizendo que a hora é hora»... Duvido que na altura da representação soubesse quem era Chico Buarque, mas a voz que imitava mentalmente, quando cantava, era a dele.
O retirante resolve migrar ao longo do rio Capibaribe até ao Recife, fugindo à seca do interior do Nordeste, procurando melhor vida no litoral. Acompanhamo-lo nessa migração.
Ver, no fim, ligação para uma muito boa evocação da Lisboa de 66, o café Vavá e a passagem de Chico Buarque pela capital portuguesa. Morte e Vida Severina foi, ainda, representada em Coimbra e no Porto.
*
— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

Esta parte pode ser ouvida, através do primeiro endereço que damos, abaixo, na voz de Chico Buarque. No texto está escrito «cota» (1), mas é «conta» que o cantor pronuncia, com o mesmo significado de porção, quantia. O que falta pode ler-se em SELECÇÃO 2. A identificação com a terra é completa, na nudez total. Nela, que lhe bebeu o suor vendido, viverá para sempre, livre do sol e da chuva. A terra o abriga e o veste, com um fato feito à medida. «[...] deixa-te semear ao comprido». «Não levas semente na mão: // és o próprio grão.» «Se abre o chão e te envolve, // como mulher com quem se dorme.»
A parte à volta do nascimento do menino (SELECÇÃO 3) é banhada de religiosidade, do carácter sagrado com que é sentida a vida. A vida é salva pelo menino. Não é um acaso o subtítulo da obra de João Cabral de Melo Neto: Auto de Natal Pernambucano.     
________________ 
(1) Tenho, entretanto, nas minhas mãos o livro Morte e Vida Severina e outros poemas para vozes, na 59.ª reimpressão da 34.ª edição (1994), da EDITORA NOVA FRONTEIRA, Rio de Janeiro. Este belíssimo livro inclui, ainda, O rio; Dois parlamentos; Auto do Frade. «é a conta menor / que tiraste em vida»: assim se pode ali ler, sendo certamente gralha a grafia «cota» do texto da internet, aqui reproduzido.  [Nota acrescentada em 18-01-2015, às 19 horas.]

SELECÇÃO
1
NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA,VAI PARODIANDO AS PALAVRAS DOS CANTADORES

— Finado Severino, quando passares em Jordão e os demônios te atalharem perguntando o que é que levas...
— Dize que levas cera, capuz e cordão mais a Virgem da Conceição.

— Finado Severino, etc. ...

Dize que levas somente coisas de não: fome, sede, privação.

— Finado Severino, etc. ...

— Dize que coisas de não, ocas, leves: como o caixão, que ainda deves.

— Uma excelência dizendo que a hora é hora.

— Ajunta os carregadores que o corpo quer ir embora.

— Duas excelências...

— ... dizendo é a hora da plantação.

— Ajunta os carregadores...

— ... que a terra vai colher a mão.


SELECÇÃO
2
ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO
— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

— Viverás, e para sempre,
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
— Será de terra tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
— Será de terra e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
— Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.

— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos).
— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).

— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.

— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.

— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
— Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha.
— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.

— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito a viração.
— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com quem se dorme.

SELECÇÃO
3
O nascimento do menino; o caderno que se inicia

UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ

— Compadre José compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.

APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM VIZINHOS, AMIGOS, DUAS CIGANAS ETC.

— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor.
[...]

COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO

— Minha pobreza tal é que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues;
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
— Minha pobreza tal é que coisa não posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar;
aqui são todos irmãos,
de leite, de lama, de ar.

 FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES ETC.
[A formosura do menino]

— De sua formosura
já venho dizer:
[...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[...]
— Sua formosura
deixai-me que cante:
[...]
— Sua formosura
eis aqui descrita:

 [...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[...]
— De sua formosura
deixai-me que diga:
[…]

— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
[...]
Na internet
https://www.youtube.com/watch?v=IZnXIWIyDq4 (Filme, 1977; especialmente, de 30:56 a 33:35.)
https://www.youtube.com/watch?v=MthmmdJgQXY (Teleteatro musical, 1981, com parte do elenco do filme de 1977; especialmente, de 52:02 a 54:51.)
http://www.releituras.com/joaocabral_bio.aspPublica em Lisboa seu livro Quaderna, em 1960.»; «Como ministro conselheiro, em 1966, muda-se para Berna. O Teatro da Universidade Católica de São Paulo produz o auto Morte e Vida Severina, com música de Chico Buarque de Holanda, primeiro encenado em várias cidades brasileiras e depois no Festival de Nancy, no Théatre des Nations, em Paris e, posteriormente, em Lisboa, Coimbra e Porto.» «1982 [...] Vai para a cidade do Porto, em Portugal, como cônsul geral.»)
http://cvc.instituto-camoes.pt/oceanoculturas/11.html (Breve nota biográfica, referindo a colocação de João Cabral de Melo Neto no Porto, no decurso da sua carreira diplomática.Transcreve um poema de Pedra do Sono.)
http://www.releituras.com/joaocabral_morte.asp (O texto integral de Morte e Vida Severina.)
Chico Buarque em Lisboa
(«[...] CHICO BUARQUE E AS VALQUÍRIAS
Helena Carneiro ainda se recorda de uma peça de teatro que foram todos ver ao cinema Império, em 1966, e que marcou aquela geração: Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, representada por um grupo universitário brasileiro que integrava no elenco três músicos para acompanharem as canções. Um deles fez grande furor no Vavá. Era Chico Buarque de Holanda, autor da música da peça, então um ilustre desconhecido, que por cá andou durante um mês, segundo consta, em permanente bebedeira.»)
Bibliografia
A Imprensa Nacional — Casa da Moeda editou a Poesia Completa 1940-1980, de João Cabral de Melo Neto, em 1986.
Há várias edições brasileiras de Morte e Vida Severina.

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